COMPORTAMENTO
11/06/2019 02:00 -03

Como é ganhar a vida escrevendo cartões de Dia dos Namorados para outras pessoas

Conversamos com 2 criadores de cartões de saudações sobre a arte de redigir mensagens sinceras.

Daria Voskoboeva via Getty Images
Saiba o que está por trás do ofício de fazer cartões de Dia dos Namorados.

“Escrever cartões de saudações é uma maratona, não uma corrida de velocidade.”

É o que diz Greg Vovos, redator-chefe da empresa American Greetings, sediada em Cleveland, onde trabalha há 10 anos criando as palavras que você provavelmente queria ter conseguido escrever você mesmo.

Ele e Anne McEvoy, redatora sênior que está na empresa há 30 anos, escrevem as mensagens de cartões para feriados como o Dia de São Valentim (Valentine’s Day, o Dia dos Namorados), Natal, Páscoa, feriados judaicos e outras festas como aniversários e casamentos. Quando conversei com eles, no dia antes do Dia dos Namorados, eles explicaram que já estavam escrevendo mensagens para outras datas. Mas compartilharam como se preparam para uma das épocas do ano em que mais se trocam cartões. Eles disseram que é preciso muito mais do que simplesmente propor algumas palavrinhas.

“Como redatores e editores, fazemos um grande trabalho de pesquisa”, disse McEvoy ao HuffPost. “Procuramos ficar a par das últimas tendências, acompanhar o que está acontecendo na sociedade. Há muitos programas de TV e outros tipos de mídia que mostram famílias mistas, pessoas vivendo juntas e se casando, tendências  do divórcio, pessoas que se casam em uma fase posterior da vida. Tudo isso vai afetar os relacionamentos pessoais para os quais escrevemos.”

Mas como é realmente criar mensagens universais sobre esses relacionamentos e ainda conseguir que elas soem originais e com um sentido pessoal?

“Essa é a parte divertida do nosso trabalho”, disse McEvoy.

Ela e Vovos levam gostos pessoais e tipos de personalidade em conta quando criam suas mensagens. Há uma equipe de design que é responsável pela arte dos cartões, mas são redatores como Vovos e McEvoy que decidem se a mensagem vai incluir um toque de humor, versinhos que rimam ou uma declaração sincera de amor, entre muitas outras opções possíveis.

Vovos destacou a importância de haver “um cartão para cada caso”, quer seja um casal que está junto há 2 meses ou duas décadas.

“E um novo amor não significa que sejam apenas pessoas de 20 e poucos anos”, ele destacou.

Outra coisa para a qual McEvoy chamou a atenção é que nem todo o amor é romântico. Os redatores de cartões precisam expressar o amor em suas muitas formas. Pode ser um cartão que uma avó vai mandar para uma neta ou que uma criança vai dar a seu pai ou mãe.

No caso dos cartões mais românticos, McEvoy às vezes busca inspiração em fotos de casais. A partir da foto ela imagina como esse casal pode ser na vida real.

“Antes de começar a escrever, puxo uma dessas fotos para a minha página e tento imaginar o que essas duas pessoas podem querer dizer uma à outra, o que as faria rir, há quanto tempo estão juntas. Crio uma espécie de pequeno roteiro para elas”, contou a redatora.

Vovos encontra inspiração no trabalho de outros redatores e também em momentos do dia a dia que muitas pessoas podem não valorizar tanto quanto ele.

“A gente vive com os olhos abertos, tomando nota mentalmente do que as pessoas fazem e como elas agem”, ele explicou. “Cada casal tem suas excentricidades próprias em seu relacionamento, mas todo o mundo se lembra do primeiro beijo ou da primeira vez que seu companheiro a segurou nos braços. São esses detalhes universais, comuns a todas as pessoas, que transcendem o tempo.

McEvoy disse que ela e Vovos têm “muita sorte por trabalhar em um dos melhores estúdios criativos do país. A empresa nos incentiva a buscar inspiração e criatividade de várias maneiras, por exemplo indo a uma livraria ou assistindo a filmes.”

Ela já chegou a ter uma ideia enquanto assistia a um comercial.

Dificilmente os redatores não vão se inspirar em seus próprios relacionamentos quando criam mensagens de amor e afeto. E, caso você esteja curioso: sim, eles não veem problema em dar cartões que eles próprios escreveram às pessoas que amam.

“Depois deste nosso papo, vou comprar um cartão de Dia dos Namorados para minha mulher”, falou Vovos, rindo. “E vou fazer questão que seja um que eu mesmo escrevi.” Mas ele admitiu que de vez em quando, por exemplo uma vez em cada dez, ele encontra um cartão que ele próprio não escreveu e que ele realmente curte, que representa bem sua mensagem.

Já lhe aconteceu também de receber um cartão de Dia dos Namorados escrito por ele. Sua mulher lhe deu um cartão sem saber que o autor da mensagem era ele próprio.

“Falei para ela: ‘Meu Deus, eu escrevi esta mensagem pensando em você’”, Vovos contou ao HuffPost. “Era um textinho romântico falando de nosso relacionamento e do que eu amo nela. Escrevi a mensagem para minha mulher, mas os editores a pegaram e converteram em um ‘cartão para um marido’. Mal consegui acreditar. Agora está nas lojas como ‘cartão para uma esposa’ e está vendendo muito bem.”

Ele acrescentou: “Aquele cartão fala das coisas que realmente valorizo em nosso relacionamento. Por isso mesmo, o fato de minha mulher o ter escolhido me fez sentir uma ligação ainda maior com ela.”

Também McEvoy dá cartões que ela própria redigiu a seus amigos e familiares (seus colegas de trabalho geralmente recebem dela alguma coisa feita a mão). Especialmente quando o aniversário dela ou o Dia das Mães se aproximam, seus filhos lhe perguntam “este cartão aqui foi você quem escreveu?”.

“Para ser franca, depois de 30 anos é difícil me lembrar exatamente quais eu mesma escrevi”, ela prosseguiu.

McEvoy pode ter esquecido algumas das palavras exatas, mas está claro que suas mensagens e as de Vovos continuam vivas, e não apenas em cartões.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.