COMPORTAMENTO
05/10/2019 01:00 -03

Por que viver pensando no fim de semana pode ser um problema

O fim de semana deveria ser uma pausa intencional no trabalho. Quando você está cansado demais, pode esquecer o que é tirar um tempo para si mesmo.

Emilija Randjelovic via Getty Images
Psicólogos e especialistas em carreira identificam os sinais de estafa nos quais você deve prestar atenção.

O burnout é um risco real para qualquer pessoa que não consegue ter uma relação saudável com o trabalho, e ela não desaparece quando chega a sexta-feira. O funcionário cansado, irritado e apático do escritório é a mesma pessoa que está exausta em casa.

Segundo a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial do Trabalho, o principal critério para identificar a síndrome de burnout não é necessariamente trabalhar demais. Ela pode estar relacionada a um emprego que não seja desafiador o suficiente, por exemplo. O burnout é um estresse crônico e se manifesta na sensação de falta de energia e de falta de engajamento com o trabalho.

Quando você está muito cansado, pode acabar esquecendo o que é relaxar. E hábitos ruins no final de semana podem te fazer sentir ainda pior quando chega a segunda-feira.

Você vive pensando no fim de semana

Uma coisa é estar ansioso para fazer algo nos seus dias de folga, outra bem diferente é viver para o fim de semana. Esse tipo de pensamento “tudo ou nada” pode ser um sinal de burnout. “Quando as pessoas dizem ‘odeio segundas-feiras’ ou ‘graças a Deus é sexta’, o que você realmente quer dizer é ‘80% da minha vida é um saco’”, diz o psicólogo Ryan Howes.

“Quando as pessoas pensam nos dias de semana como algo ruim e no fim de semana como algo bom, pode ser um problema”, afirma Howes. “Elas passam o fim de semana inteiro sofrendo com a iminente chegada da segunda, reclamando e se torturando.”

Solução: coloque um pouco de fim de semana na sua rotina.

“Se você aproveita o sábado e o domingo para se conectar com amigos, descansar ou fazer pequenas aventuras, fantástico. Mas como fazer essas coisas também durante a semana?”, pergunta Howes. Ele sugere tomar café da manhã com um amigo ou então visitar uma livraria na hora do almoço, por exemplo. 

Quando o trabalho suga todas as suas energias, “as pessoas têm de alimentar a alma”, diz Adriana Alejandre, terapeuta especialista em casais e famílias. Ela afirma que cercar-se de pessoas bem-humoradas pode ajudar. Procurar atividades que despertem sua curiosidade também é uma boa estratégia.

Quando você acha que seu trabalho não é desafiador, uma ideia é procurar recompensas em outras atividades, afirma Melody Wilding, assistente social e coach de executivos. “O fim de semana pode ser perfeito para fazer trabalho voluntário ou investir em algum projeto artístico. Algo que te faça se sentir envolvido.” 

Você não consegue parar de reclamar do trabalho

Reclamar o tempo todo dos seus colegas chatos e do seu chefe autoritário pode ser um alívio temporário, mas, no longo prazo, ficar ruminando só piora as coisas.

Quando você não para de expressar esses sentimentos negativos, afirma Howes, “você não está reclamando, mas sim ruminando, repisando, guardando rancor. Ou seja, as reclamações não estão surtindo efeito nenhum”.

Solução: preste atenção em si mesmo e tente mudar de perspectiva. 

“O que posso fazer a respeito?” é uma pergunta que ajuda a ver as coisas de outro ângulo e a direcionar a energia a algo mais produtivo. “As reclamações deveriam ser o começo da solução do problema, não um fim em si mesmas.” 

Wilding diz que estabelecer um ritual de reflexão às sextas-feiras pode marcar o fim da semana do trabalho, permitindo que seu fim de semana comece para valer. “Muita gente acaba caindo no fim de semana sem esse tempo para descomprimir”, diz ela.

Wilding sugere algumas perguntas: “O que completei esta semana? Onde houve progressos? O que gostaria de melhorar? O que pode servir de aprendizado para o futuro?” 

Esse “fechamento do ciclo” impede que os sentimentos negativos do trabalho te assombrem no fim de semana, afirma Wilding.

Você está apático até mesmo no tempo livre

Quando você está sobrecarregado demais, a vida de trabalho, trabalho e mais trabalho pode te impedir de se envolver com o resto da sua vida.

“Vejo muitos casos de gente que tem tanta coisa para fazer no fim de semana que o resultado acaba sendo uma apatia profunda. Elas não aproveitam aquele tempo nem sequer para restaurar as energias”, diz Wilding. “Elas meio que ficam anestesiadas na frente da TV, para evitar a realidade.”

Solução: seja mais atento às suas escolhas.

Isso não quer dizer que você não possa relaxar no sofá assistindo Netflix, mas faça esse plano deliberadamente. “O importante é que seja uma escolha sua. Mas se o motivo for ‘quero desligar tudo, me enfiar numa caverna e me esconder do mundo’, talvez a intenção não seja das mais saudáveis”, afirma Wilding. 

A tecnologia te controla

Quando seu celular está por perto, você pode se sentir o tempo todo de plantão – mesmo que não seja esse o caso.

Primeiro, identifique de onde vem essa necessidade de estar sempre à disposição. “Muitas vezes isso se baseia no medo. É por isso que é tão estressante. ‘Tenho medo de perder alguma coisa’ ou ‘Tenho medo de estar despreparado e de ficar para trás’”, afirma Howes.

Solução: estabeleça limites.

Se você tende a ficar alerta porque pensa: “E se precisarem de mim?”, entenda que esse tipo de pensamento pode perpetuar o ciclo do cansaço. “Se você está sempre respondendo nos horários de folga, você está contribuindo para esse ciclo. Combater essa ansiedade é muito importante”, diz Alejandre. 

Mesmo que você tenha de estar de fácil acesso, mantenha limites em relação ao quanto de trabalho você quer se dedicar no fim de semana. “Sim, podem te achar no celular, mas é importante estabelecer alguns parâmetros”, afirma ela. 

Primeiro estabeleça os limites para você, depois os compartilhe com os outros. “Seja claro em relação a quantas horas você pode trabalhar, quando você não estará disponível e quanto tempo você vai demorar para responder”, diz Wilding. 

Nem tudo está sob seu controle, mas você deve se sentir empoderado para mudar o que puder.

É claro que muitos dos fatores que causam o burnout – chefes exigentes, prazos apertados – estão além do seu controle.

Mas isso também pode ser um sinal de que chegou a hora de fazer algumas mudanças. Quando seu trabalho é sistematicamente tóxico, talvez seja o caso de considerar a possibilidade de procurar alternativas. Você também pode conversar com seu chefe sobre as expectativas dele e sobre suas prioridades de carreira.

Enquanto isso, reconquiste os fins de semana – isso é possível!

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.