MULHERES
16/05/2020 06:00 -03

Tenho um filho trans e uma filha autista que me ensinam a ser mais humana e feliz

A dona do 15º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é Carmen Namur, que superou culpas e luto em prol do amor incondicional.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Luiza e Victor, filhos de Carmen na infância, anos atrás.

A maternidade é até hoje o melhor presente que, sem planejar, me dei por duas vezes: aos 29 e aos 30 anos. Posso dizer que sou mãe de 2 filhos especiais e que muito me ensinam sobre a vida.

Particularmente, no meu caso, ter 2 bebês seguidos foi muito bom pois pude sentir o desenvolvimento de ambos e pude me inquietar com os comportamentos diferentes da Luiza, hoje com 27 anos. Desde que nasceu, ela já apresentava sintomas de autismo mas infelizmente naquele tempo, e para alguns até hoje, é difícil conseguir um diagnóstico precoce de autismo no Brasil.

Passei 3 anos e 8 meses correndo atrás de um diagnóstico. Luiza fez todos os exames possíveis no Brasil e alguns coletados aqui eram testados em outros países. Durante esse período, gastei uma fortuna com sessões de terapia e fono, que pouco acrescentavam pois não eram aplicadas adequadamente ao portador de autismo.

Posso dizer que fui enganada por alguns profissionais, mas um dia, assistindo a um filme, pude ver uma criança autista. Então, por fim, procurei um especialista que nos deu um diagnóstico claro e objetivo e sugeriu que procurássemos uma associação de pais, uma vez que naquele tempo não existiam escolas especializadas.

Luiza foi e é até hoje minha mestra da simplicidade. Ela me mostra como é preciso tão pouco para ver o seu lindo e penetrante sorriso iluminar seu belíssimo rosto e conquistar todos que a conhecem.

Devo confessar que é inevitável não passar por algum tipo de luto quando se tem um filho com limitações. No meu caso não foi diferente! Graças à minha mãe (in memoriam) e ao apoio de toda família, fui superando e certamente até hoje sigo superando e agora conto principalmente com o apoio de meu filho Victor, de 28 anos, psicólogo e mestre em TEA (Transtorno de Espectro Autista).

Victor nasceu menina e há 3 anos ele me contou que faria a transição de gênero. Foi um choque! A maternidade sempre nos faz pensar no futuro de nossos filhos, então, uma mudança de gênero foi um momento de total paralisação e reflexão!

O passado me vinha como acusador ao mesmo tempo que eu mesma me culpava... Foi a treva, um luto, momentos de total escuridão! Como entender meu filho?
Divulgação/Arquivo Pessoal
Mãe de Carmen observa a filha brincando com as netas.

Pela primeira vez pensei profundamente no passado, pensei em todo sofrimento que meu filho passou, em toda a solidão e dor que ele sentiu... Fiquei arrasada... Doía por dentro, meu coração chorava com tudo que ele vivera por toda sua vida e com toda minha ausência... Chorava também por medo de tudo que poderia acontecer a partir desta transição. 

O passado me vinha como acusador ao mesmo tempo que eu mesma me culpava... Foi a treva, um luto, momentos de total escuridão! Como entender meu filho? Era uma pergunta que não conseguia responder, até que a minha resposta foi: amor. Somente o amor poderia me devolver a luz e foi nisto que apostei. Com isso, resgatei minha espiritualidade.

Deus é amor e ama todos os seus filhos igualmente, então, me voltei para a religião, fui estudar a minha fé. Descobri que o amor não é somente um sentimento, mas sim uma decisão tomada a partir de nossa inteligência. Decidi amar. E o que implica isto? Nada de condições!

Victor, em sua transição, me transformou num ser humano muito melhor. Posso dizer que desde criancinha ele era diferente, preferia carrinhos a bonecas e shorts aos vestidinhos, e para mim isto nunca foi um problema.

Ele sempre se preocupava com todo mundo, sempre foi muito sensível. Ao final da adolescência ele me contou que gostava de meninas e novamente não vi problemas, além de pensar nas dificuldades de ser gay numa sociedade tão cruel com as diferenças — e vale lembrar que nesta época jamais pensei numa possibilidade de transição de gênero.

Há 3 anos aprendi que amar meu filho é aceitar ele do jeito que ele é, junto com todas as suas escolhas. Isso não significa que eu concorde com tudo, mas que eu o amo acima de tudo.

Agradeço a Deus por minhas duas maternidades! Luiza não é verbal, mas se comunica brilhantemente e, nestes dias de isolamento social, ela é a alegria do meu ordinário cotidiano. Ao Victor, rezo para que ele me perdoe por todos os meus atos e omissões que feriram seu coração e também rezo para que ele continue íntegro, correto e sensível.... 

Meus filhos me ensinaram sobre amor e com certeza me ajudam a ser mais humana, mais completa e mais feliz! Eles me fazem rezar por uma sociedade menos desigual e com mais respeito às diferenças e espero em breve me tornar mais ativa nesta luta.

Carmen Namur é a dona do 15º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Ela tem 56 anos, mora em São Paulo. Trabalha na área de Tecnologia da Informação e atualmente mora com a filha mais nova, Luiza