LGBT
21/01/2019 07:43 -02 | Atualizado 21/01/2019 07:43 -02

Como é ser lésbica e viver na área rural de Bundelkhand, na Índia

As pessoas estão forçando a sociedade indiana a lidar com o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Betwa Sharma/ HuffPost India
Deepshika (à esquerda) e Abhilasha (à direita) em Hamirpur, na Índia.

Em 28 de dezembro do ano passado, duas jovens se postaram diante de um grande número de jornalistas em um dos distritos mais pobres da Índia e se declararam “casadas diante da mídia”.

O escrivão havia se recusado a assinar a união das duas; os repórteres serviram de testemunhas.

“Minha mãe perguntou: ‘Onde você estava’”, diz Abhilasha, lembrando o momento em que voltou para casa com a mulher, Deepshika. “Respondi: ‘Nos casamos na frente da imprensa e temos proteção da polícia’.”

Nos últimos seis anos, Abhilasha e Deepshika tiveram de lidar com separação, casamentos com homens que não desejavam, humilhações e provocações constantes de parentes.

O “casamento midiático” foi resultado de amor, medo de que elas fossem assassinadas por suas famílias e confusão – pois elas, bem como seu advogado, acreditavam que o casamento de pessoas do mesmo sexo fosse legalizado na Índia. Não é o caso.

Em setembro de 2018, a Suprema Corte indiana derrubou uma lei dos tempos coloniais que proibia o homossexualidade no país.

A corte não legalizou o casamento gay, mas, como mostra a história de Abhilasha e Deepshika, as pessoas apaixonadas estão forçando regiões distantes e consideradas provincianas, socialmente conservadoras ou simplesmente perigosas a considerar a possibilidade de que duas mulheres queiram passar o resto de suas vidas juntas. 

“Quando foi anunciada a decisão da Suprema Corte, fiquei com medo. Sabia que ela faria isso”, diz o irmão mais novo de Abhilasha, Pradeep, que é contra o casamento da irmã. “Agora, elas nem sequer têm maridos para sustentá-las.”

Para Abhilasha e Deepshika, o casamento marca um ponto além do qual não há muitas certezas – mas existe o conforto de que elas vão enfrentar juntas as dificuldades. 

“Foi o dia mais feliz de nossas vidas, e também o mais aterrorizante”, lembra Abhilasha, 22. “Não sabíamos o que ia acontecer coma gente, não sabíamos se estaríamos vivas no dia seguinte.” 

“No lugar onde a gente mora, nunca aconteceu um casamento de duas mulheres”, diz Deepshika, também de 22 anos. “A gente sabia que poderia ter de pagar com a vida, mas tínhamos de casar.”

Foi o dia mais feliz de nossas vidas, e também o mais aterrorizante.

Conhecendo as famílias

Duas semanas depois do casamento, o HuffPost Índia encontrou o casal na casa de Abhilasha, em Rath, cidade de cerca de 65 000 habitantes em Hamirpur.

Elas escolheram a casa de Abhilasha porque Deepshika achou que seu pai, diretor de uma escola, a espancaria e trancaria em casa se ela voltasse. Mesmo na casa de Abhilasha elas estavam pouco à vontade e pareciam temer por sua segurança. O blefe da proteção policial parecia ser a única coisa garantindo que elas não fossem atacadas.

A família de Abhilasha não vive com grandes confortos – sua mãe, Priyanka Devi, recebe 200 rúpias por dia (cerca de dez reais) fazendo trabalhos manuais. Seu pai, Pritam Singh, mora na cidade de Sonipat e recebe o dobro, trabalhando como pedreiro.

Quando a notícia do casamento começou a se espalhar, a família de Deepshika começou a ligar. O irmão dela, Bhanu Pratap, pediu que Priyanka Devi expulsasse as duas de casa.

“Estava com medo que a família viesse matá-las. Eles nos acusariam de ter sequestrado sua filha”, diz Priyanka. “Poderia acontecer qualquer coisa. O pai dela não estava aqui. Eu não sabia o que fazer.”

Abhilasha, que se formou na universidade, e Deepshika, que ainda está estudando, estavam confinadas em um quarto mal iluminado, onde pretendiam ficar até resolver o que fazer. Nenhuma das duas tem emprego, e é difícil encontrar bons trabalhos em Hamirpur, na região semiárida de Uttar Pradesh – dominada por plantações de mostarda e minas ilegais.

