LGBT
03/10/2020 02:00 -03

10 mil pessoas acompanharam nosso casamento no meio da pandemia, e foi mágico

“Não preciso de um casamento como o de Kim Kardashian para declarar meu amor por minha mulher. Nosso casamento reuniu pessoas de todo o planeta para acompanhar um momento de alegria e paz.”

Photo by Danielle Lawson, Natural Nerd Designs
A autora (à esquerda) com sua esposa, Jodyann Morgan, no dia do casamento delas.

Não me surpreendi quando Morgan me pediu em casamento. Ela e eu já estávamos juntas havia 3 anos e meio. Nós nos mudamos de um lado do país para o outro, do Brooklyn para Milwaukee, e tínhamos escolhido as alianças de noivado no mês anterior.

Em agosto de 2019, Morgan me levou ao lago Michigan. Paramos no meio da comprida escadaria de madeira que levava a uma praia semiparticular, sob uma cobertura espessa de árvores à beira d’água. Morgan me estendeu a aliança e me perguntou suavemente se eu “faria aquela coisa” – se me casaria com ela.

“Claro que sim”, respondi, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Parecia muito certo, muito natural.

Nossa pequena família não poderia ser mais diferente da minha família tradicional hassídica de origem, com suas mangas longas e golas altas, isolada do mundo, sem televisão e sem música ou livros que não fossem judaicos – logo, meus pais não assistiriam ao casamento. Os pais de Morgan, jamaicanos, nunca deram apoio ao nosso relacionamento ou à sexualidade gay de Morgan. Quando ela telefonou para lhes contar nossa boa nova, eles disseram: “Quer dizer que você encontrou um homem?”.

Morgan desligou o telefone. Eles então mandaram mensagens de texto dizendo: “não acreditamos nisso tudo”. Como a felicidade conjugal para “pessoas como nós” só poderia ser conseguida “com um homem”, não passaria pela cabeça deles assistir ao nosso casamento – isso nem sequer poderia ser discutido. Morgan me disse que nunca sonhara em ter um casamento bonito e que queria se casar em Vegas.

Sendo eu a mais velha dos 15 filhos de um rabino hassídico, eu já havia tido e descartado vários sonhos de casamento. Eu já sabia exatamente que tipo de casamento teria praticamente desde que deixei de usar fraldas, porque assisti incontáveis vezes ao vídeo de casamento de meus pais. Quando fui ficando mais velha, fui a casamentos de amigos da família e de minhas professoras.

Todos os casamentos eram mais ou menos iguais. Eu sabia que não veria a cara do meu noivo na semana antes do casamento. Em até 4 dias antes da cerimônia, eu teria que me purificar da “imundície” gerada por meu ciclo menstrual, mergulhando numa banheira cheia de água da chuva. A cerimônia teria lugar no escuro – apenas para mim. Eu teria o rosto coberto por um véu opaco, que seria tirado apenas momentaneamente para confirmar que eu era a mulher escolhida, e não uma substituta. “Tradição.”

Como cresci sofrendo agressões físicas e emocionais, eu estava louca para me casar com um desconhecido qualquer, apenas para escapar da realidade de minha vida. Assim, com 15 anos de idade, me sentei diante de meu pai em sua salinha de trabalho numa casa térrea convertida em sinagoga e lhe falei que estava disposta a me casar. Embora os judeus hassídicos tivessem tradicionalmente se casado muito jovens, a seita Chabad, da qual fazíamos parte, se afastara dessa tradição. Mas eu apresentei um bom argumento a meu pai: eu já era mulher feita, sabia cozinhar e limpar a casa; logo, daria uma boa dona de casa.

Eu já sabia que sentia atração sexual não apenas por pessoas do gênero masculino, mas havia compreendido também que meus desejos eram diferentes dos das outras mulheres jovens que eu conhecia. Eu pensava, na época, que meus sentimentos por mulheres não passavam de uma coisa sexual – um fetiche. Sem ter ninguém com quem conversar sobre isso nem nenhuma maneira de explorar meus desejos, eu os ignorei e me concentrei em procurar um marido.

Photo by Jackie Fairman
A autora (à esquerda) com sua mulher, Jodyann Morgan, pouco depois de elas se mudarem para Milwaukee, no Wisconsin, em 2018.

