Cerveja contaminada: O que é o dietilenoglicol e por que ele é tão perigoso

Primeiros sinais de intoxicação são similares aos de embriaguez, como tontura e alterações motoras; Então se houver suspeita de contaminação, é preciso procurar um médico.

Minas Gerais está em estado de alerta desde que casos suspeitos de intoxicação por dietilenoglicol foram ligados ao consumo da cerveja artesanal Belorizontina, da fabricante Backer, de Belo Horizonte.

Na manhã desta quinta-feira (16), a Polícia Civil de Minas confirmou a terceira morte de uma pessoa que teria bebido a cerveja. Na quarta, o Ministério da Agricultura divulgou que a água usada na linha de produção da cervejaria estava contaminada com a substância dietilenoglicol, que, se for ingerida, causa uma síndrome nefroneural (atinge rins e o sistema nervoso).

Um quarto caso, de uma mulher que morreu na cidade de Pompéu, também está sendo investigado por uma possível ligação com o consumo da cerveja, assim como outros 16 casos de intoxicação.

Além do dietilenoglicol, a perícia encontrou a substância monoetilenoglicol nas bebidas de três lotes.

A diretora de marketing da cervejaria, Paula Lebbos, negou o uso do dietilenoglicol no processo de produção, mas pediu para que a população não consuma a Belorizontina e a Capixaba, outra cerveja da companhia que pode conter a substância.

“A Backer nunca comprou, desde lá da nossa primeira, do nosso primeiro tanque, até o momento, esse dietilenoglicol. Dentro da cerveja nós encontramos [a substância], do lote que foi analisado, que foi o mesmo lote que as autoridades analisaram”, disse a diretora. “O que estou pedindo é que não bebam a Belorizontina, qualquer que seja o lote, por favor.”

“O que estou pedindo é que não bebam a Belorizontina, qualquer que seja o lote, por favor.”

- Paula Lebbos, diretora de marketing da cervejaria Backer

A cervejaria, localizada no bairro Olhos D’água, foi interditada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa). O ministério determinou que todas as cervejas da marca sejam recolhidas e que a venda dos produtos seja suspensa. Além da Belorizontina, a medida é válida para qualquer rótulo de chopes da marca fabricados entre outubro de 2019 e janeiro de 2020.

Mas, afinal, o que é dietilenoglicol?

Enquanto as investigações ainda não determinam como a contaminação aconteceu, é possível afirmar com todas as letras que o dietilenoglicol não é um produto que pode ser consumido.

“Esta substância pertence à classe do álcool, mas não é para consumo. Ela é utilizada na indústria, no sistema de refrigeração, não é um ingrediente ou algo do tipo”, disse o patologista e toxicologista Alvaro Pulchinelli, diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, ao HuffPost Brasil. “Com certeza, ela não deveria estar lá.”

Segundo Pulchinelli, a substância é considerada medianamente tóxica, ou seja, é potencialmente fatal a depender da quantidade à qual a pessoa é exposta. “De modo geral, ela é tóxica se uma pessoa ingere entre 1 e 2 ml por dia. Mas isso depende de muitos fatores como a idade, o peso, o estado de saúde do paciente, entre outras variáveis”, explica o médico.

O risco de intoxicação, contudo, aumenta porque o dietilenoglicol é uma substância “traiçoeira”: tem um sabor adocicado e muito sutil, difícil de ser detectado na ingestão. Por causa disso, a substância tóxica se torna quase imperceptível ― e ainda mais perigosa. “A pessoa não sabe que ela está sendo intoxicada, ela não percebe, não tem um sabor ruim, é até um pouco doce”, diz Pulchinelli.

“A pessoa não sabe que ela está sendo intoxicada, ela não percebe, não tem um sabor ruim, é até um pouco doce.”

- Dr. Alvaro Pulchinelli, diretor científico da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica

O médico afirma que, do ponto de vista toxicológico, não há tanta diferença entre o dietilenoglicol e o monoetilenoglicol. “‘Mono’ é molécula simples e o ‘die’ é molécula dupla. Essa é a principal diferença química, mas, do ponto de vista médico, o conjunto de sinais e sintomas que estas substâncias causam é bem parecido.”

O monoetilenoglicol é mais usado nas indústrias por ser menos tóxico e mais barato.

Sintomas e como agir caso haja suspeita de intoxicação

Os sintomas após a ingestão das duas substâncias são as mesmas: dores abdominais, náuseas, alterações neurológicas, dificuldade de movimentação e insuficiência renal. Eles podem aparecer nas primeiras horas após a ingestão ou demorar dias.

Segundo Pulchinelli, os primeiros sinais da intoxicação são similares aos sintomas de embriaguez, como tontura, alterações motoras e até falhas na visão. Então se houver qualquer suspeita de intoxicação, é preciso que a pessoa procure um médico o quanto antes. “Quanto mais cedo tratar, melhor será a recuperação”, diz o toxicologista.

O médico diz que o antídoto para a intoxicação por dietilenoglicol e monoetilenoglicol é o álcool etílico, que evita a metabolização do álcool tóxico, que será eliminado pelo organismo. Porém, ele ressalta que esse antídoto é aplicado apenas por especialistas e desencoraja aqueles que procuram soluções caseiras. “Não tente fazer um tratamento caseiro; pode piorar a situação. O antídoto correto depende da exposição do paciente e conforme orientação médica”, recomenda.

Além disso, o infectologista diz que, se possível, é bom levar às autoridades a provável fonte de contaminação. Isso é importante para a orientação médica. ”É uma pista da qual o médico parte para avaliar a contaminação e a exposição”, explica.