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13/03/2020 13:41 -03 | Atualizado 20/03/2020 08:31 -03

Número de casos de coronavírus no Brasil deve explodir com início do outono

Apesar das projeções de centenas de milhares de infectados, evolução da doença no País dependerá da velocidade de disseminação do vírus.

metamorworks via Getty Images
Casos de coronavírus devem explodir a partir do fim de março

O número de casos de coronavírus no Brasil, que superou a marca de 600 nesta quinta-feira (19), deve explodir nos próximos 7 dias. É com esse horizonte de tempo que trabalham infectologistas, hospitais e o próprio Ministério da Saúde para adequar redes pública e privada à demanda de internações por covid-19.

O início do outono, neste 20 de março, deve intensificar a “progressão geométrica” de casos, conforme assinalam especialistas. Nessa estação do ano, aumentam as doenças respiratórias por conta da redução na temperatura e na umidade relativa do ar.

“A gente espera um aumento de casos no Brasil, nas próximas duas a três semanas, mas a velocidade com que isso vai acontecer, nós não sabemos. Ainda estamos em fase de aprendizagem”, explicou a médica infectologista Nancy Bellei, professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em entrevista concedida na semana de 9 de março.

De acordo com ela, alguns modelos matemáticos, inclusive utilizados pelo governo, dão estimativas da onda de contaminação que está por vir. Na última quinta-feira (12), o governo de São Paulo estimou que ao menos 460 mil pessoas vão contrair coronavírus no estado.

O cenário mais pessimista projetado pelo infectologista David Uip, responsável pelo Centro de Contingência para o Coronavírus de SP, indica que 10% dos paulistas serão infectados — ou seja, quase 4,6 milhões de pessoas somente no estado.

Em análise publicada pela Folha de S.Paulo, o Instituto Pensi, centro de pesquisa clínica em pediatria do Hospital Infantil Sabará, aponta que, a partir do momento em que o Brasil confirma 50 casos da doença covid-19, o País pode chegar a mais de 4.000 casos em 15 dias e a cerca de 30 mil em 21 dias. O 50º caso foi registrado na quarta-feira (11) — ou seja, até do dia 26, saltaria para a casa dos milhares, de acordo com esse modelo.

O coordenador de vigilância em saúde e laboratórios de referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, estima que a intensificação da doença no País ocorra mesmo a partir de abril.

“Todos os anos, é esse o mês em que as infecções respiratórias começam a se tornar mais comuns. É claro que estamos lidando com um vírus novo, que provoca enfermidades similares a de outros vírus, mas que ainda está rodeado de incertezas sobre o seu comportamento”, analisa.

O Ministério da Saúde já afirmou que vai antecipar a campanha de vacinação da gripe para o fim de março. A ideia é imunizar a população para os outros vírus; assim, o sistema de saúde não será sobrecarregado e poderá atender os pacientes com complicações do covid-19.

“Temos 40 milhões de brasileiros para os quais as espirais [de contaminação] podem ser maiores. A gente quer aumentar de 1,5 mil para 6,7 mil os postos de saúde com horário estendido. Este é um dos motivos pelos quais estou pedindo recurso, pois para fazer isso tenho impacto de quase R$ 1 bilhão”, afirmou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Apesar da alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

O Brasil está preparado para lidar com a pandemia?

Para o infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, a principal ação deste momento deve ser atender e proteger os grupos mais vulneráveis.

Quem é mais jovem e pegou coronavírus deve fazer o isolamento domiciliar e não pode ser exposto a idosos e pessoas com doenças crônicas.

“Procurem assistência médica na rede básica de saúde [postos e centros de saúde]. Não vá direto ao hospital, para não deixar mais vulneráveis as pessoas que já estão doentes; a rede deverá indicar se é necessário ou não fazer o teste”, aconselha Suleiman.

Nancy Bellei acrescenta que cuidados com prevenção e higiene pessoal são fundamentais para conter a doença. Os idosos e doentes crônicos também devem evitar aglomeração.

“As medidas que diminuem a interação social do indivíduo infectado com o indivíduo não infectado são úteis. Se a população colaborar muito com isso, nós vamos conseguir achatar a epidemia. Ela vai existir, mas vamos conseguir achatá-la”, avalia.

Os três especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil concordam: nenhum país estava preparado para lidar com o novo coronavírus.

Porém, para Rivaldo Venâncio, da Fiocruz, há um fator que pode estar a favor do Brasil — sobretudo as lições com os casos dos outros países e os exemplos do que fazer ou não para conter a disseminação.

“O Brasil pode atravessar esse período de uma forma equilibrada ou não, vai depender da magnitude e da velocidade de transmissão do vírus. Uma coisa é o País registrar 1 milhão de pessoas contaminadas em 1 mês. Outra coisa é 1 milhão de pessoas em 4 ou 5 meses. É bem diferente. O tempo em que vai ocorrer essa sobrecarga do sistema de saúde, que de certa forma já é sobrecarregado, essa intensidade é que vai fazer toda a diferença”, conclui.

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