Quando meu pai começou a buscar um casamento arranjado para mim, como era tradicional na minha comunidade, ele divulgou meu nome e minha disposição de me casar junto às pessoas que o colocariam em contato com pretendentes adequados. No sistema de casamentos arranjados, meus pais teriam o direito de selecionar os candidatos a casar-se comigo antes de eu poder encontrá-los, de modo que eu só poderia levar em conta pessoas que eles achassem adequadas. Foi quando ele identificou um problema que eu não notara. Eu era gorda demais. Isso diminuía as chances de meu currículo de relacionamento atrair potenciais pretendentes, mesmo porque os fatos eram delineados sem sequer uma foto. Meu pai começou a exigir que eu perdesse peso, chegando ao ponto de pedir que eu me pesasse semanalmente na loja do bairro, o único lugar que eu conhecia que tinha uma balança.

Mas, antes de meu pai conseguir encontrar alguém que me achasse digna de consideração, os abusos que eu vinha sofrendo a vida inteira – incluindo 3 fraturas nas costas – finalmente chamaram a atenção das autoridades de Bem-Estar de Menores de Milwaukee. Fui tirada de minha comunidade de repente, colocada com uma família de acolhimento e jogada em um mundo sobre o qual eu não sabia nada. Deveria ter acontecido anos antes, mas levou tempo para os inúmeros boletins de ocorrência policial e queixas às autoridades de menores renderem frutos e alguém finalmente acreditar no que eu vinha dizendo sobre o que estava acontecendo a portas fechadas.

Enquanto fui aprendendo a viver em um mundo secular novo e que me era estranho, passei a devorar romances de Nora Roberts e Nicholas Sparks, entre inúmeros outros autores, que a biblioteca pública colocava à venda. Eram livros que já estavam gastos demais para poderem continuar em circulação. Apesar de esses livros me mostrarem visões de intimidade e amor que eu nunca havia visto, eu os usei como válvula de escape e me permitia sonhar com uma realidade que fosse amorosa e pacífica, onde o romantismo fosse abundante e pessoas sofridas e marcadas fossem curadas pelo amor.

Foi no meu primeiro lar de acolhimento de grupo, alguns meses antes de eu completar 17 anos, em 2011, que assisti ao casamento de Kim Kardashian pela televisão. Vi Kim entrando na igreja em seu vestido de noiva sem mangas. O corpete do vestido cingia sua cinturinha de pilão como se fosse uma luva, e seu véu comprido se arrastava atrás dela, enquanto todos os presentes seguravam o fôlego.

Ninguém naquela tela se parecia comigo, e ninguém tinha uma história de vida como a minha, mas, para mim, pareceu que aquilo não tinha importância. Comecei a sonhar com aquele romantismo todo – vestidos de noiva longos, diamantes grandes, damas de honra, limusines ―, e eu queria isso para mim.

Foi nesse mesmo lar de acolhida, um pouco mais tarde, que uma garota me falou que tinha uma queda por mim – a primeira garota da minha vida. Não fiquei assustada ou confusa. Mas, sem saber ao certo o que fazer, contei a Jessica, uma mulher que trabalhava no lar. “Relacionamentos sexuais são estritamente proibidos”, ela me disse em tom severo, me deixando sozinha para tentar captar a magnitude desses sentimentos. Depois de alguns meses – e de muita pesquisa e autorreflexão –saí do armário com meu primeiro pai de acolhida, um judeu hassídico. Dias depois disso, me mudaram para o lar de acolhida seguinte, e depois para ainda outro. 

Photo by Danielle Lawson, Natural Nerd Designs
A autora (à esquerda) e sua esposa, Jodyann Morgan, se casando, em cerimônia oficiada por L.S. Quinn.

Quando Morgan me pediu em casamento, meu sonho de um casamento glamuroso e de tudo que isso implicaria – e custaria – já havia encolhido. Simplesmente não era prático. Segundo a empresa The Knot, o gasto médio de um casal americano com seu casamento em 2019 foi de US$33.900. Com esse dinheiro, eu poderia saldar toda minha dívida estudantil! Entrei para grupos de noivas no Facebook e li comentários de pessoas que estavam se estressando com suas listas de convidados com 175 nomes, decorações florais complexas e complicações com o vestido de noiva. Eu não conseguia me visualizar fazendo tudo isso. Percebi que eu simplesmente não queria isso.

Antes do final de 2019, minha futura esposa e eu decidimos optar por um entre dois tipos de casamento possíveis. Ou faríamos uma festa pequena com 30 pessoas em um parque ou quintal, ou voltaríamos de avião para Nova York, onde nos conhecemos, e faríamos uma grande festa queer na cobertura do prédio de alguém, como em um romance queer. Visualizei uma mesa enorme cheia de queijos duros e macios, nozes, carnes defumadas e vidros de mel. Assaríamos um porco inteiro no espeto. Convidados de todo o mundo viriam festejar conosco nossa sobrevivência e felicidade.

