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19/01/2020 06:47 -03

Rompido com chefe da Secom, Carlos Bolsonaro atua nas redes como porta-voz informal do governo

Só em 2020, o filho 02 do presidente dedicou mais de 70% dos posts em sua conta no Twitter a anúncios relacionados ao governo e à defesa da gestão do pai.

SERGIO LIMA via Getty Images
Carlos Bolsonaro apagou, na sexta (17), um post no Twitter no qual negava que deseja assumir qualquer função relativa à comunicação no governo.

Carlos Bolsonaro, o filho do presidente conhecido por sua intensa e polêmica atuação nas redes sociais, passou por um período de silêncio no fim de 2019. Foram 28 dias, em que se especulou sobre os motivos que o levaram a cancelar suas contas, sempre tão ativas e cheias de seguidores.

Ao retornar, o 02 pareceu decidido a mudar completamente sua postura no Twitter. Um levantamento feito pelo HuffPost mostra que, das 204 postagens feitas por Carlos em seu perfil pessoal de 8 de dezembro até as 12h de sábado (18), praticamente a metade (101) foram anúncios sobre medidas do governo, ou tuítes em defesa do governo do pai.

Só em 2020, de 78 postagens, 56 - ou seja, 71% -, estiveram dedicadas a tratar de realizações do primeiro ano da gestão Bolsonaro.

A disposição de atuar nas redes como porta-voz informal do governo começou a chamar a atenção, especialmente agora, com a crise que se instaurou envolvendo o secretário de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten - primeiro um aliado de Carlos, hoje, um desafeto.   

Na transição, ainda em 2018, Carlos era uma aposta para assumir o posto de secretário de Comunicação. Gustavo Bebiano, o primeiro a ser cortado do governo - inclusive fritado nas redes sociais com a ajuda do filho do presidente - vetou. 

O vereador carioca, que está afastado do cargo, nega publicamente que deseje assumir qualquer função relativa à comunicação no governo, mas apagou, na sexta (17) pela manhã - pouco depois de publicar -, um post no Twitter em que afirmava justamente essa recusa.

“Já disse inúmeras vezes que nada tenho a ver com isso e que não pretendo nada, mas os canalhas insistem e dessa vez nem leem pensamentos, inventam mesmo e dane-se!”, escreveu, em reação a uma reportagem da Crusoé, sobre como a crise com Wajngarten poderia abrir portas para Carlos na comunicação do governo. 

Reprodução
Carlos Bolsonaro reage à matéria da revista Crusoé que fala que crise na comunicação abre portas para ele. Post foi apagado.

Distanciamento do chefe da Secom

Segundo interlocutores do Planalto ouvidos pelo HuffPost, Carlos e Wajngarten se afastaram nos últimos meses por “divergências e disputas de poder na comunicação palaciana”. 

Wajngarten foi alçado ao posto em abril do ano passado, pelas mãos do próprio Carlos, e juntos, operaram pela saída do então ministro da Secretaria de Governo, general Alberto Santos Cruz, de quem ambos discordavam. Foi o general Luiz Eduardo Ramos quem entrou no lugar, e logo tratou de se aproximar do secretário. 

Limado Santos Cruz, Carlos sugeriu, e teve a ideia comprada por Wajngarten, que o pai começasse a falar diariamente na porta do Palácio da Alvorada: uma forma de pautar a imprensa e se aproximar mais dos apoiadores. 

Acontece que as declarações polêmicas de Bolsonaro muitas vezes não repercutem bem e Carlos teria começado a ficar incomodado com a sequência de manchetes negativas, culpando o secretário, segundo o HuffPost apurou.

De acordo uma fonte do Planalto, Carlos não entende que o problema não é Bolsonaro falar na porta do Alvorada, “mas o que ele diz”.

Começou, então, a guerra aberta de Carlos com a Secom (Secretaria de Comunicação). Vieram, inclusive, sequências de posts com críticas à comunicação palaciana. 

Carlos chegou a dizer que a comunicação do governo “sempre foi uma bela de uma porcaria”, em um claro sinal de distanciamento de Wajngarten. 

Há quem fale que o 02 já pensa em substitutos para a Secom. No fim de 2019, chegou a correr o nome do blogueiro Allan dos Santos como uma possibilidade. Interlocutores do Planalto não acreditam nesta possibilidade e, tampouco, que o filho queira assumir a vaga. 

Riscos de Carlos sob os holofotes

Um congressista com trânsito no clã que preferiu não se identificar avaliou ao HuffPost que, com o momento complicado que a família vive em questões que chamou de “policiais”, não caberia colocar um filho “sob os holofotes”. “Vale lembrar que, volta e meia, o presidente sobe o tom e acusa o [Wilson] Witzel [governador do Rio de Janeiro] de perseguição contra seus filhos”, diz. 

Ele se refere a duas situações. Uma é a investigação do Ministério Público do Rio contra o 01, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), acusado de lavagem de dinheiro. Segundo os promotores, ele é suspeito de lavar R$ 2,3 milhões num esquema de “rachadinha”, quando se coage funcionários a devolver parte dos salários. O caso teria ocorrido quando ele ainda era deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), de fevereiro de 2003 a janeiro de 2019.  

O outro caso ao qual esse parlamentar se refere diz respeito à morte de Marielle Franco (PSOL). Em uma entrevista em 24 de dezembro, o presidente insinuou que o governador Wilson Witzel estaria plantando provas contra sua família e na casa de um de seus filhos para tentar incriminá-los pela morte da vereadora.

“A nova intenção deles, agora... querem fazer uma busca e apreensão na casa de outro filho meu, já, pelo que tudo indica, fraudando provas, plantando provas falsas dentro da casa dele. Isso tudo é o inferno que a gente vive. É um jogo de poder, é um jogo de poder sujo isso aí”, afirmou Bolsonaro, ao falar com José Luiz Datena, em seu programa na Band.