MULHERES
12/05/2020 06:00 -03

A maternidade me ensina que tudo são fases - e que precisamos vivê-las intensamente

O 11º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da cientista social Carol Miranda, que aposta na leveza de que tudo vai passar.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Carol Miranda e a filha Catarina: aprendizado de que tudo na vida são fases.

Se tem uma coisa que aprendi com a maternidade é que tudo são fases. Tá, eu sei que isso é clichê e que em outros âmbitos da vida isso também é verdade. Mas na maternidade isso não é só real; é algo com que podemos nos apegar para fazer as crises, os choros e angústias passarem de maneira mais leve. E até mesmo que os momentos mais incríveis sejam vividos com toda a intensidade que merecem.

Minha filha Catarina sempre foi uma bebê tranquila. Mas ali por volta dos 3, 4 meses, chorava muito no final da tarde, começo da noite – alguns chamam de “hora da bruxa” —, demorava para dormir. Eu e o pai dela fazíamos de tudo para acalmá-la: subir e descer escada, dançar reggae, cantar músicas infantis, tocar pandeiro... Sim, várias vezes ela dormiu com o Rodrigo tocando pandeiro, não devagar, mas um baita samba mesmo. 

Todo dia, quando algo dava certo, ela se acalmava e dormia, pensávamos: “Pronto, descobrimos o segredo! A Catarina gosta disso!”. Mas bebês gostam muito de rir da nossa cara. Dava 2 dias e aquilo que tinha dado certo já não funcionava mais... Vivemos assim durante 1 ou 2 meses, já nem me lembro. Mas lembro de achar que dali em diante, durante a minha vida inteira, eu teria que viver isso no final das tardes.

Catarina nos ensina o valor de deixar o celular de lado, adiar um pouquinho aquele trabalho que precisa ser entregue, pausar a série, só para viver aquele segundo que não volta mais.

E aí, de repente, a Catarina parou de chorar desse jeito. Tá, não foi tão de repente. Aprendemos que, ao longo do dia, não era bom deixá-la acordada mais de 1h30 (mais ou menos) entre um cochilo e outro, porque ela ficava muito cansada e resultava nesse pico de nervoso depois. 

Fato é: o que parecia que iria durar a vida inteira foi uma fase. Assim como teve a fase na qual ela só dormia no meu colo, assim como teve a fase de mamar muito de madrugada, assim como terão muitas fases, por muitos anos ainda (meu desejo maior de mãe).

E hoje, no dia em que escrevo este texto, Catarina está com 1 ano e 1 mês e vivemos outra fase. Aquela em que ela começa a dar os primeiros passos, desajeitados, mas cheios de charme. A fase de falar “mamãe” e “papai” do jeito mais lindo possível. A fase de rir quando um objeto cai no chão ou alguém se esconde e aparece de novo. 

E aí, não tem jeito, Catarina nos ensina o valor de deixar o celular de lado, adiar um pouquinho aquele trabalho que precisa ser entregue, pausar a série, só para viver aquele segundo que não volta mais. 

Mas é também uma fase atípica e vivida com o mundo inteiro: estamos em isolamento social, já tem dias que temos que viver nossa rotina dentro de casa, entre brincadeiras e cantorias, momentos de puro tédio e picos de ansiedade.

Chora ela, chora eu, chora o pai. De fora, as notícias chegam; aqui dentro, seguimos lembrando que, apesar de não sabermos até quando viveremos assim, se pouco ou muito, tranquilos ou surtados, é uma fase. Isso também vai passar.

Carol Miranda é dona do 11º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela é mãe da Catarina e cientista social. Apaixonada por livros, Paulo Freire e política, sonha e trabalha por um mundo melhor por meio da educação.

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