MULHERES
19/05/2020 06:00 -03

Somos uma família muito diferente da 'tradicional', banhada em amor

A dona do 17º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a retratista e professora Carolina Pedrosa, que relata os desafios de balancear sua individualidade e sua maternidade.

Divulgação/Maurício Araújo
A plenitude de Carol Pedrosa, a mulher, que é mãe, mas tem muitas outras camadas.

A maternidade sempre foi um sonho na minha vida, desde criança. Eu era daquelas que brincava de ser mãe e sentia muito prazer nisso. Queria que o cachorro fosse como um bebê, tratava o irmãozinho com ares de cuidado (e tinha incríveis 6 anos de maturidade quando ele nasceu).

Já maior, ficava desesperada em ver cenas de novela na qual uma grávida se acidentava. A clássica cena da grávida que cai, perde o filho, me marcava desde pequena e eu pensava ser a coisa mais triste do mundo. 

Vivi tudo isso. Não a queda, mas perdi um filho ainda dentro mim. E é triste demais mesmo, inenarrável. Depois veio a segunda gravidez, outro risco. Ficar de cama, repouso absoluto. Esses dias eu contei ao meu filho, Dante, hoje com 11 anos, sobre o período de repouso para preservar a vida dele, que ainda não era maior do que um feijão, mas já significava um mundo prá nós. Foi um susto, talvez o primeiro que superamos juntos.

Nossa história envolve muitos desafios. Fui mãe aos 24, o pai tinha 25, ficamos casados por mais uns 3 anos e depois encerramos o relacionamento romântico que nos uniu. Entendemos que o amor assume muitas outras formas e hoje já se passou mais tempo que o Dante vive entre duas casas do que o tempo que dividimos um lar.

Ainda assim, compartilhamos a criação do Dante e isso nos coloca um pé no chão que nenhuma outra raiz conhece. O Dante compreende a situação, sente falta do conforto de uma casa “só”, reconhece que ainda assim vive uma vida de muito conforto. É um companheirão.

Há 2 anos, quando fui contar para os meus pais que eu estava namorando uma mulher, o Dante estava lá. Mostrou toda a sua alegria com a situação e disse o quanto gostava da namorada da mamãe. Não há o que estranhar. Aos poucos ele foi percebendo que outras pessoas estranham nossa configuração familiar, e foi entendendo que nós somos também resistência. O Dante com seu longo cabelo cacheado, eu de cabelo raspado.

Explicar, então, o tamanho da nossa família e as pessoas que ela envolve, vish, causa muita confusão em algumas pessoas. Mas somos assim; uma família muito diferente do “tradicional”, banhada em amor. E acredita que essa é outra resistência? Lutar para deixar o amor prevalecer. 

Às vezes eu sinto saudade de mim mesma. Saudade de escutar meus pensamentos (nesta quarentena, então, nossa! Carol, miga, que saudade!), de comer qualquer porcaria porque não quero cozinhar, de assistir um filme adulto, uma série besta... De não ser exemplo para ninguém.
Divulgação/Arquivo Pessoal
Dante e Carolina: registro da infância do pequeno.

Sabe, fui convidada a contar sobre os aprendizados da maternidade e tem um que me marca muito: eu aprendi que diálogo e amor são uma receita fantástica para uma vida feliz. É assim que criamos o Dante nessa grande comunidade que nos cerca. Porque criança precisa de referências, no plural. Referências de homens, de mulheres, de adultos, de crianças. Então há muitos envolvidos nesse processo: amigxs com quem dividimos casa (as duas), namoradxs, amigxs que são rede de proteção (do tipo que vai buscar na escola quando não vai dar tempo dos pais chegarem), um grande grupo familiar.

Mas voltando sobre mim, porque este texto é sobre a mãe, não sobre o Dante (e nós precisamos da ajuda da comunidade para sermos sempre lembradas de que essa distinção deve existir), digo que a maternidade me faz ainda mais forte. E também me enlouquece!

Às vezes eu sinto saudade de mim mesma. Sabe? Bem maluco mesmo. É saudade de escutar meus pensamentos (nesta quarentena, então, nossa! Carol, miga, que saudade!), de comer qualquer porcaria porque não quero cozinhar, de assistir um filme adulto, uma série besta, estudar, jogar um jogo que escolhi no videogame. De não ser exemplo para ninguém.   

Aí a gente vai negociando. Eu peço 20 minutos em silêncio quando ninguém vai me chamar a não ser que envolva desastre e/ou sangue. Acabados os 20 minutos eu abro a porta do quarto e entram feito furação (filho, cachorro, gato), tirando o “atraso” dos 20 minutos. Em outros momentos eu peço silêncio, porque quero ler, e o Dante se aproveita desse tempo pra se afundar nos vídeos que assiste. Não raro ele me cobre e fala “fica mais um pouquinho, mãe”, porque assim ele também (já um pré-adolescente) aproveita esses instantes nos quais ele pode ser apenas ele, e não filho. 

Agora o desafio é outro, aprender a lidar com essa transformação do papel da maternidade: a criança vai ficando na memória, cada vez mais eu estou perto de lidar com esse ser que não depende mais de mim. Que talvez nem queira mais minha presença na maior parte do tempo. Ah, meu Deus! Talvez eu não tenha mais saudade de ouvir meus pensamentos, talvez eu queria escutar mais 3 horas sobre minecraftyoutubequeen. Ser mãe é um negócio bem esquizofrênico mesmo...

Eu continuo apaixonada pela ideia de ser mãe. E é paixão mesmo, daquelas que até perturbam a visão e nos fazem ver as coisas meio deturpadas. Porque a maternidade é linda, me enche de amor. E também enche de responsabilidade. Uma responsabilidade imensa com aquela outra vida, desde o pesadelo à noite no qual ele recorre A você, até a doença que acomete um bebê de 20 dias e você não consegue nem sentir nada, de tanto pavor e cansaço.

A maternidade é a melhor parte de mim, e ela não é só beleza. Nem é romântica. É real e, com isso, é muito poderosa.

Carolina Pedrosa é dona do 17º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Formada na ECA, já pesquisou tecnologias educativas e hoje pesquisa, no doutorado, o uso político da imagem feminina. Nasceu no Jd São Luis, zona sul paulistana, trabalhou em fábrica no japão e percorreu alguns caminhos. Percebeu que é encantada pela complexidade das pessoas e suas histórias, por isso é professora e retratista (especialmente de mulheres).