OPINIÃO
24/04/2019 21:02 -03 | Atualizado 24/04/2019 21:05 -03

Mas, afinal, o que Carlos e os Bolsonaro pretendem mesmo com os ataques a Mourão?

Vice-presidente não pode ser demitido como Bebianno, outro desafeto de Carlos, e confronto público contribui para instabilidade do governo.

SERGIO LIMA via Getty Images
Carlos Bolsonaro tem atacado o vice-presidente sem qualquer repreensão pública do pai.

Uma pergunta que não quer calar em meio a todos os ataques furiosos de Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador pelo Rio de Janeiro, ao vice-presidente, Hamilton Mourão, é o que o “02” pretende com a estratégia de guerrilha via rede social.

Isso porque, mesmo que Carlos queira muito, a artilharia pesada no Twitter não terá o mesmo desfecho do embate público com seu outro desafeto, Gustavo Bebianno. Por motivo semelhante - “defender” o pai de quem estivesse o ameaçando de alguma forma -, Carlos partiu para cima de Bebianno, que acabou sendo o primeiro ministro de Bolsonaro a cair.

Mourão, no entanto, não pode ser demitido como Bebianno. Foi eleito na chapa de Bolsonaro e só sairia com um processo de impeachment. (O deputado Marco Feliciano, Pode-SP, vice-líder do governo no Congresso, até já apresentou formalmente um pedido de impeachment do vice-presidente, mas não parece que a proposta tenha muito apelo.)

É preciso destacar ainda, antes de tentar entender a estratégia, a liberdade com que Carlos tem atuado até agora, o que deixa no ar a hipótese de que o filho tem o aval do pai para os ataques, numa estratégia de “good cop/ bad cop” familiar.

Sem uma repreensão pública - modus operandi da família Bolsonaro - do pai presidente, Carlos seguiu nesta quarta-feira na artilharia contra o outro “número 2”, esse da República.

Em nota, na última terça (23), Jair Bolsonaro pareceu mais passar a mão na cabeça do filho do que realmente tentar botar um “ponto final” na pendenga. Lembrou que Carlos é “sangue do seu sangue” e que “sempre estará ao seu lado”, “contra tudo e contra todos”. No dia seguinte, o irmão mais novo Eduardo também apoiou Carlos, dizendo que o que “tem causado bastante ruído são as sucessivas declarações do vice-presidente de maneira contrária ao presidente”. 

Isso posto, a resposta mais plausível é que Carlos - mas não só ele na família - esteja tentando enquadrar Mourão pelo constrangimento público. Nesta quarta-feira, a hashtag #CalaBocaMourão estava entre os 10 assuntos mais comentados no Twitter.

O vice, por sua vez, disse a jornalistas que o assunto Carlos era “página virada”, e repetiu que, quando um não quer, dois não brigam.

Talvez a formação de uma massa contrária ao general nas redes surta efeito e Mourão comece a falar menos. 

O tiro, no entanto, pode sair pela culatra. O vice pode não retroceder. Pode, ao contrário, se soltar ainda mais - uma vez que já demonstrou não ter papas na língua.

Pior: é muito provável que um longo confronto virtual agrave ainda mais o clima de instabilidade do governo num momento em que Bolsonaro precisa ganhar apoio no Congresso para passar a reforma da Previdência.

O mercado também não parece gostar muito das investidas de Carlos contra membros do governo. No episódio Bebianno, em fevereiro, a bolsa caiu e o dólar subiu

Nesta quarta, o dólar comercial fechou em alta de 1,63%, cotado a R$ 3,986 - o maior valor em quase sete meses. Já o Ibovespa fechou o dia em queda de 0,92%, após três altas seguidas.

A justificativa apontada por especialistas foi a incerteza em relação às próximas etapas da reforma da Previdência na Câmara. Num cenário desses, contudo, os ataques de Carlos contribuem ainda menos com o governo do pai.