Capacitismo: Por que é importante combater o preconceito com PCDs

No mês que marca a luta das pessoas com deficiência, conheça a história de 3 criadores de conteúdo e entenda os motivos pelos quais toda a sociedade deve se unir contra esse tipo de discriminação.

Muito se fala sobre o combate ao machismo, racismo e LGBTfobia, lutas que têm extrema relevância e urgência no contexto atual. No entanto, um assunto especificamente ainda tem pouca visibilidade e debate acerca de sua problemática: a luta contra o capacitismo, que é o preconceito e a opressão contra pessoas com deficiência (PCDs) — representadas por 24% da população brasileira (45,6 milhões).

O termo inclui toda a discriminação estrutural a qual esse grupo é vítima, desde a acessibilidade, passando pela inclusão e a forma como a sociedade o trata.

Enquanto essas pessoas continuarem invisibilizadas e tratadas como exemplo de superação, o preconceito estrutural persistirá, por exemplo, no uso de palavras e expressões preconceituosas, como “João sem braço”, “retardado” e “aleijado”. Foi pensando nisso que a AACD, instituição que há 70 anos trabalha com ortopedia e reabilitação de crianças e adultos com deficiência ou necessidades ortopédicas, abraçou a causa do combate ao capacitismo e tem trazido para sua comunicação esse assunto como base dos conteúdos.

Em referência ao Setembro Verde, marcado pelo Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, que foi celebrado nesta segunda-feira (21), a AACD conversou com 3 parceiras PCDs para conhecer suas histórias de vida e explicar a importância de combater o capacitismo. Leia os depoimentos:

Os criadores de conteúdo Lele, Dudu e Marina falam sobre o combate ao capacitismo
Os criadores de conteúdo Lele, Dudu e Marina falam sobre o combate ao capacitismo

Alessandra Martins, a Lele (@blogueirapcd), 24 anos, estudante de ciências sociais e criadora de conteúdo


“Todos os preconceitos fazem parte de uma estrutura. Isso significa que pessoas se beneficiam com a continuação desse sistema. Pessoas com deficiência sempre foram escondidas dentro de casa e/ou mortas, ou seja, apenas familiares e vizinhos precisavam lidar com o incômodo de ver ou viver com PCDs. E vai lá saber em que condições realmente – infelizmente, relações abusivas e maus-tratos são coisas vivenciadas por pessoas que necessitam de algum tipo de auxílio diário.


Isso dá uma ideia inicial do motivo pelo qual o debate sobre os nossos corpos é ignorado, porque somos ignorados enquanto seres humanos. Quando as pessoas nos conhecem, só servimos para ser colocados como coitados ou exemplo de superação. Ou seja, se nem existimos efetivamente em sociedade, como o nosso debate vai ter algum tipo de visibilidade? Mas tem muita gente lutando para iniciar a mudança das estruturas. Eu, por exemplo, não tive uma escolha em lutar pela causa, uma vez que sou e faço parte dela. Como não iria falar sobre mim? Sobre os desafios, contradições e problemáticas de ser uma preta, mulher, favelada e com deficiência.

Como mulher negra e PCD, a estudante Lele passou a produzir conteúdo para falar sobre sua existência
Como mulher negra e PCD, a estudante Lele passou a produzir conteúdo para falar sobre sua existência

Minha principal motivação, com certeza, foi perceber a quase inexistência de pessoas negras com deficiência no debate. Como podemos falar do capacitismo e ignorar a questão racial, sendo que a maioria das pessoas desse grupo são mulheres negras? Não há como! Então, entrei na pauta para falar sobre minha existência e por muitas outras iguais a mim, assim como também tentar fazer o movimento entender que ser anticapacitista não torna ninguém antirracista.


Existem outras realidades no mundo que vão além da sua. Sou uma mulher cis, logo sinto que tenho que aprender sobre outros grupos, como por exemplo, mulheres trans e pessoas não binárias. A sociedade é formada por muitos indivíduos diferentes entre sim, e, quanto mais eu souber, mais eu compreendo e respeito as pessoas. Aprender sobre outras vivências é respeitar a pluralidade da existência humana.

