MULHERES
20/05/2020 18:00 -03

Odiei estar grávida e demorei para aceitar que seria mãe. Hoje, amo a maternidade

A dona do 18º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a professora Carolina Canon, que foi abandonada pelo progenitor do filho aos 3 meses de gestação.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Col

A maternidade sempre foi um universo bem distante de mim. Eu falava em ser mãe eventualmente, mas era algo muito subjetivo, e mesmo quando esse tema surgia, eu sempre afirmava que iria adotar – e ainda vou -, porque eu sempre acreditei que ser humano é muito mais do que sangue, e a ideia de ficar grávida sempre me pareceu algo bastante incômodo. A sensação que eu tinha era como se meu corpo não fosse compatível com uma gravidez e, de fato, estar grávida foi algo que eu, definitivamente, não gostei.

O período da gravidez em si foi tranquilo fisiologicamente. Enjoei muito nos 4 primeiros meses, o que foi bastante desagradável, porque aliado ao fato de eu não querer a gravidez e ter sido abandonada pelo progenitor aos 3 meses de gestação, meu psicológico ficou bastante abalado. Demorei muito tempo para aceitar que seria mãe em breve, e principalmente me aceitar e me ressignificar em meio a esse processo.

Mas há exatos 3 anos dei à luz o Gael. Entrei em trabalho de parto, contudo, por falta de estrutura do hospital, acabei não tendo um ambiente confortável para aguardar o trabalho de parto até o fim. Por isso optei por cesárea, mas estava muito tranquila porque o Gael já estava pronto para nascer. E foi o momento mais incrível de toda a minha vida. Eu jamais vou me esquecer do instante que escutei o choro dele pela primeira vez. Foi como se todo o amor que eu havia racionalizado durante 9 meses descesse imediatamente para meu coração.

Desde então, minha vida e rotina mudaram radicalmente. Meu puerpério foi tranquilo se comparado aos muitos relatos que li. Não tive grandes momentos de tristeza e transbordava amor pelo meu filho, como é até hoje, mas ficar em casa isolada nos 3 primeiros meses de vida dele não foi fácil.

Eu sempre fui rodeada de amigos, sempre tive uma vida social intensa e, mesmo durante a gravidez, não parei. Com 8 meses estava pulando Carnaval e na véspera de dar à luz fiz faxina pesada na minha casa; por isso, foi bem complicado diminuir o ritmo e, até hoje, ainda não consegui retomar sequer parte dessa sociabilidade.

Esse é um aspecto bastante significativo da maternidade. Nós, mulheres, raramente conseguimos manter as relações sociais anteriores a essa mudança. E aquelas que permanecem são ressignificadas muito intensamente. A maternidade é uma solidão povoada.

Povoada pela culpa em suas diversas faces, pela alegria de participar ativamente do desenvolvimento de um ser humano, pela preocupação de não estar fazendo as coisas da maneira correta, pela tristeza de ter que trabalhar e deixar seu filho na escola por muito tempo, por sentir seu coração transbordar de amor quando ele sorri e diz “mamãe eu te amo”, pelo desespero de ver o mundo ficando cada vez pior e saber que é nesse mundo que seu filho viverá, enfim, povoada por múltiplos sentimentos, na sua maioria contraditórios, que mesclam felicidades e angústias.

A amamentação foi tranquila, não tive dificuldades de amamentá-lo exclusivamente até os 6 meses, nem depois. Nos primeiros 15 dias, meu mamilo esquerdo fissurou, mas foi só. Li muito a respeito de amamentação e maternidade e sei que eu sou exceção à regra, já que a amamentação geralmente é um processo bastante complexo. Sei, portanto, o quão privilegiados somos eu e Gael. Até hoje eu o amamento na hora de dormir, quase não produzo mais leite, mas quero que ele mesmo, quando sentir-se preparado, deixe o peito, tal qual foi com a hora de nascer.

Ele me sugeriu entregar meu filho para adoção após o nascimento, já que nem ele e nem eu queríamos ser os pais da criança. Senti um ódio inenarrável desse infeliz, mas também virou uma 'chavinha' dentro de mim, me fez refletir qual seria realmente o meu papel dali por diante e me fez ressignificar o sentimento de gratidão.

