MULHERES
02/05/2020 08:00 -03

Meus filhos vieram de mim, do mesmo corpo que eu achava feio e fraco

O 2º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da empreendedora Carol Kerbidi, blogueira plus size e do movimento body positive.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Carol Kerbidi com Alícia e Victor, seus filhos.

Tanta coisa para falar quando o assunto é maternidade... Poderia falar de todas as maravilhas de ser mãe, que apenas uma gracinha ou sorriso faz a gente ganhar o dia. Ou talvez poderia falar dos enormes desafios que atropelam nossa vida nesse período, o famoso lado B, que testa a saúde mental de muitas de nós. Mas neste depoimento gostaria de falar de mim. De como essa jornada me transformou como pessoa, como mulher.

Foi um divisor de águas tão grande na minha vida, que todas as minhas lembranças são divididas entre antes da maternidade e depois da maternidade. Sou mãe há 5 anos, 9 meses e 4 dias, mas parece uma vida inteira, tamanha a intensidade dessa tarefa, tamanha a mudança dentro de mim. Hoje me vejo mãe primeiro, para então ser todos os outros papéis que a vida me concedeu.

Junto desse papel de mãe veio uma coragem enorme. Coragem para amar meu corpo como é, num ato revolucionário dentro da cultura do corpo sarado. Coragem para mudar de profissão e usar minha voz e minha história para influenciar milhares de outras mulheres que estão aprisionadas pelo mesmo padrão estético que me aprisionou por tanto tempo.

Por quase 30 anos, eu vivi com um único objetivo de vida: emagrecer para então ser feliz! Era como se o formato do meu corpo fosse o maior pré-requisito para a felicidade. Mas enquanto eu não chegava ao tão sonhado peso ideal, a vida ia acontecendo, conquistas eram realizadas, mas para mim, tudo tinha um sabor sem graça. Eu não me sentia digna de comemorar nada; afinal, não era magra.

Dessa maneira, eu cresci, estudei, formei, viajei, fiz amigos incríveis, namorei, casei, estudei mais, arrumei um emprego legal, fui promovida, viajei mais e, apesar de tantos privilégios, sentia que tinha uma vida mais ou menos, sempre com um gostinho de fracasso no fundo de cada um desses acontecimentos.

Então, minha primogênita chegou, e aconteceu algo que colocou todo esse sistema em xeque. Lá estava eu recebendo o maior presente da minha vida, aquele pacotinho que me amava tanto, cegamente, do jeitinho que eu era, sem tirar nem uma estria ou celulite do lugar.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Carol Kerbidi (à esq.) com as amigas: a beleza da vida está na diferença.
Só com a maternidade pude iniciar o que tem sido uma longa jornada para o amor-próprio. É um processo... Mas hoje minha felicidade não está mais atrelada ao formato do meu corpo.

Esse ser que veio de dentro de mim, do mesmo corpo que eu achava feio, fraco, indigno e que foi capaz de tamanho milagre. Isso me quebrantou, e eu, pela primeira vez, pude receber, com gratidão e humildade, esse amor, essa felicidade do jeitinho que vieram, genuínos, sem pedir absolutamente nada em troca, sem querer mudar nada em mim.

Questionar essa estrutura foi apenas o primeiro passo, e foi a maternidade que me fez enxergar que existe outro caminho. Só assim pude iniciar o que tem sido uma longa jornada para o amor-próprio. É um processo. Tem dias melhores, outros nem tanto. Mas hoje minha felicidade não está mais atrelada ao formato do meu corpo. Eu escolhi ser feliz primeiro para então provocar, ou não, qualquer mudança na minha aparência.

Tenho muito orgulho de toda essa trajetória e levo muito a sério minha missão de compartilhá-la com outras mulheres que também passaram ou passam pelo mesmo que eu. Quero ser exemplo para elas e principalmente para meu filhos. A eles faço questão de ensinar, pelo exemplo, que a beleza está na diferença e o mais importante é o que está em cada um de nós.

Carol Kerbidi é dona do 2º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela é mãe da Alícia e do Victor. Atua com body positive, empreendedorismo, moda e beleza. Faz parte do Garotas FDP (fora do Padrão) — @garotasFDP — e fundou a KAPSULI+ — @kapsuli_plus — uma marca de roupas para as mulheres gordas