OPINIÃO
17/10/2020 02:00 -03 | Atualizado 17/10/2020 02:00 -03

'Você trabalha? Nossa, parabéns!': As frases capacitistas que estamos cansadas de ouvir

Estas mulheres relatam comentários que reafirmam o preconceito contra pessoas com deficiência.

Montagem/Arquivo Pessoal
Beatriz Bebiano, Helô Rocha e Manu Aguiar relatam situações capacitistas comuns em seu dia a dia como PCDs.

O preconceito contra pessoas com deficiência vai muito além do olhar e da exclusão desse grupo na sociedade. Denominado capacitismo, ele se faz presente no dia a dia das PCDs por meio de palavras, expressões, perguntas e comentários carregados de discriminação. No entanto, essas frases aceitas pelo senso comum prejudicam a inclusão e a saúde mental de milhares de homens e mulheres. 

A convite da AACD, instituição que atua na reabilitação de crianças e adultos com deficiência física ou necessidades ortopédicas, Beatriz Bebiano, Helô Rocha e Manu Aguiar listaram as situações e comentários mais comuns que ocorrem com frequência em suas vidas enquanto mulheres com deficiência.

Heloísa Rocha - jornalista e criadora do Moda em Rodas

“Como você gostaria de ser chamada?”

Pessoas com deficiência não querem ser chamadas ou identificadas unicamente por suas deficiências, mas sim, por nossos nomes e nossas áreas de atuação. Não é porque temos uma deficiência que devemos ser classificadas como um único grupo. Afinal, somos pessoas com gostos, habilidades, vivências e características únicas.

“Queria ter a força e coragem que você tem. Você me inspira!”

Ter uma deficiência não é uma inspiração para nada e ninguém! Exaltar que uma pessoa com deficiência faz uma atividade comum ou natural só ressalta ainda mais a deficiência da pessoa e dificulta que a sociedade encare com naturalidade uma PCD.

“Você transa?”

Pessoas com deficiência sentem desejo e atração como qualquer outra pessoa, inclusive são completamente capazes de gerarem outra vida e/ou são completamente livres para escolherem sua orientação sexual. Ter uma deficiência não influencia em nada em nossa libido e nem nos impede de ter uma vida sexual (bem) ativa! 

“Deus me livre ficar preso(a) em uma cadeira de rodas!”

A frase só reforça a ideia de que a cadeira de rodas é um instrumento ligado à dor, ao sofrimento e à dependência. Na realidade, a tecnologia assistiva não deixa ninguém preso, mas sim livre para poder circular onde quiser. Se encararmos o equipamento como uma ferramenta de auxílio a quem não pode andar da mesma forma que encaramos o óculos de grau como um objeto de correção da vista, as pessoas, talvez, passassem a encarar a deficiência com naturalidade e não enxergariam só a cadeira quando vissem uma pessoa com deficiência física. 

Beatriz Bebiano - tradutora e criadora de conteúdo

“Ai coitada, é tão linda!” 

Este comentário torna-se capacitista porque é como se ter deficiência automaticamente anulasse a presença da beleza e todo PCD tivesse que ser feio. 

“Você trabalha? Nossa, parabéns!” 

PCD trabalha e faz absolutamente todas as coisas como qualquer outra pessoa, só que de uma forma diferente, e tudo bem! Se for desse jeito, uma pessoa míope que usa óculos merece os parabéns depois de ler um livro. 

“Seu namorado é um anjo por estar com alguém como você” 

Meu namorado é sim uma pessoa incrível, mas não por namorar comigo, mulher com deficiência. Nosso relacionamento é normal, orgânico, como qualquer outro. Tem amor, carinho, companheirismo, prazer e todas as outras coisas que qualquer relacionamento entre duas pessoas sem deficiência tem.

Manu Aguiar - gestora de RH e palestrante

“Mãe, por que ela anda e fala desse jeito?”

É importante que as crianças aprendam que cada indivíduo tem uma maneira de existir no mundo. A não convivência de crianças sem deficiência com crianças com deficiência gera adultos com atitudes capacitistas. É dever do adulto ensinar as crianças que pessoas com deficiência são, antes de tudo, pessoas.

“Teu chefe teve uma sacada muito boa em te colocar como atendente de loja, assim ficamos com pena de você e acabamos por comprar”

Não somos postos em trabalho para gerar pena e o cliente consumir o produto. Frases como essas são totalmente capacitistas, pois não levam em consideração a formação e conhecimento da pessoa com deficiência para atuar nos postos de trabalhos.

“Se você e seu namorado casarem, você será curada”

É importante sempre lembrar que a deficiência é uma condição e não uma doença. Esse comentário joga a culpa da deficiência na pessoa com deficiência, quando na verdade é a sociedade que não está preparada para receber toda a diversidade humana com acessibilidade arquitetônica, comunicacional e de atitude.

AACD: 70 anos de história e apoio a PCDs

Referência no Brasil em ortopedia e reabilitação de pessoas com deficiência física e necessidades ortopédicas, a AACD completou 70 anos de existência em meio a um cenário de perdas. O número de doadores caiu significativamente e os planejamentos para captação de recursos foram por água abaixo. Dessa forma, o valor necessário de arrecadação subiu de R$ 80 milhões para R$ 130 milhões até dezembro deste ano.

Para atender essa demanda e ajudar a garantir a estabilidade financeira da instituição ainda em 2020, a agência AVELLAR se uniu à AACD nas áreas de comunicação e captação de doações. Clique aqui e veja como ajudar os mais de 800 mil atendimentos realizados todos os anos pela organização.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa necessariamente ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.

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