“Damos risada. O que vamos fazer?”, diz Abhilasha. “Ou rimos ou choramos, vivemos ou morremos. Decidimos rir e viver.”

Estava com medo que a família viesse matá-las. Eles nos acusariam de ter sequestrado sua filha.

‘Muitas coisas aconteceram nas nossas vidas’

Vestindo uma camisa vermelha e calças brancas, com o cabelo arranjado num coque, Abhilasha diz que sempre sentiu atração por meninas – mas não sabia como descrever o sentimento.

“Não sabia o que era, mas sabia que gostava de tocar e beijar meninas”, diz ela. “Não sabia que existia um nome para isso, como ‘lésbica’. Não sentia medo. Era a coisa certa para mim.”

Abhilasha se diz surpresa com a confusão causada em torno do seu romance. Ela explica que mesmo num lugar com Bundelkhand, onde ela já tinha ficado com outras mulheres antes de se apaixonar por Deepshika, questões ligadas ao coração ou aos desejos físicos não chamavam tão atenção. “Mesmo num lugar como esse, acontece com várias mulheres, mas elas têm de reprimir esses sentimentos.” 

Mas Abhilasha tem um medo persistente. “Somos jovens agora, mas e se nossos sentimentos mudarem no futuro? E se eu começar a gostar de homens? E se ela começar a gostar de homens?”, diz ela.

Somos jovens agora, mas e se nossos sentimentos mudarem no futuro?

Deepshika, que é mais calada, não tinha tanta certeza sobre sua sexualidade até conhecer Abhilasha, quando ambas tinham 17 anos.

Durante seis anos, elas se encontravam quando Abhilasha ia visitar a mãe. Elas também se encontravam no campus da universidade de Abhilasha e conversavam frequentemente por telefone. O vilarejo de Deepshika tinha lugares seguros para que elas ficassem juntas. Abhilasha lembra que uma vez elas foram flagradas se beijando e a notícia correu rapidamente entre as mulheres do lugar.

“Quando saíamos juntas, as mulheres diziam: ‘Eram elas que estavam se beijando’. Aconteceu muita coisa nas nossas vidas”, diz ela, rindo. 

Mas, àquela altura, Deepshika já tinha contado para sua mãe.

“Não dá para acreditar no que essa menina fez”, diz Abhilasha, dando um tapa na própria testa. “Na primeira vez que ficamos juntas, ela foi correndo contar para a mãe. Ela contou que eu a beijei, a toquei, tudo.”

“Foi inocência”, diz Deepshika, sorrindo. “Eu contava tudo para a minha mãe.”

A mãe ficou lívida e foi procurar os parentes de Abhilasha.

As duas meninas foram proibidas de se encontrar. Mas elas não consideraram levar a imposição a sério. Abhilasha foi forçada a se consultar com um curandeiro em sua cidade natal e no Rajastão. Mas, no fundo, ela só ria dos ohjas bhopas que prometiam curá-las da “praga”.

“Mas, depois, ela nunca mais contou para ninguém sobre os nossos encontros”, diz Abhilasha, abraçando Deepshika.

“Aprendi a lição”, diz Deepshika, rindo.

Quando saíamos juntas, as mulheres diziam: ‘Eram elas que estavam se beijando.

Casamentos dolorosos

Quando Abhilasha fez 19 anos, seus pais lhe disseram que tinham encontrado um marido para ela. Abhilasha tinha terminado o ensino médio e estava desempregada. 

“Eu disse para ela não casar. Disse que a gente teria de fugir, mas ela acabou cedendo à família”, diz Deepshika. “Ela ficou um mês sem me ligar, mas aí voltamos a nos falar e ela disse que queria se matar.”

Abhilasha resistiu durante meses, implorando para os pais não a forçarem a se casar. O pai, diz ela, a espancou quando ela se recusou a ficar noiva. A certa altura, a pressão, as ameaças e as chantagens ficaram insuportáveis.

O mesmo aconteceria com Deepshika, dois anos depois. Sua família queria casá-la com um engenheiro mecânico de Pune. “Disse antes, no dia e depois do casamento: vou me matar. Disse que queria ficar com ela, mas ninguém me ouvia.”

“Era um ótimo partido. O rapaz não era um analfabeto qualquer”, diz Bhanu Pratap, 24, irmão de Deepshika e ferozmente contrário à decisão dela de viver com a parceira. “Ele era engenheiro mecânico, mas ela arruinou a vida dele.”

