OPINIÃO
09/10/2020 01:05 -03 | Atualizado 09/10/2020 01:05 -03

É preciso decidir que a vida das mulheres vale a pena ser salva

"Sabemos que o sucesso do tratamento e qualidade de vida da paciente de câncer de mama dependem, em larga medida, do diagnóstico precoce."

“As mulheres não morrem porque suas doenças não podem ser tratadas, elas estão morrendo porque as sociedades ainda não tomaram a decisão que suas vidas devam ser salvas”.

A frase acima é de Mahmoud Fathalla, egipcio, médico e defensor dos direitos das mulheres. Há décadas o câncer de mama deixou de ser um tabu. Graças ao inconformismo otimista, incansável, imprescindível e inventivo de milhões de mulheres em todo o mundo, em outubro, as cidades e os espaços virtuais se vestem de rosa para que nenhuma mulher fique no escuro sobre os fatores de risco e os sinais do câncer de mama.

Ainda assim, à despeito destes valiosos esforços, dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer) indicam que aproximadamente 65.000 casos de câncer de mama serão diagnosticados este ano no Brasil, em uma clara trajetória de crescimento.

Edgard Garrido / Reuters
"Em todos estes indicadores, com exceção do tempo para início do tratamento, lamentavelmente, temos sinais inequívocos de deterioração da assistência."

O que muda com a pandemia?

Infelizmente, a pandemia teve um profundo impacto sobre o atendimento oncológico no Brasil. Estima-se que mais de 50 mil casos de câncer não foram diagnosticados e até o final do ano esse número será muito maior. Se por um lado, o medo da covid-19 contribuiu para que muitas mulheres deixassem de buscar ajuda, é preciso ressaltar que muitos tratamentos e consultas para diagnóstico foram suspensas por decisão dos Hospitais e serviços de atendimento.

O retrato e a paisagem

Este é apenas um retrato dramático em um cenário já profundamente precário, que só pode ser compreendido pela observação da movimentação dos registros ao longo do tempo. Um estudo recente feito pelo Observatório de Oncologia em parceria com o Instituto Avon publicado em setembro traz as cores deste cenário que nada tem de róseo. Vamos aos dados.

Sabemos que o sucesso do tratamento e qualidade de vida da paciente de câncer de mama dependem, em larga medida, do diagnóstico precoce, nos estádios iniciais da doença, e do rápido início do tratamento.

Portanto, para mudarmos o patamar do melhor indicador de sucesso na assistência à mulher com câncer de mama, a taxa de sobrevida, precisamos entender como está o desempenho do nosso país em relação a alguns indicadores chave: a cobertura mamográfica, o tempo entre a suspeita e a confirmação do diagnóstico, o estadiamento ao diagnóstico, o tempo entre diagnóstico e início do tratamento.

Em todos estes indicadores, com exceção do tempo para início do tratamento, lamentavelmente, temos sinais inequívocos de deterioração da assistência. Enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza uma cobertura mamográfica (% de mulheres na faixa-alvo de rastreamento alcançadas pelos exames de imagem assintomáticos) de 70%, no Brasil, entre 2015 e 2019, a taxa média é de 23%. Dentre os 5.570 municípios brasileiros, apenas 2% apresentaram cobertura mamográfica acima de 70%.

Quanto ao tempo entre suspeita e confirmação de diagnóstico, as mulheres brasileiras são amparadas pela “Lei dos 30 dias” que prevê o direito à confirmação do diagnóstico em até 30 dias da suspeita de câncer de mama. No entanto, segundo a base do RHC no mesmo período, o tempo médio entre a primeira consulta com o médico especialista e a confirmação do câncer de mama entre 2014 e 2018 foi de 36 dias.

Njeri Mwangi / Reuters
57% das mulheres iniciaram o tratamento após 60 dias a partir do diagnóstico.

Tempo para início do tratamento

O tempo entre o desfecho do diagnóstico e o início do tratamento também é precioso. Apesar da Lei dos 60 dias, vigente desde 2012, que garante ao paciente com câncer ter seu tratamento iniciado em até 60 dias a partir da confirmação do diagnóstico, os dados do SAI-SUS revelam que 57% das mulheres iniciaram o tratamento após 60 dias a partir do diagnóstico.

O cenário do estadiamento ao diagnóstico evidenciado também é bastante preocupante. A proporção de diagnósticos tardios é significativamente maior (47% dos diagnósticos ocorreram nos estadiamentos 3 e 4) do que proporção de diagnósticos precoces (23% nos estadiamentos 0 e 1).

Mais do que nunca, precisamos de conscientização e mobilização no Outubro Rosa. Nosso desafio, como sociedade é superar um panorama composto por baixa cobertura mamográfica, grande proporção de diagnósticos tardios, dificuldades no acesso ao diagnóstico e, principalmente, ao tratamento do câncer de mama. O estudo também deixa claro que o atendimento das mulheres negras é ainda mais crítico que o restante da população.

No período analisado as mulheres negras foram diagnosticadas mais tardiamente e, apesar disso, também tiveram maior atraso para início do tratamento. E o que é pior, estes indicadores revelam uma clara tendência de agravamento de 2015 a 2019.

Talvez, precisemos honrar a memória, a vida e a luta das mulheres que se mobilizaram para vencer o tabu, a ignorância e o medo ao criar o Outubro Rosa, começando do básico: decidindo que a vida das mulheres vale a pena ser salva.

Este texto é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.

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