Casal cria projeto de fotografia diário durante isolamento social

“Às vezes, como fotógrafo, a gente espera estar na locação e situação perfeitas para criar imagens, mas é totalmente possível criar e ser criativo diariamente."

A pandemia do coronavírus mudou o mundo, mudou praticamente tudo, tirou muita coisa de todo mundo. O fotógrafo Américo Nunes e a nutricionista Suelen Araújo são do Recife, tinham acabado de voltar de uma lua de mel e viram a vida mudar com o isolamento social necessário para conter a disseminação do coronavírus.

O momento é de dificuldade pois Américo é fotógrafo especializado em casamentos e eventos corporativos, que foram todos cancelados com a chegada do vírus. Porém, essa foi também uma oportunidade para desenvolver a ideia de tirar uma foto por dia da Suelen, sempre com novas propostas e sem sair de casa.

Ele contou ao HuffPost que pensou em aproveitar o momento para “experimentar técnicas que não uso no dia a dia com a finalidade de me desenvolver, curtir minha esposa e conhecer os cantos da nossa casa de recém-casados”.

Entretanto, jamais imaginou que ficaria tanto tempo envolvido nesse processo. “Não chegamos a pensar por quanto tempo o projeto iria durar, mas a sensação era de que seria um projeto breve de 15 a 20 dias. Logo no primeiro mês vimos que a situação no Brasil só fazia piorar e de repente já estávamos no retrato de número 50. Foi um peso chegar nesse número, pois já tinham se passado quase dois meses sem trabalhos fotográficos, sem ver nossa família e amigos, pois sempre fizemos questão de respeitar o isolamento social. É o mínimo até hoje.”

“A ideia surgiu a partir de um fotógrafo e uma fotógrafa. O primeiro, Fernando Schlaepfer, fotógrafo do Rio de Janeiro, havia iniciado um projeto de autorretrato diário uma semana antes de começarmos o nosso. E a segunda, Lara Albuquerque, fotógrafa daqui de Recife, que conheci ano passado e na ocasião me apresentou um belo trabalho de fotografias realizadas no quintal de casa”, conta Américo.

Ele também explica detalhes de como um fotógrafo trabalha com a ideia de ter um momento perfeito para registrar imagens, mas que nem sempre isso é necessário. “Às vezes, como fotógrafo, a gente espera estar na locação e situação perfeitas para criar imagens, mas essas duas pessoas me mostraram que dentro de casa, sem grandes aparatos e sem equipe, é totalmente possível criar e ser criativo diariamente. Então, juntei essas duas referências, a necessidade de me manter ativo e a vontade de experimentar técnicas diferentes.”

Américo conta que “inicialmente era um projeto meu, mas logo na primeira semana ela passou a sugerir ideias e passamos a pensar juntos diariamente. Muitas vezes utilizamos objetos simples para produção das imagens: lanterna de celular, espelho, copo quebrado, monitor de computador etc”.

E é possível ser criativo todos os dias?

“Tem dias bem pesados para quem trabalha com criação. A avalanche de notícias ruins é prejudicial para qualquer pessoa, mas esse projeto acabou sendo um escape para nós dois em dias complicados. Foram muitos os dias que faltaram inspiração, mas pensamos juntos, fizemos testes, esprememos as ideias e tínhamos um resultado legal. Às vezes é preciso 20 cliques para chegar no retrato, já em outros dias há muita inspiração e no terceiro clique a foto está feita. Desses 100 dias de projeto, tiveram 5 que preferimos ficar quietos sem produzir.”

E quais são as principais inspirações dos retratos?

“As inspirações são muitas: filmes, séries, música, movimento Pop Art, nossos próprios sentimentos e rotina. Produções como O Poço, Amelie Poulain, The Marvelous Mrs. Maisel, 2001 Odisséia no Espaço e os Beatles nos inspiraram em alguns retratos. A necessidade de experimentar técnicas e acessórios que não costumo trabalhar no dia a dia também inspira. Sou fotógrafo de casamento e também realizo retratos corporativos para profissionais de saúde, direito e tecnologia. São fotos que seguem um certo padrão, já que os profissionais precisam ser vistos para passarem sua mensagem, então não consigo, por exemplo, utilizar uma luz vermelha, junto com o reflexo de um copo quebrado ou até uma luz passando por uma peneira de cozinha para criar uma textura de sombra no rosto etc. Essa busca dentro de casa por objetos e luzes ajuda bastante.”

E, depois de tantos retratos, há a intenção de continuar o projeto quando tudo isso passar?

“Pretendemos sim continuar com os retratos, mas não diariamente. Há ideias que não conseguimos executar, por falta de equipamento em casa. Então, felizmente, é um projeto que dificilmente terá fim. Quando tudo isso passar e estivermos seguros, tenho vontade de transformar em série algumas estéticas criadas para os retratos. Quero que algumas dessas nossas criações cheguem para mais pessoas. O que pode virar uma exposição, publicação ou um trabalho comercial.”

Pedimos para o Américo dar uma dica para quem estiver em casa e quiser começar um projeto do tipo. “A dica principal é buscar um assunto de interesse e focar nele. Criar com um tema que você gosta já é um grande impulso diário. É normal todos trabalharem com algo que não goste, ninguém nunca vai trabalhar 100% com o que gosta. Sempre terá um cliente, um projeto ou uma burocracia chata no processo. Então, para um projeto autoral, em que você irá definir tudo, a dica maior é fazer o que gosta e se identifique”.

Além de apresentar o projeto, finalizo este post com uma dica muito importante: namore (e case) com alguém que declare o quanto te ama com um projeto de fotografia com seu belíssimo rosto no meio de uma pandemia.

Para mais fotos lindíssimas siga o @americonunes no Instagram.