ENTRETENIMENTO
09/03/2020 02:00 -03

'Casamento às Cegas' é viciante

Programa mais visto na plataforma nos Estado Unidos, reality tontinho tenta ser um "The Bachelor" para a era do Tinder.

Um cantor de uma boy band dos anos 1990. Um serviço de streaming. Celas individuais iluminadas com lâmpadas LED. Um manancial profundo de tristeza subjacente. O que todas essas coisas têm em comum? Casamento às Cegas, um reality show um pouco distópico e altamente maratonável que se transformou no programa mais visto da Netflix nos Estados Unidos.

A série funciona como um experimento social voltado ao casamento.

Um grupo de homens e um grupo de mulheres são colocados numa casa, mantidos em áreas separadas e deixados livres para se conhecerem ao longo de dez dias. Eles ficam sentados em pequenas salinhas de estar tipo celas, onde podem falar por horas e ouvir seu interlocutor, mas um não pode ver o outro.

Os homens e mulheres que sentem que formaram um vínculo ficam noivos, sem nunca terem se visto, e só então, finalmente, se encontram cara a cara. Em seguida os casais de noivos são mandados para férias românticas no México, voltando depois para Atlanta, onde vão morar juntos, conhecer seus respectivos futuros sogros e, supostamente, casar-se legalmente, tudo isso no prazo de apenas quatro semanas depois de terem se conhecido.

iLLUSTRATION: REBECCA ZISSER/HUFFPOST; PHOTO: NETFLIX
"Casamento às Cegas" se propõe a repaginar o mundo dos apps de relacionamento.

Apresentado por Nick Lachey (ex-vocalista da banda 98 Degrees) e sua mulher, Vanessa (embora eles apareçam apenas umas cinco vezes nos primeiros nove episódios), Casamento às Cegas se propõe a repaginar quase radicalmente o mundo transacional dos aplicativos de namoro, em favor de algo mais real e verdadeiro.

“As pessoas querem ser amadas por quem são, não por sua aparência, raça, origem social ou situação econômica”, disse Vanessa a todos os participantes no início da série.

Mas é questionável se o reality realmente consegue realizar o que supostamente se propõe a fazer. Emma Gray e Leigh Bickley, repórteres do HuffPost, discutem a série.

O que é inegável

Casamento às Cegas é altamente viciante e altamente perturbador. Fique de sobreaviso! 

Um reality e uma realidade da Netflix

Leigh Blickley: A Netflix vem mergulhando na área de comportamento ultimamente, com séries como Ordem na Casa com Marie Kondo e Queer Eye, entre muitas outras. Mas em 2020 parece que ela está realmente traçando seu próprio caminho na área da TV-realidade, com sucessos como a versão americana de The Circle (do Channel 4 britânico) e agora Casamento às Cegas, um show de namoro bizarro e um tanto trash que ao mesmo tempo me deixa muito preocupada e totalmente fascinada. E agor, Emma, é sua vez de dar sua opinião sobre esse experimento comandado por Nick Lacey.

Emma Gray: O que eu quero saber, Leigh, é o que diabos Nick e Vanessa Lachey estão fazendo nessa série? O que eles fazem de concreto nela? Simplesmente... POR QUÊ? Francamente, apesar de eu ter devorado tudo de Casamento às Cegas no mesmo dia que saía, a pergunta que me fiz o tempo todo foi essa, por quê? Por um lado, acho que a Netflix vem conseguindo ganhar fama no mundo da TV-realidade. Todos os realities da Netflix, incluindo Casamento às Cegas, foram o tipo de coisa que você não consegue parar de assistir, e acho que o formato de soltar os episódios em lotes de vários funciona superbem. Por outro lado, Casamento às Cegas se propõe a ser profundo e autêntico e por isso é mais triste e duro de se assistir do que The Bachelor, a comparação mais imediata.

Uma razão por que The Circle foi tão bacana foram os participantes. O que você achou de Casamento às Cegas nesse quesito?

Netflix
Jessica no reality show "Casamento às Cegas".

