LGBT
12/09/2019 16:36 -03 | Atualizado 12/09/2019 16:37 -03

A cervejaria 'declaradamente católica' que é contra LGBTs e se orgulha disso

"A Saint Arnulf é declaradamente católica; portanto, está a favor de tudo o que ensina a Santa Igreja", diz a empresa nas redes sociais.

Saint Arnulf, uma micro-cervejaria de Montes Claros, no sertão de Minas Gerais, publicou em sua página de Facebook um manifesto de repúdio aos movimentos LGBT.

“A cervejaria Saint Arnulf é contra a militância LGBT e não teme perder clientes por isso. Ponto final”, diz imagem publicada, que não explica a motivação de tal posicionamento. Postagem foi divulgada no última segunda-feira (9).

Em texto que acompanha a imagem, a empresa afirma que, por ser “declaradamente católica” está “a favor de tudo o que ensina a Santa Igreja.

Por este motivo, diz não ter medo de “gritar bem alto o ensino tradicional da única Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo”, mesmo que isso os faça perder clientes. “Pelo contrário, ficaremos extremamente felizes por isso!”, pontua.

A cervejaria pertence a Pabhlo Allan, que é mestre cervejeiro e é ligada ao Instituto de Caridade e Educação Cristã Sociedade da Santíssima Virgem Maria (SSVM), uma organização civil, cristã e sem fins lucrativos com sede em Montes Claros (MG). Segundo o site da SSVM, existem membros em outras cidades pelo País, que não são citadas pela organização.

Em textos publicados no site da SSVM, há menções à manutenção da família enquanto instituição, em defesa da vida e que também criticam um mundo “cada vez mais conivente com o pecado”. 

Em menos de 24 horas, a publicação da cervejaria viralizou nas redes sociais e gerou reação do movimento LGBT e de apoiadores. Publicação, que ainda está no ar, teve mais de 17 mil comentários comentários e 4 mil compartilhamentos.

“O que a cervejaria perde é a oportunidade de lutar por um mundo melhor e defender o que Jesus ensinava sobre amor ao próximo”, disse a escritora Monique Prada, nos comentários. “Vamos aplicar a lei de racismo neles vai ser lindo”, disse a advogada Maria Eduarda Aguiar, também nos comentários.

“Qual foi a parte do amar ao próximo que foi difícil de interpretar?”, questionou uma internauta. Em contrapartida, outros comentaristas apoiaram a empresa: “Essa eu teria gosto de comprar”, escreveu seguidor. “Não bebo, más adorei a iniciativa dessa cervejaria”, comentou outro.

Devido à repercussão, no dia seguinte à publicação, a empresa publicou um novo posicionamento nas redes sociais. Nele, a cervejaria agradece o apoio que recebeu e afirma que não irá recuar “diante das manifestações de ódio e incompreensão que alguns poucos aqui demonstraram”. 

Publicação afirma que a cervejaria foi aconselhada pelo teólogo Carlos Nogué, que segue a mesma linha conservadora da organização cristã, e que irá bloquear todas as pessoas que atacaram a cervejaria diretamente.

“Saiam os que não concordam com as diretivas desse espaço. Façam suas críticas de baixo calão em seus perfis, pois aqui deve imperar o amor ao próximo, os princípios cristãos. Não! Não recuaremos! Respeitamos todas as pessoas, mas JAMAIS aceitaremos o pecado”, diz o comunicado.

O HuffPost Brasil tentou entrar em contato com a cervejaria, mas não obteve resposta até a publicação desta nota.

Os dados sobre LGBTfobia no Brasil 

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência. Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.