Carentena: Como sobreviver e sair bem desta quarentena da covid-19

Adaptar-se a este novo mundo não é fácil, mas relações novas e antigas podem ficar mais fortes que imaginamos.

De acordo com o dicionário, carência é ausência ou privação do que é necessário ou uma necessidade afetiva. Quarentena é o que estamos vivendo agora: um período de isolamento social imposto a bilhões de pessoas no planeta Terra em decorrência do novo coronavírus. Carentena é uma mistura das duas coisas.

Se os sintomas mais comuns da covid-19 são tosse, febre, dificuldade para respirar e falta de ar, os da carentena são um pouco diferentes. A pessoa acometida por essa necessidade aumenta a biscoitagem nas redes sociais... Pode vir com uma simples atualização de foto ou a postagem de uma frase com exposição excessiva de sentimentos como “estou tão tisti, alguém poderia me fazer sorrir hoje”.

Há relatos de pessoas que começaram a enviar mais nudes para os crushes. Há casos de pessoas que baixaram novos aplicativos de paquera pra conhecer gente diferente. Os casos mais graves apresentam ligações e mensagens de WhatsApp para o ex.

Se você apresenta um desses sintomas, mantenha a tranquilidade, aproveite e saiba que você não está só neste momento.

É o que diz a psicóloga Denise Rodrigues Gomes em entrevista ao HuffPost: “Talvez as pessoas se apeguem a essa questão [crushes] por ser um objetivo além dessa realidade tão dura. Às vezes eu consigo encontrar alguém para trocar informação, para trocar sonhos, desejos e experiências”.

Mas tudo isso tem de acontecer de um jeito novo, jamais imaginado, como pontua Denise:

“É uma grande mudança que está acontecendo na vida de todo mundo, então todo mundo tem que se reinventar, principalmente com as relações porque a forma da gente se relacionar está mudando.”

Vamos ser sinceros; adaptar-se a essas mudanças não é nada fácil

“Eu tinha uma vida agitada, agora tá foda”, desabafa Lucas Leal, de 27 anos, estudante de Belo Horizonte. “Estou solteiro, então saía, conhecia gente nova. Na faculdade e até na academia, eu não era muito quieto. Agora minha vida social tá parada.”

Ele conta que está mantendo as conversas com os contatinhos frequentemente, mas que falta alguma coisa: “Acho que todo mundo tá meio sem o que fazer e fica flertando na internet. Mas não é a mesma coisa, preciso do contato físico”.

Sim, não é a mesma coisa, mas é muito importante lembrar que não se deve romper a quarentena para ‘curar’ a carência. E as oportunidades não faltam, revela o estudante Gustavo Madureira, de 22 anos, de Sorocaba (SP). “Ontem uma menina queria ir ao mercado se trancar no banheiro comigo. Juro. Misericórdia. Eu parei de responder pois deve ter sido trolagem, não é possível.”

Quando perguntei como vai a carentena, ele disse: “estou solteiro, infelizmente, e carente demais. A carentena está literalmente me deixando mais carente do que eu já sou”.

Gustavo também tem usado aplicativos para conversar com gente nova e até trocar nudes com quem pede, mas acha esse processo uma coisa sem graça. Mas ele vai contra as estatísticas dos principais aplicativos de relacionamentos disponíveis no mercado.

Para surpresa de ninguém, as pessoas estão usando mais o Happn e o Tinder nesta carentena

De acordo com o happn, aumentou em 18% o número de mensagens enviadas na plataforma desde o começo do isolamento social nas principais cidades do Brasil. Em uma enquete feita entre seus usuários, 35% disseram que preferem encontros presenciais, mas 56% acreditam que a situação permitiu ter mais tempo para conversar com os crushes e assim conhecê-los melhor.

O happn funciona por geolocalização, assim os possíveis contatinhos aparecem apenas entre pessoas com quem você cruzou na rua ou em locais públicos. Como as pessoas não estão saindo de casa, o aplicativo está dando uma forcinha para que os matches continuem e o raio de encontros subiu de 250 metros para 90 quilômetros. Além de tudo, as pessoas conseguem aumentar seus horizontes.

No Tinder o número de mensagens enviadas saltou 25%. Já o tempo das conversas no app está 20% maior do que antes do início do isolamento social. Além disso, a plataforma liberou a função Passaporte, pela qual os usuários podem conversar com pessoas de qualquer país. Antes da quarentena, esse recurso era pago.

Para se ter uma ideia, em um único dia de abril foram registrados 3 bilhões de matches, recorde mundial do Tinder desde o surgimento do aplicativo em 2012. Dados fornecidos pela plataforma ao HuffPost mostram que a maioria das ‘visitas’ dos usuários acontece em Los Angeles, Nova York e Londres. A cidade mais visitada pelos brasileiros é São Paulo, enquanto quem é de São Paulo tem ido buscar novos matches em Nova York.

