COMPORTAMENTO
04/12/2019 03:00 -03 | Atualizado 11/12/2019 15:50 -03

Por que ficamos tão felizes quando alguém cancela um plano com a gente

Seria ficar em casa o novo sair?

Westend61 via Getty Images

Se você vive em 2019 e tem um celular com um aplicativo de qualquer rede social, com certeza você já se viu participando de uma conversa ping-pong com um único objetivo: marcar ou desmarcar um compromisso com alguém.

Não é à toa que a gente já produziu um estoque infinito de memes e figurinhas para celebrar a alegria instantânea que muita gente sente em cancelar planos.

Aquele encontro de relacionamento pós-expediente em uma semana cansativa? Ufa, ainda bem que reagendou. 

Aquela amiga que você ama, não vê há algum tempo, te chamou para um rolê sábado de manhã e você só queria dormir mais um pouquinho. Ufa, ainda bem que não deu para ir. 

Ou até quando o crush que você tá papeando há dias finalmente marca aquele bar, mas chega na hora H e dá aquela preguicinha. Ufa, ainda bem que ele sumiu no dia.

Não, você não está sozinho. Cancelar planos, muitas vezes, traz um alívio imediato indescritível, afinal, ficar em casa é um dos exercícios de autocuidado que a nossa geração do FOMO (fear of missing out, ou em tradução literal, “o medo de ficar de fora”) pode experimentar.

Mas será que estamos passando do limite?

Eu sou uma pessoa do “cancelamento crônico”. Meus amigos mais próximos sabem disso e, na maioria das vezes, compreendem. 

Duas situações recentes, no entanto, me fizeram refletir com mais profundidade sobre essa cultura de eu-preciso-ficar-em-casa-e-ponto-final. 

Explico. Certa vez, uma amiga ficou bem chateada quando eu quase cancelei um encontrinho nosso. Foi naquele momento que ela me lembrou sobre a responsabilidade que eu tenho com o tempo do outro.

Outra amiga me mostrou um outro ponto super relevante nessa discussão: tudo bem você estar cansado, mas amizade também exige um esforço de cuidado para que se mantenha viva. A gente sabe com quem a gente pode contar nas horas mas difíceis, seja com um telefonema ou com aquele áudio gigante no WhatsApp. Mas, e se a gente só quiser a companhia dessa pessoa para uma cerveja, nunca vai rolar?

Sim, eu sei. Deveria ser óbvio, mas é um dilema porque a nossa geração vive cada vez mais com pressa. Por um lado a gente sofre com a ansiedade do FOMO e se sente obrigado a estar em todos os lugares e o tempo todo. 

De outro, a gente abusa do JOMO (joy of missing out, ou em tradução literal, “a alegria de cancelar planos”) e simplesmente se mantém em posição fetal jogado no sofá, vendo Netflix, sem necessariamente pensar na nossa responsabilidade em relação ao outro e sem arriscar a sair da nossa zona de conforto.

E o que é pior: A gente está começando a se acostumar apenas com as interações online. Como se elas fossem suficientes e o contato real acaba ficando em segundo plano.

Às vezes, tomar um café com uma amiga significa literalmente estar ali por aquela pessoa - e não apenas responder a sua vontade de ficar de pijama com o seu cobertor.  Em outros casos, se esforçar para atender aquele evento corporativo pode te abrir os olhos para conhecer gente nova e outras oportunidades.

Hoje em dia eu busco equilibrar melhor essas situações. Nem me culpo 100% se eu realmente precisar cancelar algum plano com alguém, mas também me desafio a me questionar: Por que será que eu estou cancelando?

Então, se você, assim como eu, está tentando melhorar nessa decisão de nem sempre querer ir, mas também não querer desapontar o outro, aqui estão algumas perguntinhas para você pensar da próxima vez que estiver quase cancelando com outra pessoa.

1. Como você está se sentindo agora? 

2. O que está realmente fazendo você querer cancelar?

3. Se você não cancelar, como será que você se sentiria saindo de casa?

4. E se você cancelar, será que vai se arrepender?

Um outro exercício que eu venho pensando, também, é como posso cancelar um compromisso de uma forma mais responsável. 

1. Será que apenas dizer “Putz, desculpa, não vai dar mais” é suficiente? O que você poderia ter feito de diferente para não ter que cancelar com a pessoa? 

2. Será que dá para reagendar o encontro? 

3. Ou ainda, que tal sugerir uma outra atividade que você se sinta mais confortável para que o encontro ainda aconteça? 

4. E sempre, sempre mesmo, se coloque no lugar da outra pessoa. Como será que você realmente se sentiria se estivesse sendo cancelado? 

É claro que tudo isso faz bem mais sentido quando estamos falando de encontros com pessoas que temos alguma intimidade. Por isso, ter consciência de que você precisa se responsável com seus compromissos profissionais, por exemplo, requer todo um tom diferente. 

Uma boa medida é apenas ter noção dos seus limites e não aceitar qualquer convite. Dizer não, muitas vezes, é bem mais honesto do que cancelar. 

Por último, eu, uma pessoa que cancela-quase-tudo-sem-nenhuma-culpa, tenho adotado cada vez mais a estratégia de dizer sim para os encontros espontâneos.

Me parece que marcar alguma coisa com muita antecedência tem deixado a gente ansioso, o que leva ao cancelamento de última hora, e, muitas vezes, ao sofrimento prolongado por algo que deveria ser uma situação tranquila.

Em contrapartida, receber uma mensagem quase no fim de um expediente com um convite para comer algo gostoso muitas vezes é justamente o que eu precisava para o meu dia terminar bem.