LB: Minha opinião sobre isso é que, se você está apostando nessa ideia de que “o amor é cego”, por que não escolher participantes que não sejam convencionalmente belos? Todos os participantes são bonitos. Isso me deixou frustrada. Precisamos de mais diversidade – racial, etária, de tipo corporal, etc. (Tivemos isso com The Circle e foi ótimo!) Eu queria ver pessoas se apaixonando por gente que nunca teriam escolhido na vida real, devido aos padrões sociais. Não estou querendo dizer que queremos que as pessoas se arrependam de ter pedido X outra pessoa em casamento. Quero dizer que, se o objetivo total desse experimento é testar a ideia da atração física versus a atração emocional, queremos ver até que ponto esse conceito pode ser ir fundo. Eu queria ter visto uma diversidade maior de casais para realmente apreciar e entender o que a série afirma querer dizer sobre o amor.

EG: Mas a realidade, Leigh, é que o amor não é cego. (Sem falar que o sentido de “o amor é cego”, na frase escrita por Shakespeare, não é que o amor não tem nada a ver com a aparência física, mas que o amor faz você não enxergar os defeitos da pessoa que você ama. Mas estou divagando.) Mas há algo de interessante em montar uma série sobre relacionamento, levando adiante a longa tradição inaugurada por The Dating Game, que obriga os participantes a recuar um passo e levar em conta a personalidade do outro, seu tom, sua história e sua capacidade de sustentar uma conversa, não se limitando apenas aos julgamentos imediatos que nosso cérebro inevitavelmente faz quando vê o rosto de uma pessoa (ou uma foto do rosto). É importante questionar nossas ideias entranhadas sobre beleza, desejo e atratividade e como raça, classe e sexualidade influem sobre isso tudo. Porém, como você falou, Casamento às Cegas não chega a fazer isso realmente, especialmente porque todos os participantes se enquadram nos padrões convencionais de atratividade (são magras, estão em conformidade com seu gênero, etc.). Acho também que isso obscurece o papel muito real exercido pela atração física nos relacionamentos de longo prazo, pelo menos no começo. Você pode amar uma pessoa, pode adorar conversar com ela, pode achá-la fascinante, sensível e maravilhosa. Mas, se não sentir vontade de ter intimidade física com ela, a pessoa pode ser sua amiga, nada mais. Não gosto do modo como Casamento às Cegas trata a incapacidade de superar essa falta de tesão como uma falha moral das duas mulheres que a sentem.  

LB: Tem razão. Tanto Jessica quanto Kelly têm dificuldade em ter intimidade com seus parceiros, devido aos “tipos” que elas alegam preferir. Jessica – 24 anos, profissional de tecnologia, loira e bonitinha – não consegue passar por cima do fato de que seu noivo, Mark – personal trainer de 24 anos e de origem mexicana – é dez anos mais jovem que ela. Jessica também não gosta do fato de Mark ser mais baixo do que maioria dos homens com quem ela já saiu. E a coach de saúde Kelly admite no confessionário que Kenny não se enquadra no tipo físico de homem que ela geralmente procura – Kelly gosta de homens de cabelo escuro – e que ela está tendo dificuldade em passar por cima disso. Talvez ela e Kenny sejam apenas “melhores amigos” um do outro, ela propõe.

Mas, como você citou, a frase “o amor é cego” se aplica a muito mais que apenas a aparência física do ser amado. Seria mais correto dizer que “o amor nos cega”. Então o que Casamento às Cegas não mostra é a verdade: as pessoas querem formar uma conexão emocional com alguém e também, se possível, fazer sexo com esse alguém. Não é ou uma coisa, ou outra. As duas coisas são necessárias para manter um relacionamento, pelo menos a meu ver. Não dá para forçar um romance, ou, neste caso, um casamento, só porque um desses dois elementos está presente.

Mas Emma, o que você acha da formatação da série? Você acha que seria preciso as pessoas passarem mais tempo nas celas para que os relacionamentos formados realmente se evidenciassem?

Netflix
Cameron e Lauren ficam noivos em "Casamento às Cegas".

Então será que devemos assistir?

LB: Ouça a mensagem da canção “I Do (Cherish You)”, do 98 Degrees.

Se você curte Love IslandTemptation Island90 Day FiancéCasamento à Primeira VistaThe Bachelor, etc, está esperando o quê? Mas tempo é dinheiro. Invista com cuidado.

EG: Se você curte programas de relacionamento que são cativantes, mas correm o risco de te deixar uma leve sensação de vazio e mal-estar, vá fundo (eu sou uma dessas pessoas). Se não for o seu caso, evite.

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