Tudo isso pode amenizar, e muito, a carentena de quem está em casa sem ninguém e morrendo de vontade de garantir um bom contato físico no futuro. Mas será que isso vai dar certo? Será que a chance de se frustrar não é grande? Se você também está com essas dúvidas, deve prestar muita atenção no que vem a seguir.

“É importante a gente viver o agora, não ficar pensando lá na frente. A gente não sabe o que vai acontecer ou o que pode acontecer em qualquer relacionamento. Curta, aproveite, vivencie esse agora porque depois a gente não sabe.”

- psicóloga Denise Rodrigues Gomes

E, apesar de tudo, podemos sair muito menos carentes depois da quarentena

Quando a palavra carentena deixar de fazer parte de nosso dia a dia, talvez a palavra carente também saia um pouco do seu vocabulário. Isso porque as relações que estamos construindo agora podem ficar mais fortes do que imaginamos. “Eu acredito que isso vai continuar talvez até de uma forma mais firme. Eu vejo que a tendência é de verdade das pessoas fortalecerem as suas relações”, acredita Denise.

E relações que estão começando agora e talvez demorassem pra ficar mais profundas podem se fortalecer com mais rapidez. É o caso do analista de qualidade Wesley Souza, de 28 anos, que começou um namoro há um mês e acredita que a relação está mais firme neste momento.

“Antes eu conversava de manhã e um pouco antes de dormir, marcava em um meme ou num tweet. Agora a saudade tem pegado mais e estamos mais próximos nesse sentido de conversar. Mando vários áudios. A gente se fala o dia todo por WhatsApp, mando vários áudios, essas ferramentas têm ajudado bastante”, descreve.

Pra complicar um pouco essa história, estamos falando de um namoro à distância. Wesley mora em Campinas, no interior de São Paulo, e o namorado vive na capital. “Nem todos os dias são bons, tenho que admitir; tem dia que a saudade bate mais. Antes da quarentena a gente se via muito. Umas quatro vezes na semana todas as semanas, mas tivemos que parar.”

Mas ele vê tudo isso com um olhar muito positivo e acredita que “se duas pessoas se gostam de verdade, não vai ser um período de isolamento que vai destruir tudo”.

Como puxar assunto com o crush nesta carentena?

Se você chegou até aqui e está achando muito legal tudo isso, mas não consegue se dar bem na arte de puxar papo com os contatinhos, calma que este momento é seu! Perguntamos para os entrevistados desta matéria que tipo de assuntos eles estão tendo nas conversas por aplicativos e redes sociais.

O Wesley deu uma dica que serve tanto para quem está em um começo de relacionamento como para quem está engatando um novo papo: “não espere pelo pior, seja sincero, converse bastante”.

O Lucas diz que conversa sobre tudo um pouco com seus vários contatinhos: “tem uns que o assunto é mais putaria, mas tem outros que é música pop, trabalho ou jogos”. Ele lembra de dois cuidados muito importantes: “tem que tomar cuidado pra não iludir muitos contatinhos e não furar o distanciamento. Se a gente se cuidar, a quarentena vai durar menos e a vida vai voltar ao normal mais rápido.”

A psicóloga Denise recomenda que as pessoas falem sobre si mesmas: ”é muito importante falar sobre todo tipo de assunto, e principalmente falar sobre si mesmo. Fale sobre o que gosta, o que não gosta, se gosta de ir ao cinema, jogar boliche, correr, andar de bicicleta, o que fazia antes da quarentena começar. Mas pode-se falar de livros, filmes, séries. Por exemplo, você pode combinar de assistir a uma série para discutir um episódio específico”.

Ela lembra que é importante respeitar o seu tempo e o tempo do outro: “Agora não dá para ficar o dia todo nisso, as pessoas precisam aprender que tem que ter o tempo de trabalho, de lazer pessoal só dela, o tempo dela com o parceiro, com os amigos e o tempo de falar com a família”. E é preciso sempre lembrar que talvez demore um pouco para os crushes se conhecerem pessoalmente; afinal, ninguém sabe até quando efetivamente a quarentena vai durar.

Como está sendo a sua carentena? Conte pra gente!

O HuffPost quer saber como está sendo a sua carentena nestes tempos de isolamento social. Responda abaixo ou se preferir pegue o link clicando aqui.

Queremos saber como você está cuidando das suas amizades e como está administrando seus contatinhos neste momento em que eles estão tão próximos do celular e fisicamente tão longe.

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