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23/04/2019 20:19 -03 | Atualizado 23/04/2019 20:54 -03

Carlos Bolsonaro parte para o ataque direto ao vice-presidente Mourão

Nos últimos 2 dias, foram 5 tuítes com ataques ao general, sem qualquer repreensão de Bolsonaro.

SERGIO LIMA via Getty Images
O filho do presidente, Carlos Bolsonaro, que já ajudou a derrubar um ministro, agora parte para cima do vice-presidente.

Se ainda tinha algum freio, o vereador pelo Rio de Janeiro e filho do presidente Carlos Bolsonaro parece ter perdido todo o controle nesta terça-feira (23). 

Ele deixou para trás qualquer eufemismo e as indiretas para atacar de forma dura o vice do pai, o general Hamilton Mourão, nas redes sociais.

Em seu tuíte mais recente, nesta noite, Carlos se referiu ao vice-presidente como “o tal de Mourão” e “queridinho da imprensa” e destacou uma fala do general de 11 de setembro, em que ele disse para “acabar com a vitimização” em torno do atentado a Jair Bolsonaro, ocorrido 5 dias antes. 

“Naquele fatídico dia em que meu pai foi esfaqueado por ex-integrante do PSOL e o tal de Mourão em uma de suas falas disse que aquilo tudo era vitimização. Enquanto um homem lutava pela vida e tentava impedir que o Brasil caísse nas garras do PT, queridinhos da imprensa opinavam”, escreveu Carlos.

Mais cedo, o filho do presidente postou um vídeo em que Mourão diz que “ainda bem” que a oposição ao ditador venezuelano Nicolás Maduro está desarmada, porque senão o País vizinho entraria numa guerra civil. 

No post, Carlos comenta: “Quando a única coisa que lhe resta é o último suspiro de vida, surgem estas pérolas que mostram muito mais do que palavras ao vento, mas algo que já acontece há muito. O quanto querer ser livre e independente parece ser a maior crueldade para alguns.”

Horas mais cedo ele reproduziu o texto de apresentação de um evento com Mourão no think tank Wilson Center em Washington, no último dia 9, em que o general é apresentado como “uma voz da razão e moderação” em um governo que enfrenta “paralisia política em parte causada por sucessivas crises geradas pelo círculo próximo ao presidente, se não por ele mesmo”. 

“Se não visse não acreditaria que aceitou com tais termos (que pode ser conferido no próprio site da empresa) / já que desta vez não se trata de curtida vamos ver como alguns irão reclamar”, escreveu Carlos. 

Ao falar de “curtida”, o filho do presidente se referia a um post anterior, no qual mostrou que o perfil do vice curtiu um tuíte da jornalista Raquel Sheherazade na qual ela reproduz um vídeo de Mourão em Harvard dizendo: “finalmente um representante do governo que não nos causa vergonha alheia”. Ela também fala que Mourão é “vinho” e o presidente, “vinagre” - antes de parabenizar Mourão pela “lucidez”.

“Tirem suas conclusões”, provocou Carlos.

Não é de hoje que Carlos sugere que Mourão quer a cadeira de seu pai, mas ele geralmente fazia essa movimentação de forma indireta nas redes sociais. As críticas aos militares também eram um pouco mais sutis, como no post que fez durante o fim de semana, de um vídeo de Olavo de Carvalho criticando os militares.

Olavo tem sido um frequente crítico de Mourão, a quem já chamou de “idiota” e disse ter “mentalidade golpista”. Depois que o vice-presidente respondeu às críticas do guru do bolsonarismo dizendo que “Olavo deve se limitar à função que desempenha bem, de astrólogo”, Carlos saiu mais uma vez em defesa do seu mestre.

“Olavo é uma gigantesca referência do que vem acontecendo há tempos no Brasil. Desprezar isto só têm três motivos: total desconhecimento, se lixando para os reais problemas do Brasil ou acha que o mundo gira em torno de seu umbigo por motivos que prefiro que reflitam”, escreveu Carlos no Twitter na noite de segunda-feira (22).

Mourão não é o primeiro desafeto público de Carlos no primeiro escalão do governo do pai. Gustavo Bebianno perdeu o posto de ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República após se desentender com o filho de Bolsonaro.

Carlos acusou Bebianno de mentir ao dizer que falou com Bolsonaro enquanto ele estava internado no hospital sobre o escândalo envolvendo o PSL. Carlos chegou a divulgar um áudio privado que seu pai gravou e enviou por WhatsApp para Bebianno, dizendo que não falaria com o ministro.

 

Silêncio de Bolsonaro endossa ações do filho ‘pitbull’

O que mais causa espanto entre integrantes do governo é a liberdade com que Carlos, conhecido como o “pitbull” da família, atua, mesmo criando um clima de instabilidade.

Na época do imbróglio com Bebianno, a postura de Carlos foi endossada pelo próprio presidente, que retuitou em seu perfil oficial as acusações do filho - e o áudio - , e, em entrevista à Record, no mesmo dia, disse que se fosse comprovada irregularidade no PSL durante a campanha, o ministro deveria “voltar às origens”.

No caso de Mourão, Bolsonaro aparentemente não tem tentado contê-lo. 

O vídeo de Olavo criticando os militares chegou a ser postado também no perfil oficial do presidente - e foi apagado horas depois. Não é claro quanto acesso Carlos ainda tem ao perfil do Twitter do pai - que era comandado por ele durante a campanha eleitoral.  

Na segunda-feira, por meio de uma nota lida pelo seu porta-voz, Bolsonaro se limitou a dizer que as recentes declarações de Olavo “contra integrantes dos poderes da República não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos em nosso projeto de governo”.

Se bate no guru, Bolsonaro também assopra depois: diz, na nota, ter “convicção de que o professor, com seu espírito patriótico, está tentando contribuir com a mudança e com o futuro do Brasil”.

Na noite desta terça, também por meio do porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, Bolsonaro mencionou pela primeira vez o filho desde o início do embate, mas numa fala em sua defesa: “De uma vez por todas o presidente gostaria de deixar claro o seguinte: quanto a seus filhos, em particular o Carlos, o presidente enfatiza que ele sempre estará a seu lado. O filho foi um dos grandes responsáveis pela vitória nas urnas, contra tudo e contra todos”.

E completou: “declarações individuais publicadas nas mais diversas mídias são de exclusiva responsabilidade daqueles que as emitem”. 

Sobre Mourão, Bolsonaro disse ter “apreço”pelo vice. ”É o subcomandante do governo, topou o desafio das eleições e terá a consideração e o apreço do presidente.”

Também no início da noite, Mourão disse a jornalistas que “quando um não quer, dois não brigam”.

“Eu sei de todas as angústias, as perguntas que vocês querem fazer, mas é o seguinte: calma, todo mundo emite sua opinião, tal e coisa, né? A minha mãe sempre dizia uma coisa: quando um não quer, dois não brigam, tá certo? Então é essa a minha linha de ação, vamos manter a calma”, afirmou o vice-presidente, segundo o jornal O Globo.