Então chegou a nuvem escura da pandemia de coronavírus.

E assim, simplifiquei meu sonho ainda mais. Liguei para o secretário do condado para descobrir como obter uma licença de casamento. O condado não estava emitindo licenças naquele momento. O condado ao lado estava, mas só poderia emitir uma para nós se morássemos nesse condado. Perdi meu emprego na oficina de funilaria e pintura onde eu trabalhava. Resolvi me dedicar em tempo integral a meu negócio antes de tempo parcial, uma escola de educação automotiva para leigos.

No meio de tudo isso, entretanto, nosso desejo e necessidade de nos casar cresceu. O que aconteceria se ficássemos doentes?

Em julho, decidimos que era hora de dar o passo. Optamos por nos casar em Indianapolis, Indiana, a poucas horas de carro de nossa casa em Milwaukee. Foi fácil conseguir uma licença de casamento na cidade. Boa parte do processo para obter a licença foi feito online, e não houve período de espera.

Pensei que eu sofreria por não realizar meu sonho anterior – que de alguma maneira meus sonhos de casamento, mesmo incrivelmente simplificados, não iam se concretizar. Mas em vez de lamentar, mergulhei fundo nos preparativos. Marcamos uma data de apenas um mês para frente, para não ser frustradas pela segunda onda da pandemia que inevitavelmente chegaria.

Eu foquei sobre todos os pequenos detalhes para garantir que a cerimônia refletisse nossas crenças e nosso amor mútuo, sem sentimento de posse, e que os fornecedores envolvidos fossem membros de comunidades que queríamos apoiar. Não poderia haver convidados presenciais, mas divulgamos um convite digital para “o Maior e Mais Queer Casamento do Ano”. Assombradas, recebemos confirmações de convite de milhares de pessoas.

Photo by Danielle Lawson, Natural Nerd Designs
A autora (à direita) com sua mulher, Jodyann Morgan, no dia do casamento delas.

Nosso casamento seria focado sobre a mulher negra, queer e plus size. Jasmine Howard faria nosso cabelo. Danielle Lawson fez as fotos. Ja’Twon Henderson garantiu que nossa maquiagem fosse tão glamurosa quanto nossos vestidos de noiva. Quando procuramos alguém para oficiar o casamento, eu queria que fosse alguém que refletisse nossos valores e estivesse disposta a cooperar para criar a cerimônia que queríamos. L.S. Quinn, que já vinha oficiando cerimônias de compromisso entre pessoas queer desde antes de isso ser permitido por lei, era exatamente a pessoa que procurávamos.

Enquanto estávamos nos arrumando, fiquei vendo minha noiva comer um curry de cabra, com os cabelos já arrumados e uma coroa costurada em seus dreads.  Ela usava jeans e uma camiseta polo com bordado de barquinhos a vela. Estava igualzinha à mulher por quem eu me apaixonara anos antes. Me senti em paz. Então ela vestiu o vestido de baile de manga longa no qual optou por se casar, com a coroa acima citada, o colar e os brincos de diamantes que eu lhe dei de presente e uma sandália Birkenstock. Quando a vi de novo, ela estava totalmente transformada. Majestosa. Em pé, uma de frente para a outra, prometemos nos dedicar ao trabalho que faria nosso amor funcionar, e mais de 10 mil pessoas participaram de nossa live no Facebook para festejar conosco. Foi um casamento perfeito.

Quando tudo acabou, afundamos lado a lado no sofá, ambas envoltas em nossos vestidos de noiva, e assistimos à gravação da live. Quando li os votos de boa sorte e felicidade enviadas por pessoas de vários continentes e vi o impacto que nosso casamento teve sobre as pessoas que o acompanharam, as lágrimas escorreram por meu rosto novamente.

Percebi que eu não precisava de um casamento ao estilo do de Kim Kardashian para afirmar meu amor por minha esposa. Nosso casamento reuniu pessoas de todo o planeta para um momento de alegria e paz, um alívio breve do munto turbulento lá fora. Foi exatamente o que precisávamos, e, embora tenha sido diferente dos meus sonhos do passado, foi verdadeiramente um sonho realizado.

Chaya Milchtein é educadora automotiva, escritora e oradora, além de fundadora da Mechanic Shop Femme. Você pode acompanhá-la no InstagramFacebook e Twitter

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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