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20/05/2020 05:00 -03

Negociações de Bolsonaro com centrão enfraquecem ministro da Educação

Abraham Weintraub resistiu, mas foi obrigado pelo presidente a ceder cargos do bilionário FNDE ao bloco fisiológico. Primeiro cargo foi confirmado na segunda-feira para o PL de Valdemar Costa Neto.

EVARISTO SA via Getty Images
Ministro Abraham Weintraub foi contra ceder FNDE ao centrão, mas levou puxão de orelha do presidente.

Desgastado há meses por atitudes impopulares, seguidas de erros no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do ano passado e demora na instalação de escolas cívico-militares, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, segue acumulando derrotas. Nas últimas semanas, bateu de frente com o centrão, bloco político do Congresso com quem o presidente Jair Bolsonaro tem negociado cargos em troca de apoio político — e perdeu novamente. A contragosto, o ministro vai ceder cadeiras em um dos postos mais estratégicos do MEC, o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), inclusive o comando do órgão.

Para este ano, o orçamento previsto para o FNDE é de R$ 29,9 bilhões. O fundo é responsável por compras de material escolar a livros didáticos. É, portanto, quem gerencia o dinheiro que chega na ponta, na população, e, por isso, sempre foi, com seu orçamento bilionário, alvo de cobiça de políticos, em especial em anos de eleição. 

Weintraub vinha resistindo a liberar os cargos do FNDE para nomeações políticas. O presidente Jair Bolsonaro, eleito criticando a “velha política”, acabou se rendendo às indicações de partidos fisiológicos em troca de apoio para equilibrar seu enfraquecimento político. 

Nesta segunda (18), foi nomeado Garigham Amarante Pinto como diretor de Ações Educacionais do FNDE. Ele é uma indicação do ex-deputado Valdemar Costa Neto, nome por trás do PL e preso no mensalão do PT. 

Segundo relatos feitos ao HuffPost, esse primeiro cargo foi formalizado após uma conversa de Bolsonaro com o ministro Weintraub no fim de semana, na qual ele “exigiu” que o chefe do MEC parasse de “atrapalhar” suas negociações. E teria mandado recado semelhante ao da reunião de 22 de abril: ele vai indicar nomes aos ministérios e quem estiver insatisfeito, que deixe o governo. 

Nesta terça (19), Weintraub teve um encontro com o líder do PP da Câmara, Arthur Lira (AL), e o indicado do partido para a direção do FNDE, Marcelo Lopes. Ele foi chefe de gabinete do presidente do PP, Ciro Nogueira (PI). A nomeação deve sair nos próximos dias. O ministro, inclusive, já avisou à atual presidente do FNDE, Karine dos Santos, que ela será destituída da vaga. 

O acordo de Jair Bolsonaro com o centrão, porém, não para por aí. Prevê ainda outras diretorias do FNDE ao Republicanos, MDB e DEM. 

Abraham Weintraub nunca foi querido no Congresso. O fato de liberar cargos para o chefe não mudou isso. Pelo contrário; não apenas parlamentares, mas também militares do governo criticam o ministro. A piada da vez, nos corredores da Esplanada, é que o centrão está finalmente fazendo algo bom pelo País ao enfraquecer o chefe do MEC.

Desgaste contínuo

O ministro da Educação também tem sido alvo de comentários após vazarem informações da reunião ministerial do último dia 22 de abril na qual Jair Bolsonaro teria pressionado Sergio Moro pela troca do comando da Polícia Federal e da superintendência da corporação no Rio.

Conforme relatos ouvidos pelo HuffPost por participantes do encontro e por quem já assistiu à gravação - o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, que relata investigação sobre acusações de Moro ao mandatário, decidirá até o fim da semana se vai divulgar o vídeo -, Weintraub não apenas criticou o STF, como se referiu de forma “extremamente agressiva e indecorosa”, nas palavras de uma fonte, aos magistrados. 

O comportamento do subordinado, que pode vir a se tornar público, tem incomodado Bolsonaro. O próprio presidente, porém, também usou palavrões ao longo da reunião em inúmeras ocasiões e está desconfortável com a possibilidade de divulgação de um momento que ele considera “pessoal”, de acordo com interlocutores. 

O fator Enem

Pra completar a seara de insatisfações na qual Abraham Weintraub está envolvido no momento, está o Enem deste ano. Depois dos problemas do exame de 2019, a pandemia do coronavírus tem levado a uma forte pressão para o adiamento da prova. Na noite desta terça, o Senado aprovou o projeto de lei que adia o Enem. O único voto contrário foi do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). 

Tanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), quanto da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), avisaram ao governo que aguardariam até a noite desta terça por uma deliberação sobre o adiamento do Enem. Isso porque, na segunda (18), o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, os procurou para dizer que, sim, o Planalto cederia e aceitaria prorrogar o Enem. Contudo, nenhuma confirmação foi formalizada após esse sinal de Ramos. 

O ministro da Educação resiste a adiar o exame. Nesta terça, resolveu bater de frente com o Parlamento e propôs uma consulta pública aos inscritos no Enem. Fez uma live em seu Instagram na qual afirmou que é “democracia” ouvir aqueles que são os reais interessados.

“Vamos perguntar para quem é parte interessada e deixar eles decidirem. Isso de cabresto, de um ser dono do outro… Todo mundo é igual. Não uma instituição arcaica, pré-histórica como a UNE ficar falando o que tem que ser feito, o que não tem que ser feito”, disse na transmissão. 

Maia avisou no plenário que vai pautar requerimento de urgência sobre o tema, passando o adiamento do Enem à frente dos demais assuntos nesta quarta-feira (20). Se o PL do Senado for aprovado na Câmara, ele vai à sanção do presidente Jair Bolsonaro.