MULHERES
28/02/2019 01:00 -03

Blocos de Carnaval comandados por mulheres põem visibilidade feminina na rua

A cada ano, blocos liderados por mulheres crescem nos principais carnavais de rua do País.

Reprodução/Facebook/Mulheres Rodadas
O intuito do "Mulheres Rodadas" é combater a patrulha sobre os corpos e sobre a sexualidade das mulheres, que não dá folga nem no Carnaval.

Elas querem botar o bloco na rua. A cada ano, se multiplicam os blocos liderados por mulheres com mensagens feministas nos principais carnavais de rua do País.

São nesses blocos, sob comando feminino, que se levantam as bandeiras de combate ao assédio sexual, respeito ao corpo e a liberdade das mulheres, afirma Renata Rodrigues, fundadora do bloco Mulheres Rodadas.

Ela acredita que, como nos outros espaços, a presença da mulher em posições de liderança vem acompanhada de muito mais cobrança e questionamentos. “Ser mulher e fazer carnaval é igual a todo o resto”, diz. Mas ela comemora que cada vez mais mulheres conquistem esses lugares.

Mulheres Rodadas, Toco-Xona, Ilú Obá de Min, Pagu, Baque de Mina e Vaca Profana. Aqui estão alguns destes blocos que há alguns anos colocam a visibilidade feminina na pauta e na rua.

1. Mulheres Rodadas, Rio de Janeiro (RJ)

“Eu não mereço mulher rodada.” Para ironizar uma postagem com essa frase que foi publicada em uma página conservadora e viralizou no final de 2014 surgiu o bloco carioca Mulheres Rodadas. O intuito: combater a patrulha sobre os corpos e sobre a sexualidade das mulheres, que não dá folga nem no Carnaval. “A criação do bloco também marca a minha descoberta do feminismo”, conta Renata Rodrigues, uma das fundadoras do bloco.

Ela lembra que o bloco foi pela primeira vez para rua em 2015, antes da Primavera das Mulheres e das campanhas de denúncia contra assédio na internet como a #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto. “O Mulheres Rodadas é um grande grito. A gente não fala só sobre liberdade sexual, mas sobre liberdade política”, completa a jornalista. Em seu quinto Carnaval, o bloco sairá com uma bateria de 200 integrantes, em que 90% são mulheres e o homens não assumem posição de liderança. O grupo costuma levar cerca de 4 mil pessoas para rua.

Quando e onde: 6 de março, Quarta-feira de Cinzas, 10h, na zona sul do Rio

2. Toco-Xona, Rio de Janeiro (RJ)

O Toco-Xona nasceu em 2007 e se define como o primeiro bloco LGBTQI+ do Rio de Janeiro, formado para enaltecer e dar visibilidade às mulheres lésbicas. No repertório, o bloco faz releituras de Madonna a É o Tchan.

O bloco fazia seu “desfile-parado” em uma praça no bairro Botafogo, na zona sul do Rio, mas cresceu tanto que foi “promovido” para o Aterro do Flamengo, onde reúne uma multidão.

Todo ano, a maestrina e cofundadora Michele Krimer compõe um enredo especial. Já receberam homenagens Rita Lee, Madonna, Cássia Eller, Carmen Miranda, Hebe Camargo e Amy Winehouse. Em 2019, a letra Empodera!, segundo as organizadoras, ressalta a incansável luta da mulher contra o sistema. Aqui um trecho:

As conquistas, vitórias
Na sociedade
Fortalecem, empoderam
Criam sororidade

Mas ainda temos luta
Direitos a igualar
Zerar feminicídio
Assédio acabar

Quando e onde: 3 de março, Domingo de Carnaval, 10h, no Aterro do Flamengo

3. Ilú Obá de Min, São Paulo (SP)

O nome do bloco que desfila nas ruas paulistanas desde 2005 significa, em Yorubá, “mãos femininas que tocam o tambor para Xangô”. Composto exclusivamente por mulheres ritmistas, o bloco tem como objetivos enaltecer a cultura afro-brasileira, desenvolver atividades para o empoderamento da mulher e o fortalecimento das relações étnico-raciais e enfrentar racismo, sexismo, discriminação, preconceito, intolerância religiosa e homofobia.

Rogerio Cavalheiro/Divulgação
Conceição Evaristo, Ruth de Souza e Angela Davis serão homenageadas pelo Ilú Obá de Min em 2019.

Depois de reunir 45 mil pessoas em 2018, o bloco desfila em seu 15º Carnaval uma festa com o tema “Negras vozes, tempos de Alakan”, onde irá homenagear mulheres negras que fizeram história, como a escritora Conceição Evaristo, a atriz Ruth de Souza e a ativista Angela Davis.

O bloco também irá repetir a leitura do manifesto do Movimento Negro Unificado, organização ativista negra pioneira, que ocorreu originalmente em 1978.

Quando e onde: 1º de março, sexta-feira, 19h, na praça da República

4. Bloco Pagu, São Paulo (SP)

“Mulheres plurais, diversas, que ecoam seus desejos pela cidade em busca de respeito e liberdade, celebram suas vozes unidas e cada vez mais fortes.” É assim que se definem as integrantes do bloco Pagu. O grupo nasceu em outubro de 2016 com o intuito de exaltar a busca por equidade e respeito à liberdade individual da mulher. Em seu terceiro Carnaval, o bloco sai com uma bateria de 130 mulheres formadas em oficinas próprias.

O cortejo, que viu seu público saltar de 7 mil pessoas, em 2017, para 25 mil, em 2018, é embalado por canções clássicas de cantoras brasileiras. Carmen Miranda, Elis Regina, Marisa Monte e Gal Costa são reinterpretadas pelas cantoras Bárbara Eugênia, Raquel Tobias, além de Ana Cañas, que fará participação especial, no desfile deste ano.

Quando e onde: 5 de março, Terça-feira de Carnaval, 14h, na Praça da República

5. Baque de Mina, Belo Horizonte (MG)

Criado em Belo Horizonte em 2013, o grupo Baque de Mina é formado exclusivamente por mulheres percussionistas que tocam maracatu de baque virado, tradicional manifestação popular de Pernambuco, originalmente tocado apenas por homens.

O grupo busca romper com o preconceito de que “percussão é coisa para homem” e ocupa as ruas de BH com uma mensagem que busca, por meio da música, amplificar a voz feminina na sociedade na luta por equidade entre os gêneros.

Quando e onde: 5 de março, Terça-feira de Carnaval, 14h, na Praça Afonso Arinos

6. Vaca Profana, Olinda (PE)

O bloco Vaca Profana desfilou pela primeira vez no Carnaval de 2015, trazendo uma reflexão sobre assédio e machismo para as ladeiras de Olinda. Inspirado na célebre canção de mesmo nome escrita por Caetano Veloso, mas que ficou famosa na voz de Gal Costa, o bloco define que a ‘vaca profana’ se faz necessária como símbolo de libertação do corpo da mulher.

Este ano, o cortejo feminista vai homenagear a vereadora Marielle Franco, assassinada em março do ano passado no Rio de Janeiro. “Eles pensam que vão nos calar, mas este ano, mais do que nunca, vamos gritar mais alto e mais forte”, escrevem as organizadoras na página do grupo nas redes sociais.

No pré-Carnaval, o bloco passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro. O desfile em Olinda será no dia 4, e o grupo volta a São Paulo para a despedida do Carnaval em uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, no dia 8 de março.

Onde e quando: 4 de março, Segunda-feira de Carnaval, local e horário não divulgados