ENTRETENIMENTO
23/02/2020 10:35 -03

Crítica das ruas invade a avenida e Carnaval será o mais político de todos os tempos

Temas que criticam Bolsonaro, Crivella, corrupção, racismo, intolerância religiosa e violência darão o tom no Sambódromo do Rio.

Buda Mendes via Getty Images
Mangueira manterá o tom de protesto que rendeu o título à escola em 2019.

A crítica política e de costumes tão comum nos blocos de rua dará o tom no Sambódromo do Rio de Janeiro a partir deste domingo (23). Assim como os foliões que dão seu “recado” ao trazerem nas fantasias os assuntos do momento, por mais espinhosos que sejam, tradicionais escolas de samba do Rio estão dispostas a colocar o dedo na ferida no Carnaval 2020.

A maioria das 13 agremiações que desfilarão nos dias 23 e 24 de fevereiro assumiram um forte tom de crítica em seus sambas-enredo. Entre os alvos, estão políticos como o presidente Jair Bolsonaro e o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, além da corrupção, do racismo, da intolerância religiosa e da violência. 

Pouco mais de três décadas depois do “Cristo Mendigo” censurado no desfile campeão da Beija-Flor intitulado Ratos e Urubus... Larguem Minha Fantasia, a Mangueira vai à avenida em 2020 com um carro alegórico em que mostra um Cristo crucificado negro e favelado que, pelo menos por enquanto, não foi censurado como o criado pelo carnavalesco Joãozinho Trinta em 1989. 

No ano passado, um outro tema político deu o prêmio à Mangueira: na avenida, a escola questionou quem matou a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), tema que continua urgente.

Buda Mendes via Getty Images
No ano passado, a Mangueira questionou na avenida quem matou a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL).

Neste domingo, a Mangueira trará o samba-enredo A Verdade vos Fará Livre, de Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo, numa referência clara ao versículo da Bíblia citado com frequência pelo presidente Jair Bolsonaro: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

O samba tem trechos como “Eu sou da Estação Primeira de Nazaré / Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher / Moleque pelintra no buraco quente / Meu nome é Jesus da Gente / Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão” - um recado direto a Bolsonaro e a líderes religiosos que, na visão do carnavalesco Leandro Vieira, usam Jesus como “símbolo de opressão para atender a interesses políticos, bélicos, armamentistas”, como disse em entrevista ao jornal Extra

Outras agremiações, como a São Clemente e a Portela também miram suas criticas na situação política do País. Na primeira, o humorista Marcelo Adnet, em parceria com André Carvalho, Pedro Machado e Gustavo Albuquerque criaram o samba-enredo O conto do Vigário, que traz alusões ao caso dos laranjas do PSL (antigo partido do atual presidente) e ao papel das fake news na última eleição presidencial.

“Tem laranja / Na minha mão, uma é três e três é dez / É o bilhete premiado, vendido na rua / Malandro passando terreno na Lua / Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu / E o país inteiro assim sambou / Caiu na fake news.”

O enredo da Portela, então, não poderia ter crítica mais direta a Crivella e Bolsonaro no trecho: ”Índio pede paz, mas é de guerra / Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão”.

Questões ligadas a raça, religião e violência nas comunidades cariocas serão temas presentes em sambas-enredo de escolas como Salgueiro, que homenageia Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil; Grande Rio, que trata do babalorixá Joãozinho da Gomeia, o “rei do candomblé”, com trechos como: “Eu respeito seu amém / Você respeita meu axé”; e União da Ilha, que canta o samba Nas Encruzilhadas da Vida, Entre Becos, Ruas e Vielas, a Sorte Está Lançada: Salve-se quem Puder!.

Escute aqui os sambas-enredo das escolas de samba do Rio de Janeiro para o desfile do Carnaval 2020:

Críticas no grupo de acesso e no Anhembi

Mas não é só o grupo especial do Rio que veio com temática política neste ano. 

Acadêmicos de Vigário Geral abriu o desfile da Série A carioca, divisão de acesso do Carnaval do Rio, com uma alegoria que retrata o palhaço Bozo com a faixa presidencial e fazendo o gesto de “arminha” com as mãos.

Com o enredo O Conto do Vigário, dos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Salles, Marcus do Val e Rodrigo Almeida, a escola de samba da zona norte do Rio contou a história do Brasil pontuada por mentiras contadas pelos políticos.

Já no Sambódromo em São Paulo, no desfile do Grupo Especial, a atual campeã, Mancha Verde, que desfilou na madrugada deste sábado (22), fez críticas diretas a Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, e Paulo Guedes, ministro da Economia.

A escola paulistana levou à avenida uma ala inteira em referência à famosa frase de Damares de que “meninos vestem azul, meninas vestem rosa”. Uma fantasia em um carro alegórico também chamou a atenção do público: uma empregada doméstica usando orelhas do Mickey com um enorme passaporte na mão, em referência à recente declaração de Guedes de que, quando o dólar estava mais baixo, “empregada doméstica estava indo pra Disney, uma festa danada”.

Os filhos do presidente logo saíram em defesa do pai e de seu governo no Twitter. Enquanto o vereador do Rio Carlos Bolsonaro criticou o “pessoalzinho financiado pelo pelo tráfico de drogas”, referindo-se às escolas de samba, o deputado federal Eduardo Bolsonaro replicou um tuíte do cantor Roger Moreira dizendo: “Escolas de samba financiadas pelo jogo de bicho e tráfico de drogas, protestam contra o presidente conservador. Ficou lindo.”

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