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12/02/2020 03:00 -03

Desgaste político é um dos entraves para evitar alagamentos em São Paulo

“Você já ouviu alguém falando que é preciso aumentar imposto para investir em ações de Defesa Civil?”, questiona urbanista.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Bombeiros registraram mais de 900 ocorrências por causa da forte chuva.

As principais medidas que poderiam conter os desastres causados pelas fortes chuvas em São Paulo são impopulares - e esse é um dos motivos pelos quais alagamentos e enchentes, cada vez mais recorrentes, são aparentemente sem solução. A avaliação é de Angelo Filardo, professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).

“Você já ouviu alguém falando que é preciso aumentar imposto para investir em ações de Defesa Civil?”, questionou, em entrevista ao HuffPost. Na avaliação dele, os gestores não querem esse desgaste na sua conta.

Para o urbanista, é fundamental que o tema se torne prioridade na agenda governamental. São necessárias ações de médio e longo prazo e também capacidade para lidar com as chuvas enquanto o problema está em fase de solução.

“É como se tivéssemos que consertar uma bicicleta com ela andando. Temos que estar preparados para essas chuvas e elas vão continuar a acontecer até que haja um sistema de detenção que funcione”, diz.

O professor destaca ainda que a execução de projetos é fundamental, mas não é a única medida a ser tomada. “Obras são essenciais e tão importantes quanto o foco nas ações populares. Respeitar alertas, receber orientações sobre as áreas de risco. Tudo isso importa tanto quanto projetos”, diz.

Entre as obras impopulares está a construção de uma espécie de “piscinão”, que funciona como um amortecimento da cheia: ele recebe a água e evita que ruas sejam alagadas. “É um depósito de água suja, obra de difícil aceitação, mas necessária. É pegar uma área não construída, onde poderia haver um parque ou outra construção para lazer da comunidade, e construir um piscinão”, diz.

Esse é um projeto que consta na agenda da prefeitura atual, mas ainda assim dos 19 projetos prometidos, há previsão de entrega de apenas 13. Gastos da prefeitura também foram abaixo do previsto com as obras anticheia. Dos R$ 3,8 bilhões destinados à área, apenas R$ 1,1 bilhão saiu do papel desde 2015, passando pelas gestões de Fernando Haddad (PT), João Doria (PSDB) e a atual de Bruno Covas (PSDB).

Ocupação desorganizada

O professor explica que parte dos problemas de São Paulo com as fortes chuvas está na maneira como a cidade foi construída, em cima de rios e em favor de uma dinâmica imobiliária. Na época em que cidade foi sendo construída, não se pensou na quantidade de pessoas que no futuro seriam abrigadas no estado nem que haveria impacto de mudanças climáticas.

O combo resultou no que foi visto na última segunda-feira (10), quando São Paulo viveu um dia de caos. O temporal da madrugada, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), foi o pior em um mês de fevereiro desde 1983. Foram registrados 132 pontos de alagamento, pouco menos da metade considerados intransitáveis. O Rio Pinheiros chegou ao maior nível registrado desde 2005. 

A cidade foi tomada por enchentes, desabamentos, quedas de árvores, que resultaram em mais de 900 ocorrências aos Bombeiros. Neste cenário, o secretário Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo, Marcos Penido, recomentou aos moradores evitar sair de casa. “Pedimos para as pessoas fiquem em casa, não é o momento para deslocamentos”, disse à TV Globo.

De acordo com ele, choveu em três horas 50% do que era esperado para todo mês. “O sistema funcionou até o limite, mas a chuva veio acima da capacidade. Temos de cuidar das emergências para evitar danos maiores”, disse.

O próprio governador de São Paulo, João Doria, já se conformou com o cenário e afirmou que o problema não tem solução rápida.

“Evitar por completo não será, evidentemente, algo possível, já que a incidência de chuvas ao longo dos anos, a mudança climática, está impondo um volume de chuvas maior”, disse na segunda.