E essa tarefa tem que existir ao falarmos sobre pessoas com deficiência. Um primeiro passo para quem quer aderir ao combate do capacitismo é evitar o olhar de estranhamento descarado contra nós. Também não ignorem a dor da pessoa com deficiência, caso tenha contato com alguma. Viver em uma sociedade capacitista é muito doloroso, e um dos motivos de ser é que não respeitam quando falamos sobre algo e rejeitam nossa dor, pois não querem lidar com o fato de serem parte desse sistema e se privilegiarem dele.


Além disso, ler sobre o tema é essencial. Se tiver dúvida sobre algo, não pergunte para a pessoa que não tem intimidade, mas que tal dar um Google? Isso vai evitar muitos comentários ofensivos. Abordar pessoas com deficiência que você não conhece para saber sobre algo de suas vidas as desumaniza, pois faz parte de uma crença de que são corpos públicos, logo que podem ser tocados sem consentimento ou perguntados sobre algo íntimo e que pode ser doloroso.”

Eduardo Victor, o Dudu (@oeduardovictor), 20 anos, criador de conteúdo

“Nos meus conteúdos, falo sobre o processo que é ser uma pessoa com deficiência e LGBT no mundo e isso engloba desde o capacitismo até meus gostos musicais. Eu sempre digo que o poder da fala me salvou. Ser uma pessoa com deficiência que consegue falar da maneira que esperam e consideram o ‘normal’ — como se existisse um normal na fala — foi o que me salvou de vários processos de exclusão que PCDs passam ao longo da vida. E é justamente por isso que, ao mesmo tempo, o capacitismo não é tão abordado. Ecoar nossas vozes é um processo revolucionário! Potencializar nossas vozes é nos lembrar o que fazem questão de tentar fazer com que a gente esqueça: que nós somos capazes.

Dudu busca ecoar as vozes das PCDs, pois é um processo revolucionário
Dudu busca ecoar as vozes das PCDs, pois é um processo revolucionário

E é por isso que eu comecei a falar sobre capacitismo na internet. Eu não via pessoas como eu! Quem vê por aí uma bicha, do subúrbio carioca, com paralisia cerebral? Eu nunca tive referência. Vivi minha infância e adolescência em um não-lugar. Por ter uma deficiência menos visível, mas ainda assim perceptível, por anos eu acreditei que ‘eu não era tanto uma pessoa com deficiência’. E isso é mentira, porque não existe um jeito de ser uma pessoa com deficiência. Nós somos plurais. Está tudo bem ser quem a gente é. Não tem nada de errado! É por isso que eu me posiciono sobre isso nas redes.

A era digital faz todos nós querermos entrar em um grupinho, mas ser anticapacitista não deve ser só um título. Não adianta nada sair gritando por aí dizendo que é anticapacitista pra ganhar um selo de aprovação. É importante que falemos de lugar de fala, mas sobretudo, do lugar da escuta. Ouça pessoas com deficiência, consuma de pessoas com deficiência: do conteúdo digital até o livrinho infantil que você compra para o seu filho! Naturalizem nossas narrativas e nossa existência, normalize o fato de que vamos mais que sobreviver: vamos viver e bem! Essa é a meta. Nós somos cerca de 1/4 da população e não tem nada de errado com a gente. Essa é a importância de pessoas sem deficiência aliadas: tornar cada vez mais orgânico o processo de naturalizar nossas vidas, corpos e vivências.

Não existe muito um tutorial para ter ações anticapacitistas, mas uma dica bem genérica e que funciona é consumir conteúdo de pessoas com deficiência. Ouça o que temos a falar porque já tentaram falar pela gente tantas vezes e não deu certo. Se questione: quantas pessoas com deficiência tem a sua volta? Quantas você ama, convive? É mês do setembro verde, mas também do setembro amarelo. Não podemos falar de pessoas com deficiência sem falar de saúde mental! Há quantos anos PCDs estão de quarentena? Acessibilidade também é sobre afeto!”

