OPINIÃO
15/05/2019 13:55 -03 | Atualizado 15/05/2019 13:55 -03

'Cannes me dá medo', diz Bill Murray em coletiva de 'The Dead Don't Die' no festival

Filme de zumbis do cult diretor americano Jim Jarmusch dividiu opiniões na abertura do Festival de Cinema de Cannes.

Stephane Cardinale - Corbis via Getty Images
O ator Bill Murray é um "veterano" em filmes de zumbis. Antes de The Dead Don't Die, ele atuou em outra comédia de horror: Zumbilândia (2009).

The Dead Don’t Die, comédia de horror e zumbis do diretor americano Jim Jarmusch, abriu na terça (14) o 72º Festival de Cinema de Cannes.

Parte do elenco estrelado – Bill Murray, Tilda Swinton, Adam Driver, Chlöe Sevigny, Danny Glover e Selena Gomez – participou na manhã desta quarta (15) da coletiva de imprensa discutindo filmes que dão medo, mulheres no cinema e o horror das redes sociais.

Por que zumbis?

De The Walking Dead a Game of Thrones, zumbis ocupam espaço de destaque na cena atual do entretenimento. Ninguém fez a pergunta diretamente, mas Jarmusch respondeu: “A metáfora de zumbis é mais forte do que eu esperava. Hoje, lendo as matérias de vocês, me dei conta de que não havia pensado em muitas daquelas interpretações. Mas não acho que seja a melhor pessoa para responder a perguntas sobre meu filme”.

The Dead Don’t Die traz referências a George Romero, considerado o mestre do gênero e diretor de filmes como A Noite dos Mortos Vivos (1968). Os zumbis de Jarmusch, no entanto, são feitos de pó. Quando decepados – é preciso cortar a cabeça, como os personagens repetem ao longo do filme todo – tudo o que sai são cinzas. É verdade, temos também duas ou três cenas desconfortáveis com o que parecem ser tripas.

Stephane Cardinale - Corbis via Getty Images
O cineasta Jim Jarmusch e a atriz Tilda Swinton na coletiva de The Dead Don’t Die no Festival de Cannes.

Cannes dá medo

E o que dá medo? Selena Gomez, estrela pop que atua no filme, disse que o pai a fazia assistir a filmes de terror quando pequena para rir dos seus momentos de medo. Tilda Swinton respondeu que só começou a se familiarizar com o universo depois, mas hoje é uma parte essencial sua.

Então foi a vez de Bill Murray. “Cannes me dá medo”, ele disse. “Mas ainda não vimos nenhum zumbi no Boulevard da Croisette”, ele retrucou. “É você quem diz”, ele respondeu.

Do possível medo de zumbis, o tópico mudou para medos mais reais. “O mercado de cinema é perigoso. Pensem no perigo envolvido só em entrar nesse prédio hoje [em referência às diferentes medidas de segurança]. Pode ser seu último dia de trabalho”.

Depois, em pergunta sobre a importância da consciência, ele disse que atingia seu mais alto estado de consciência quando estava trabalhando, e era seu momento preferido da semana ou do mês. “Estar aqui com vocês hoje exige muito trabalho e concentração”.

Mulheres no cinema

Como acontece em toda coletiva de imprensa de Cannes, um jornalista perguntou o eles achavam do fato de termos apenas quatro filmes de mulheres diretoras na competição.

Tilda Swinton respondeu que, embora pouco, era preciso pensar em tudo o que está por trás, passando por escolas de cinema e inclusive pela mídia. “Quando mulheres diretoras morrem, temos apenas um trecho no jornal. Já os homens diretores recebem edições inteiras dedicadas a eles”.

O horror de redes sociais

Os zumbis de Jarmusch gravitam em torno das coisas que amavam quando estavam vivos – pode ser uma loja de histórias em quadrinhos e brinquedos nerds para crianças, ou Chardonnay barato para o cadáver no posto policial.

Mas uma coisa todos têm em comum: Wifi. Selena Gomez falou sobre a preocupação com redes sociais em sua geração e, quando perguntada especificamente sobre o que poderia fazer com seus 150 milhões de seguidores, ela respondeu que tentava publicar coisas relevantes, mas era importante cada um controlar o tempo que dedica a isso no dia a dia.

Divulgação
Adam Driver, Chlöe Sevigny e Bill Murray em cena de The Dead Don't Die.

O filme

The Dead Don’t Die, nome do filme e da música de Sturgill Simpson escrita especialmente para ele, dividiu opiniões entre produtores e jornalistas, com muita gente sem entender o que o filme de gênero fazia na abertura. Um jornalista francês disse que não era nem uma história de zumbi muito boa nem estava entre as melhores obras de Jarmusch. Mas todo mundo se divertiu, pelo menos um pouco.

Dois policiais (Bill Murray e Adam Driver) vão para o meio do mato investigar o roubo de uma galinha e encontram Bob Ermitão, mendigo recluso interpretado pelo excelente Tom Waits (aliás, grande ausência na coletiva). Não se convencem de que seria o culpado, e entram no carro para voltar.

Aí coisas estranhas começam a acontecer: o relógio para de funcionar, depois o celular, e a rádio – que por algum motivo ainda funciona – dá notícias: parece que a Terra saiu de seu eixo, o que pode alterar toda a vida orgânica do planeta. A música, que toca pelo menos quatro vezes durante a narrativa, vai do carro de Murray e Driver para o de Selena Gomez – que compra o CD especificamente para escutá-la mais vezes.

Divertido, a falha principal do filme acontece no fim, quando tentar ser algo maior do que realmente é, e as auto-referências – quando Murray pergunta a Driver como sabe de tudo isso, ele responde que leu o roteiro – se tornam repetitivas.

Como diz no trecho da música título (em tradução livre): “Os mortos não morrem/Não mais do que você e eu/São apenas fantasmas dentro de um sonho/Em uma vida que não lhes pertence”.