Deepshika, que se mudou para Pune, concorda que o marido era um bom homem – mas não era o homem para ela.

“Quando me recusei a transar com ele, ele nunca me forçou. Ele até sabia de Abhilasha. Ficava na cama, do meu lado, quando eu conversava com ela pelo telefone.”

Abhilasha não teve a mesma sorte. Seu marido tentou transar com ela à força, e seus pais faziam chantagem emocional.

“As coisas iam muito mal, e às vezes nos agredíamos fisicamente”, diz ela. “Meus pais diziam: ’Por que você não faz pela nossa izzat (honra), mas eu achava errado e não conseguia.”

Priyanka Devia achava que tinha encontrado um jeito de deixar todo mundo satisfeito. “Achei que elas pudessem casar, morar com os maridos, mas continuar se encontrando. Não sabia que elas queriam viver assim.”

As coisas iam muito mal, e às vezes nos agredíamos fisicamente.

Com o marido e a esposa ameaçando se matar, os pais de Abhilasha não tinham como impedir o divórcio, em 2016. Deepshika foi visitar os pais em novembro do ano passado e se recusou a voltar para Pune. Ela ainda está legalmente casada.

As coisas pioraram. Deepshika diz que ouviu a mãe fazendo planos de matá-la. “Ouvi uma conversa dela com meu marido. Ela estava dizendo que ele deveria me dar uma injeção e me deixar morrer.” (Deepshika não acredita que o marido participaria da trama. A família dela nega a acusação.)

Bhanu, que está desempregado e estuda para provas qualificatórias, diz que sua família só voltaria a aceitar a irmã se ela se separar de Abhilasha, prometer nunca mais entrar em contato com ela e voltar para o engenheiro.

A suposta trama para matar Deepshika foi decisiva para que as mulheres tentassem se casar. “Depois que ela disse que sua família queria me matar, pensei: ‘Não posso deixá-la morrer. Se ela morrer, não serei capaz de viver.’ Tínhamos de fazer alguma coisa.”

 Elas precisavam de uma aliada – entra em cena Kirti, a tia de Abhilasha.

Não posso deixá-la morrer. Se ela morrer, não serei capaz de viver. Tínhamos de fazer alguma coisa.

Uma tia, uma aliada

Kirti fala com a convicção de alguém que viu o mundo além de Bundelkhand.

“Você precisa sair desse lugar para saber como é o mundo”, diz ela.

Kirti diz que sua família é diferente do resto dos parentes. A maioria das meninas da região se casa aos 18 anos. Ela se casou aos 25. Depois de terminar a faculdade em Hamirpur, ela se mudou para Ghaziabad para fazer mestrado em computação e trabalhou na LG Electronics.

“As meninas da pensão em Ghaziabad transavam entre elas”, diz Kirti.

 Quando Abhilasha se separou do marido, Kirti assumiu o papel de mediadora com o pai. “Disse que ela provavelmente era lésbica”, diz Kirti. “Se não fosse por decisão divina, por que uma mulher escolheria ficar com outra mulher?”

Foi Kirti quem sugeriu acabar com o ciclo de ameaças e humilhações – pela via do casamento. 

Kirti, que acredita que os casamentos de pessoas do mesmo sexo são legais, tinha esperança que o governo e o público fosse defender as mulheres. Foi ideia dela convocar a imprensa.

“Disse que, se elas tivessem coragem, que casassem. Vocês terão de ouvir as piores coisas para o resto da vida, mas a lei está do lado de vocês, a mídia vai protegê-las.”, afirma ela.

Se Deepshika, Abhilasha e Kirti retratam as inúmeras rebeliões silenciosas da Índia, seus irmãos – Bhanu Pratap e Pradeep Singh – revelam contra o que elas estão se rebelando.

Bhanu, que está estudando para concursos públicos, diz que Deepshika envergonha a família, especialmente o pai, que é diretor da escola do vilarejo.

“Não é vergonhoso? Casamento de duas meninas vai contra a natureza e Deus”, diz ele. “Não importa o que diga a Suprema Corte, não podemos aceitar. Moramos num vilarejo. Como encarar as pessoas? Ela não pensou nisso?”

Disse que, se elas tivessem coragem, que casassem.

