28/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 28/02/2019 10:34 -03

Os ensinamentos e saberes ancestrais de Mãe Celina de Xangô

Yalorixá há quase 30 anos, ela gere um centro cultural e ajudou arqueólogos da UFRJ a identificarem os objetos de culto na escavação do Cais do Valongo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Celina Rodrigues é a 358ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

É difícil para Celina Rodrigues, de 55 anos, dar conta da sua rotina: diretora Executiva do Centro Cultural Pequena África, ela também é co-fundadora da Lavagem do Cais do Valongo e responsável por identificar os objetos de culto das religiões de matriz africana no sítio arqueológico do centro da cidade. Ufa. Mas a principal ocupação, que na verdade é um chamado, é o cargo de Yalorixá. Há quase 30 anos, Mãe Celina de Xangô mantém seu terreiro e orienta seus filhos, e toda a sua trajetória é cercada de conexão com a ancestralidade e com os saberes acumulados ao longo da vida: “Tem coisa na vida ancestral que só mãe de santo sabe, somos uma enciclopédia ambulante”.

Não tem como desistir porque não fomos nós que pedimos, foram nossos ancestrais que decidiram.
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"A gente fala de identidade, e o Cais do Valongo está ali. Quer mais que isso?”

Mãe Celina é uma das pessoas que mais defendem a região que carrega a história do povo africano que foi escravizado no Rio de Janeiro. A região da Pequena África compreende os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, o local abarca diversos monumentos e espaços que contam a história do povo negro, mas é especialmente o Cais do Valongo que se destaca. Nomeado Patrimônio Histórico da Humanidade em 2007, no local foi encontrado um sem-número de objetos soterrados, em plena região central da cidade. A equipe de arqueologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro ficou responsável por catalogá-los, mas foi Celina a mãe de santo que identificou quais objetos eram do culto das religiões de matriz africana.

“Foi um trabalho da mãe de santo com a ciência, juntos no mesmo patamar, fazendo o reconhecimento. É punk, porque é uma experiência única. Diante das mais velhas que eu tenho na cidade, ser contemplada e escolhida para estar ali diariamente é importante. E mexe até hoje comigo, porque você está falando da sua história, você está ali vendo sua história. A gente fala de identidade, e o Cais do Valongo está ali. Quer mais que isso?”, questiona a yalorixá.

Nada melhor que estar pertinho da sua história.
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Uma esperança que ela tem é que a conexão com a ancestralidade, a partir da valorização de locais como o Cais do Valongo, seja a salvação do povo negro.

Hoje o trabalho de Celina junto à equipe já se encerrou, e agora na etapa de catalogar os objetos ela não participa mais, mas desde então ela se tornou a voz do Cais do Valongo. Faz parte do comitê gestor e curador do local, e já viajou mais de seis vezes para o exterior para contar ao mundo as riquezas e belezas que estavam enterradas embaixo do asfalto. A experiência, ela conta, foi incomparável.

“Fiquei primeiro num estado de choque ao saber que tinham 200 anos da nossa história soterrados ali. Eu pegava o ônibus ali, sempre transitei ali. Trabalho por aqui já há 38 anos, então vi toda a transformação que aconteceu. Sou de São Gonçalo, mas vim morar aqui porque cada vez que achavam alguma coisa, me gritavam. Essa experiência muito me honra e me preencheu de saberes. Nada melhor que estar pertinho da sua história”, relembra ela, do ladinho do sítio arqueológico.

A relação de Celina com a região começou há 12 anos, quando assumiu a direção do Centro Cultural Pequena África. O local é responsável por difundir a história daquele local, mas a yalorixá lamenta o pouco destaque que a população, principalmente a parte negra, dá ao espaço e à região em geral. “O povo não liga pra isso, não. As mais velhas estão apodrecendo nas casas de santo. E isso acontece por falta de comprometimento com a cultura própria, com a cultura preta. Eu sou jovem, mas tem mãe de santo que ninguém ouve falar, a maioria não está nem aí”, lamenta.  

Todos estão tão necessitados de proteção que estão recorrendo à questão ancestral para a sobrevivência.
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Celina é daquelas que dorme pouco porque produz muito. E não quer parar tão cedo.

Para auxiliar nesse reencontro com a ancestralidade de seus filhos e todos que a procuram. Celina mantém seu terreiro, claro, mas mensalmente também oferece uma oficina sobre ervas para levar um pouco do saber ancestral, aprendido com suas bisavós, avós e mãe, sobre o poder de cura que é dado pela natureza através de banhos, chás e xaropes: “É para trazer um bem estar mesmo. Todos estão tão necessitados de proteção que estão recorrendo à questão ancestral para a sobrevivência”, contextualiza.

Ela acredita que os embates políticos do último ano intensificaram a sensação de desamparo em muitos filhos, mas que ela não permite cair: “Fácil não está, mas difícil também não vai ser”, decreta.

E como se não bastassem todas as funções que acumula, Celina também é uma princesa. Sim. Em 2016, ela foi convidada para visitar Benin, país do continente africano por causa do trabalho que desenvolvia na Pequena África. Durante um mês e meio, a yalorixá bebeu das fontes ancestrais e aprendeu muito sobre suas raízes: “Descobri que meus ancestrais diretos passaram por lá”, conta.

Nós temos que celebrar a nossa vida e a nossa liberdade todos os dias.
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Autoproclamada também ativista, Mãe Celina de Xangô diz que não pretende parar, já que “agora está ficando gostoso”, brinca.

E antes de voltar ao Brasil, ouviu que não poderia voltar para sua terra natal de mãos vazias, e a partir de então recebeu o cargo de Ya Egbe de Egum gum dentro do culto Vodu e foi consagrada Princesa da corte real de Kpassenon. Carregar esse título, ela explica, não interfere em nada na sua rotina.

“Não tenho dinheiro, mas sou princesa”, conta aos risos. E completa: “Isso muito me orgulha. Eu sou muito leve, não dá para ter nariz em pé. A qualquer hora você tem que estar ligado, é um exercício diário”. 

Dedicada aos seus filhos de santo, mesmo com a distância de 25 km entre sua casa e seu terreiro, ela não cansa de ressaltar a importância de ser feliz e celebrar a vida.

“A gente tem que dar valor à religiosidade. Nós temos que celebrar a nossa vida e a nossa liberdade todos os dias, e não pensar que viemos a passeio. Acordar, tomar café, almoçar, jantar e dormir não é vida. É muito pouco”, avalia ela, que dorme pouco porque produz muito, e não quer parar tão cedo.

O Cais do Valongo é o recomeço de tudo.
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“Quando você é escolhida, não tem como desvencilhar, não tem como sair."

Autoproclamada também ativista, Mãe Celina de Xangô diz que não pretende parar, já que “agora está ficando gostoso”, brinca, já que o reconhecimento de toda sua dedicação à Pequena África tem chegado. Uma esperança que ela tem é que a conexão com a ancestralidade, a partir da valorização de locais como o Cais do Valongo, seja a salvação do povo negro.

“A partir do momento que respeitamos o recomeço da nossa história, essa ‘recontação’ da nossa história, minimiza muita coisa [ruim] na vida do nosso povo, nossa gente, nossas tribos e casas de santo. O Cais do Valongo é o recomeço de tudo”, afirma.

A rotina por vezes cansativa, os embates políticos nos quais por vezes é jogada, a falta de reconhecimento e valorização não são suficientes para afastá-la de sua missão. “Quando você é escolhida, não tem como desvencilhar, não tem como sair. Não tem como desistir porque não fomos nós que pedimos, foram nossos ancestrais que decidiram. E isso basta.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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