De abril de 2017 até agora, a maternidade tem sido a maior de todas as minhas aventuras. Cada idade da criança tem seus encantamentos, mas também seus desafios e dificuldades. Sou professora de Sociologia da Rede Pública Estadual de SP, amo o que faço e sou completamente apaixonada por adolescentes... Mas crianças nunca me despertaram interesse mais profundo, nunca fui uma child free - e sempre abominei esse tipo de comportamento -, mas nunca tive paixão pela infância como tenho pela adolescência.

A maternidade me trouxe outro olhar sobre essa fase da vida dos indivíduos. Hoje eu tenho não só paixão pela infância, seu modus operandi, mas também me fascina a neurociência desse período, como o cérebro das crianças desenvolve seus aspectos cognitivos, motores e afetivos. Junto com essa nova paixão, veio o desejo de aprender mais sobre a infância, como forma também de entender melhor meu filho e auxiliar com mais assertividade seu desenvolvimento.

A maternidade real é muito diferente daquela que a sociedade construiu ao longo do tempo, é muito mais espinhos do que rosas; diversas vezes me senti sozinha. Apesar de ter uma rede de apoio incrível, tem momentos que me pego em determinadas situações que apenas eu posso dar conta e isso, sinceramente, cansa muitas vezes. Dá vontade de sumir e nunca mais voltar, e em seguida, vem a culpa por ter tido essa vontade. A culpabilidade é fenômeno recorrente na maternidade, e penso que não sou apenas eu que sinto isso.

Quando eu estava grávida, logo após ter sido abandonada pelo progenitor do Gael, trocamos alguns e-mails para tratarmos de questões financeiras principalmente - e foi das piores experiências para se ter grávida. O Patriarcado é mesmo um mal estrutural e muito difícil de combater. Em um desses e-mails, o fulano me sugeriu entregar meu filho para adoção após o nascimento, já que nem ele e nem eu queríamos ser os pais da criança. Ler aquilo me faz sentir um ódio inenarrável desse infeliz, mas também virou uma “chavinha” dentro de mim, me fez refletir qual seria realmente o meu papel dali por diante e me fez ressignificar o sentimento de gratidão.

Eu nunca tive medo de ser mãe, de viver a maternidade, o meu incômodo era a gravidez: sim, eu amo ser mãe, mas odiei estar grávida! E não me importo com os julgamentos que apareceram a partir dessa minha afirmação, principalmente porque a partir do momento em que eu reconheci isso, a maternidade e ser mãe ganharam um novo sentido pra mim. Isso me fez parar de me odiar por estar grávida, parar de me culpar por ter engravidado, parar de lamentar e ter coragem pra enfrentar essa nova aventura.

Hoje, depois de me tornar mãe, a gratidão ganhou um novo sentido e tamanho em mim. Antes da maternidade, raramente me sentia grata pelo que sou, por tudo que tenho e conquistei – e aqui não me refiro a aspectos materiais -, mas hoje, são raros os dias que não sinto profunda gratidão, não só por ser o que sou, mas por ter o Gael na minha vida, por ter sido escolhida por ele para ser sua mãe... Por maiores que sejam os desafios, criar um filho, nos dias de hoje, é o maior ato de fé na humanidade que outro ser humano pode ter — e eu sou e me sinto muito grata por ser corajosa o suficiente de seguir adiante com esse ato.

Nunca foi fácil, nem nunca será, mas nem por isso deixa de ser deliciosamente surpreendente. A maternidade, a real, é extremamente desafiadora, mas faz a gente querer ser melhor a cada dia, para os nossos filhos e para o mundo.

Eu sou alguém muito melhor dos que era há 4 anos. Sou mais paciente, julgo menos e sou muito mais empática com tudo e todos, e por isso também sou grata. Vivenciar a maternidade, ser mãe biológica ou adotiva é, sem dúvida, a experiência mais transformadora e profunda que eu vivi.

Carolina Canon é dona do 18º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela é professora de Sociologia da Rede Pública Estadual de São Paulo, ama seu trabalho, e é mãe do Gael