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04/07/2020 05:00 -03

Aliança de Bolsonaro com centrão e pressão de militares ameaçam ala ideológica do governo

Saída de Abraham Weintraub enfraqueceu ala conservadora. Ernesto Araújo e Ricardo Salles são, inclusive, criticados pelo mercado financeiro.

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Militares criticam Ernesto Araújo desde o início da gestão por alinhamento integral com EUA.

A possibilidade de um nome mais ponderado para o Ministério da Educação, com o convite ao secretário da pasta no Paraná, Ricardo Feder, abriu uma nova frente de disputa entre as alas militar e ideológica pela ocupação de espaços no governo. A demissão de Abraham Weintraub do MEC, que era visto como um dos nomes mais reacionários na gestão Bolsonaro, reposicionou as forças na Esplanada. Os ministros tidos como defensores do conservadorismo estão em peso muito menor agora. E correm perigo, a depender dos integrantes da caserna. 

Damares Alves (Mulheres, Família e Direitos Humanos), Ernesto Araújo (Itamaraty) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) estão na cota do núcleo ideológico. Para aumentar o peso do grupo, interlocutores têm colocado até mesmo o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, nessa conta. Justificam que ele é um “defensor ferrenho do presidente”, foi um dos “primeiros a defender a candidatura” de Bolsonaro à Presidência, além de ser amigo pessoal do mandatário. 

Segundo apurou o HuffPost, o temor da ala ideológica advém do peso que as orientações militares têm tido sobre o presidente — “apesar do [Carlos] Decotelli”. O ex-ministro da Educação que iria substituir Weintraub entrou para a História como o mais rápido da gestão do MEC e acabou destituído do cargo por inconsistências no currículo. Essa derrota caiu na conta do núcleo militar palaciano, que o bancou. 

A avaliação é que, embora popular entre apoiadores e nas redes sociais, Abraham Weintraub provocou um “dano político” e uma “perda de espaço” da ala ideológica junto ao presidente. Bolsonaro não queria demiti-lo, mas já estava desgastado com diversos apelos para tirar Weintraub do governo: de parlamentares a militares do Planalto, passando também por ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). 

O ex-ministro da Educação fez críticas em tom considerado de ameaça aos ministros da Suprema Corte na famosa reunião de 22 de abril e, depois, em uma manifestação de bolsonaristas na Esplanada dos Ministérios. Por isso, acabou inserido no inquérito das fake news — o que “afetou negativamente a imagem do governo” internacionalmente entre investidores e internamente entre aliados. Essa é a avaliação de fontes do Itamaraty e também do Ministério da Economia ao HuffPost. Ernesto e Salles, porém, estão também nessa mesma bagagem de malvistos pelo mercado financeiro. 

Com relação a mudanças no governo, pesam também as novas alianças. Precisando de apoio político, Bolsonaro vem ouvindo mais os conselhos de seu mais novo aliado: o centrão — bloco de partidos de centro-direita da Câmara, muitos deles fisiológicos. Eles seguem uma linha ponderada e mais próxima dos militares, com quem têm boa interlocução. São, da mesma forma, críticos ferrenhos da ala conservadora. 

A reunião do dia 22: Divisor de águas

A queda de Decotelli fez brilhar uma luz para os conservadores, mas não foi capaz de suprir a sequência de “desmandos” e “absurdos” do núcleo ideológico nas palavras de um militar ouvido. 

A reunião de 22 de abril, conforme relatos ao HuffPost, foi um divisor de águas. Embora Bolsonaro tenha reagido e, por cerca de dois meses ainda falado bastante e “auxiliado no desgaste de seu governo”, a avaliação de aliados no Congresso é que foi após o ministro do STF Celso de Mello publicizar a reunião que a ala ideológica começou, de fato, “a se desgastar de forma interna”. Mello é relator do inquérito que apura se o presidente interveio politicamente na Polícia Federal, como acusou o ex-ministro Sergio Moro.

Na ala militar palaciana, que acompanha de perto o dia a dia do governo, a impressão geral é de que “se abriu um vão”. Uma fonte descreveu como “um buraco” e disse que a sensação interna é de uma crise tão aguda que a ala ideológica parece “perdida”. 

Andressa Anholete via Getty Images
Weintraub deixou o governo após atacar ministros do STF. Ele é alvo de dois inquéritos na Corte.

Além dos ataques de Weintraub ao STF na tal reunião, houve a fatídica frase sobre “passar a boiada” de Salles, referindo-se a editar uma série de medidas, em especial sobre meio ambiente, neste momento da pandemia, aproveitando que a imprensa estava atenta à crise sanitária.

A ministra Damares Alves também sobressaiu na ocasião. Ela falou em “prender governadores e prefeitos” que permitissem a prisão de pessoas que estivessem desrespeitando a quarentena imposta em estados e municípios. O STF já decidiu que cabe aos entes federados definir as políticas de isolamento social. 

Ernesto Araújo, que tem sido reiteradamente criticado no Ministério das Relações Exteriores por sua política à frente da pasta, já se referiu à China como um país não democrático. Os chineses são os maiores parceiros comerciais do Brasil e vêm relevando os ataques sofridos da ala ideológica do governo Bolsonaro, que já partiram de vários lados - Weintraub, inclusive, responde no STF a um processo de racismo por uma postagem nas redes sociais em que atribuiu a pandemia de coronavírus ao país asiático. Também os filhos do presidente, como Eduardo Bolsonaro, já fizeram comentários que desagradaram ao aliado comercial. 

O limite

O trio vem desgastando o núcleo ideológico. Isso significa que Jair Bolsonaro vai demitir Damares, Salles e Ernesto? Não necessariamente. Segundo apuração do HuffPost, todos estão correndo para mostrar serviço, em especial desde a saída de Weintraub. 

Damares Alves é a que tem menos motivos para se preocupar. É considerada, assim como Weintraub, uma estrela bolsonarista nas redes sociais. E, como o ex-auxiliar, faz de tudo para agradar ao chefe, com quem é super alinhada. 

Ernesto vive na corda bamba desde que assumiu. Contudo, foi alçado ao posto, como Weintraub, com auxílio do escritor Olavo de Carvalho, pelas mãos de Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, e do filho Eduardo Bolsonaro. Nunca agradou aos militares com seu alinhamento literal aos Estados Unidos. Segue, porém, o que o mandatário acredita. 

Na última semana, ele mandou que todas as áreas do Itamaraty fizessem um balanço dos últimos 18 meses para levar para o chefe. 

O local onde o núcleo ideológico está hoje mais fortalecido é no Ministério das Comunicações, embora o centrão tenha conseguido emplacar Fábio Faria (PSD-RN). Isso porque foi para onde migrou a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República. O chamado “gabinete do ódio”, que seria liderado por Carlos Bolsonaro, segundo investigação da Polícia Federal, foi transferido para lá, apesar das disparidades de função de um órgão com o outro. 

Além do suporte indireto de Carlos, lá há um nome forte do clã bolsonarista: o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, elevado ao posto de número 2 do Ministério das Comunicações A expectativa é que o olavista Filipe Martins ganhe um cargo na pasta também. 

Contudo, se depender dos militares, que contam com o apoio fundamental dos novos aliados do centrão, a Esplanada vai se parecer mais com os ministérios considerados mais moderados, hoje comandados por ministros como Tarcísio Gomes (Infraestrutura), Tereza Cristina (Agricultura) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional). Não polemizam, tocam suas pastas, recebem parlamentares e só comparecem quando chamados. E, importante nestes novos tempos de conversa de Bolsonaro com o Congresso: recebem e não fecham portas para indicados de parlamentares.