Marina Batista (@rodandopelavida), 35 anos, criadora de conteúdo e designer de formação

“Sempre fui uma pessoa comunicativa e quando descobri a existência dos blogs, lá no final dos anos 90, aos 15 anos de idade, comecei a dividir minha vida e pensamentos. Na época, blogs eram comumente utilizados como uma espécie de diário pessoal e eu já achava natural e muito bacana poder falar sobre a realidade e a vida como PCD. Eu nunca vi motivos para não falar sobre minha deficiência já que ela é parte de quem eu sou. Lembro que muita gente que acessava ficava surpresa ou duvidava que eu tinha deficiência.


A deficiência sempre foi um assunto varrido pra debaixo do tapete e trazido à tona apenas quando se falava de tratamento de saúde, como se todo PCD fosse um doente e não uma pessoa, e de acessibilidade em prédios públicos, calçadas e transporte. Aquele primeiro blog não existe mais, mas, ainda hoje, 20 anos depois, esses são os temas mais comuns sobre pessoas com deficiência. Há quem se surpreenda, até hoje, com a gama de assuntos que abordo nas minhas redes e me dão parabéns pelo ato comum e ordinário de simplesmente viver da melhor maneira possível e fazendo tudo o que todos fazem. Por isso, é importante falar sobre capacitismo cada vez mais: para as pessoas deixarem algumas ideias que não correspondem à verdade, mas são senso comum há tanto tempo.

Marina usa o Twitter e o Instagram para dividir com os seguidores sobre sua vida e seus pensamentos
Marina usa o Twitter e o Instagram para dividir com os seguidores sobre sua vida e seus pensamentos

Admirar que uma pessoa com deficiência tenha uma opinião própria é uma atitude que revela o quanto ainda se acredita na sociedade que não podemos raciocinar, ter opinião ou tomar decisões por nós mesmos. Não à toa, quando quer saber o que eu penso, muita gente fala diretamente com quem me acompanha e jamais comigo. A surpresa com o fato de que eu simplesmente saiba escrever e me expresse bem demonstra como o senso comum nos tem como inaptos a qualquer atividade e completamente incapazes de fazer algo com qualidade.

Quando as pessoas me param pra dar parabéns por estar em algum lugar que julgam incomum para um PCD ou me elogiam simplesmente por ter meus hobbies e interesses estão me dando parabéns por existir e viver e não questionando a razão de não haverem mais pessoas com deficiência ocupando espaços e fazendo o que quer que seja que lhes agrade. É um comportamento que parte da ideia preconceituosa de que nosso lugar é em casa ou em alguma clínica fazendo tratamento.


Eu nunca me coloquei nessa posição de front da luta anticapacitista, mas o simples fato de ser uma pessoa que se posiciona sem medo e sempre falou com naturalidade abertamente sobre tudo, inclusive sobre minha deficiência, me fez com o tempo alcançar e ocupar esse lugar. Eu não tinha pessoas com deficiência para me espelhar e hoje, aos 35, eu fico muito feliz quando recebo mensagens de pessoas com deficiência tão novas quanto eu era quando comecei isso tudo dizendo que ajudei a entender algumas coisas ou expressei o que sentem.

Também fico muito feliz notando cada vez mais pessoas sem deficiência deixando que os nossos problemas e questões sejam abordados por nós, percebendo que somos nós a ter que falar sobre isso e se colocando como aliados. Somos muitos em números, mas nunca tivemos nossa voz ecoada ou fomos ouvidos. Aliados são importantes nesse processo de replicação da informação, de dar voz e ecoar nossas questões nos seus meios sociais. Quando a nossa existência como pessoas estiver naturalizada e for respeitada será sinal de que esse momento de transformação e abandono dos sensos comuns capacitistas terá tido sucesso.”


AACD: 70 anos de história e apoio a PCDs

Referência no Brasil em ortopedia e reabilitação de pessoas com deficiência e necessidades ortopédicas, a AACD completou 70 anos de existência em meio a um cenário de perdas. O número de doadores caiu significativamente e os planejamentos para captação de recursos foram por água abaixo. Dessa forma, o valor necessário de arrecadação subiu de R$ 80 milhões para R$ 130 milhões até dezembro deste ano.

Para atender essa demanda e ajudar a garantir a estabilidade financeira da instituição ainda em 2020, a agência AVELLAR se uniu à AACD nas áreas de comunicação e captação de doações. Clique aqui e veja como ajudar os mais de 60 mil pacientes atendidos todos os anos pela organização.

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