POLÍTICA
02/07/2019 13:05 -03

Como Carlos Bolsonaro opera o trator olavista que elimina militares do governo

Filho do presidente já tirou dois militares de seu caminho e, agora, tem o general Augusto Heleno como alvo.

SERGIO LIMA via Getty Images
Carlos Bolsonaro:  “Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI?”.

Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro ficou evidente uma corda de forças dentro do Palácio do Planalto. De um lado a ala militar e de outro, os olavistas, puxados pelo filho do presidente Carlos Bolsonaro, vereador do PSC no Rio de Janeiro. Na interpretação do guru ideológico Olavo de Carvalho, os militares são alinhados à esquerda.

“As Forças Armadas jamais libertaram o país do comunismo. Libertaram-no, isto sim, das lideranças civis que o haviam libertado do comunismo”, afirma Olavo, em um de seus posts no Twitter.

Além de levarem a ideologia para dentro do governo, na visão de olavistas, os militares também atrapalham a organização institucional. Há um aborrecimento com o fato de os militares terem adotado uma conduta moderada no núcleo duro do Planalto.

Mesmo com a demissão do general Santos Cruz da Secretaria de Governo, a fratura do incomodo com os militares segue exposta. Desta vez, o alvo é o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

Tido como um dos principais nomes de confiança de Bolsonaro, o general teve sua postura colocada em xeque pelo filho do presidente. Em resposta a um comentário de um site que alega que a culpa por um militar ter sido flagrado com 39 quilos de cocaína em um voo da FAB é do general, Carlos dispara:  “Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI?”.

E segue: “Sua grande maioria podem ser até homens bem intencionados e acredito que seja, mas estão subordinados a algo que não acredito. Tenho gritado em vão há meses internamente e infelizmente sou ignorado”.

Na outra ponta, sem tecer comentários mais efusivos como costuma fazer, Olavo de Carvalho publicou no Twitter um vídeo em que o general e o outro filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), aparecem juntos na manifestação pró-governo do último domingo.

“Ver o general Heleno no palanque, ao lado do Eduardo Bolsonaro, defendendo com bravura o nosso presidente, foi um grande momento para todos os brasileiros”, diz o ideólogo.

Embora critique os militares e os chame de “cagões”, no Twitter, não há publicação em que Olavo ataque diretamente o general Augusto Heleno. 

Antes de ter como alvo o ministro do GSI, o trator de Carlos passou por cima de Santos Cruz e do Floriano Peixoto, que era responsável pela Secretaria de Comunicação, também ficava dentro do Palácio do Planalto e foi rebaixado para os Correios. Ambos foram acusados de interferir no jeito do presidente governar.

Peixoto, assim como Santos Cruz, teria tentado colocar feio em atitudes do presidente, especialmente na comunicação — menina dos olhos de Carlos.

Método de fritura

A rixa com a ala militar se acirrou profundamente com os ataques a Santos Cruz. Ele foi alvo de inúmeras críticas públicas de Olavo de Carvalho. Em meio à fritação online, seguidores de Olavo pediam que fosse nomeado para Secretaria de Governo, no lugar do então ministro, Carlos Bolsonaro.

A perseguição fez com que o braço direito do general Augusto Heleno, o ex-comandante do Exército general Villas Boas, se manifestasse. No Twitter, o general chamou o “guru” de “verdadeiro Trotsky de direita” e disse que, no momento em que o país busca coesão, Olavo age no sentido de acentuar as divergências.

“Mais uma vez o senhor Olavo de Carvalho, a partir de seu vazio existencial, derrama seus ataques aos militares e às Forças Armadas demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia”, disse.

Em maio, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) que também já foi a vítima da vez, contou ao HuffPost como funciona o método de fritura orquestrado pela família Bolsonaro e por Olavo.

“A gente já conhece a forma de agir dele. Quando o professor Olavo pega uma coisa para fazer, ele vai até o fim e fica exaurindo o assunto. A gente tem seguidores do Olavo que acreditam piamente em tudo que ele fala e no que ele faz. Existe um problema porque, quando ele fala alguma coisa de alguém, a pessoa é atacada até o último momento enquanto eles [Olavo e seus seguidores] não esquecem do assunto.”

Na época, ela condenou a tática: ”é deselegante” e contraproducente atacar “personalidades do governo”.