Uma educação abusiva 

Pradeep, irmão de Abhilasha, está na universidade e pensa da mesma maneira. “É Bundelkhand. Em Bundelkhand, na Índia de hoje, 90% das mulheres ainda têm de se curvar diante dos homens”, afirma ele.

Com o tempo, a família de Abhilasha se conformou com o fato de que ela gosta de mulheres. Mas eles são incapazes de perdoá-la porque ela agiu de acordo com seus desejos, em vez de manter sua sexualidade escondida.

Pradeep acredita que a irmã ousou se casar por culpa da educação.

“Quantas mulheres indianas são assim? Dez em cada cem? Mas quantas se casam com outras mulheres? Uma em cada dez? Até mesmo as mulheres assim se casam com homens e continuam casadas”, diz ele. “É o que chamo de abuso da educação. Se ela fosse analfabeta, teria ficado sozinha, ou então viveria infeliz com o marido.”

Abhilasha olhava fixamente para o irmão enquanto ele falava.

“Bundelkhand, onde moramos, a mulher ou é uma dor de cabeça para o marido ou para o pai”, diz ela. “Onde moramos, os sentimentos verdadeiros ficam escondidos a vida inteira. Nosso crime é não sermos capazes de reprimir nossos sentimentos.”

Não é vergonhoso? Casamento de duas meninas vai contra a natureza e Deus.

Financial liability

As famílias das mulheres não sentem apenas vergonha – elas também acreditam que as duas representam um risco financeiro.

Priyanka Devi e seu marido têm de criar outros quatro filhos, todos mais novos que Abhilasha. Encontrar um marido para ela também era uma forma de resolver um problema financeiro. Agora, eles querem que o casal saia de casa e arrume emprego.

Pradeep, o irmão, diz: “Ela que encontre um emprego e viva como quiser. Por que ela tem de ser um fardo para o nosso pai?”

Pritam, o pai, diz que gastou muito dinheiro com o casamento dela.

“O que vou dizer? Elas fizeram o que fizeram sem contar para ninguém. Agora têm de se virar. Não temos como sustentá-las. Elas precisam cuidar de suas próprias vidas”, afirma ele.

Ela que encontre um emprego e viva como quiser.

O plano sempre foi primeiro encontrar emprego e depois casar, dizem as duas. Mas as tramas familiares para separá-las acabaram antecipando o casamento.

Abhilasha, que está no segundo ano do curso de TI, diz que não existem empregos para jovens em Bundelkhand. As mulheres esperavam que a visibilidade da sua história chamasse a atenção de grupos LGBT, ativistas sociais ou do governo, mas por enquanto nada aconteceu. Elas estão dispostas até mesmo a trabalhar em fábricas de Nova Déli, mas elas têm medo de se afastar de suas regiões natais – e também temem por sua segurança na capital do país.

“Os crimes contra mulheres estão cada vez piores”, diz Deepshika.

“É impossível encontrar emprego aqui. Será que alguém pode nos ajudar? Por favor”, diz Abhilasha.

É impossível encontrar emprego aqui. Será que alguém pode nos ajudar? Por favor.

Ainda correndo riscos

Deepshika, que está morando com a família de Abhilasha, sente o peso da animosidade e da hostilidade. Os pais estão calmos quando falam da situação com esta repórter, mas a atmosfera é tensa. Parentes fazem provocações constantes, e ambas temem que as coisas saiam do controle a qualquer momento – com consequências potencialmente fatais.

“Não podemos ficar aqui. É tortura. Temos de sair logo”, diz Deepshika.

“Cresci com provocações e gozações, mas é horrível para Deepshika. Ela chora, não aguenta”, diz Abhilasha.

“Se meu pai está dentro de casa, ela vai para o quintal. Se ele vai para o quintal, ela sobre para a laje. Se ele está na laje, ela corre para dentro”, diz Abhilasha.

Ela me entende perfeitamente. Fomos feitas uma para a outra.

Para as mulheres, as provocações e piadinhas não são só cruéis, mas também desrespeitosas, e elas estão cansadas do desrespeito. A independência financeira é a única maneira de viver a vida nos termos que elas escolheram.

Abraçada com Deepshika, Abhilasha promete fazer tudo o que for possível para que as duas continuem juntas para sempre. “Só sei que estou feliz com ela. Ela me entende perfeitamente. Fomos feitas uma para a outra.”

“O mesmo aqui”, diz Deepshika.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.