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01/09/2020 08:22 -03

Convenções partidárias em SP vão testar presença digital dos candidatos

Diluídas em 18 chapas, pré-candidaturas terão como principal arena de discussão o universo online.

Os reflexos de um ano atípico por causa da pandemia de coronavírus vão atingir em cheio as eleições municipais. As tradicionais convenções partidárias que costumam lotar auditórios e funcionam como pontapé para as campanhas migraram para o universo digital. Em São Paulo, até mesmo as candidaturas que decidiram manter o evento presencial estão cientes de que o campo de discussão e promoção da chapa se dará especialmente nas redes sociais e nas mídias online. 

Embora seja aparentemente mais democrática, a arena virtual traz uma preocupação extra: a de se chegar a um público que não faz parte da base do candidato. Para tornar a tarefa ainda mais complicada, este ano há indicativo de recorde de candidaturas na capital paulista. As chapas de esquerda e de direita estão fragmentadas entre 18 pré-candidatos à prefeitura, alguns deles ainda sem definição de vice. O prazo para oficializar a chapa termina no dia 16.

Se todas forem confirmadas, o número de candidaturas será 63% maior do que as registradas em 2016. Ou seja, mais concorrentes de olho nos eleitores e que terão que se adaptar a uma nova realidade.

“Além das regras eleitorais, das nossas relações com os dados e uso das plataformas, as campanhas estão tendo que lidar com esse fator de isolamento”, resume ao HuffPost a pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília) em democracia digital Maria Carolina Lopes. 

Na sua avaliação, um dos maiores obstáculos será substituir os comícios. “Quando não tem comício, o candidato não consegue mensurar na vida real, no ambiente offline, o tamanho do seu apoio e a amplitude da sua voz diretamente para as pessoas. O jeito vai ser transferir isso para a live”, diz. Ela ressalta, porém, que as transmissões ao vivo não poderão contar com a participação de cantores nem se aproximar de eventos culturais, afinal o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu que a mesma regra que vale para o comício vale para o ambiente digital. 

“O desafio é, sem ter esse chamariz, conseguir manter pessoas ao vivo assistindo ao candidato, principalmente porque ele também precisa fazer número. Um comício serve para ele mostrar seu poder de mobilização, mostrar para os outros eleitores que não foram ao comício que ele é forte, que ele tem o poder de ganhar, que no próximo comício vai ter mais, e por aí vai. Se ele não faz esse evento presencial por causa da pandemia, ele tem que mostrar esse poder na plataforma, esse poder na live, transpondo a ideia.”

Reprodução/ Instagram
Boulos e Joice, os dois candidatos à Prefeitura de São Paulo com mais seguidores no Instagram.

Pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Orlando Silva (PCdoB), por exemplo, traçou toda sua campanha para ser feita no ambiente virtual. “Vai ser uma campanha completamente diferente de todas as outras. Campanha eleitoral é rua, e essa campanha vai ter um limite muito grande, sobretudo para nós que defendemos o isolamento social como uma das medidas de enfrentamento da covid. Seria contraditório com a nossa orientação, que é, na verdade, a orientação da ciência”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Na sua avaliação, os meios de comunicação terão papel ainda mais importante, “porque muitos debates podem se transformar em instrumento para ajudar a reflexão da população na formação da população política”. “Cresce o peso das redes sociais e da mídia, que têm papel-chave na oferta de informações.”

Apesar de estar completamente focado na campanha online, ele diz ter esperança de haver uma diminuição nos números da covid até o pleito. O primeiro turno da eleição está previsto para o dia 15 de novembro e o segundo, para o dia 29. 

Segundo Maria Carolina, a tática tem sido replicada por outros pré-candidatos. “As campanhas estão focando muito no digital para não correr o risco de ser leviano com o eleitor, mas há também aqueles que escolhem fazer agendas de rua mais restritas, como visitas às pessoas.” 

Uma campanha que já adotou essa estratégia de fazer eventos de rua foi a de Joice Hasselmann (PSL). Oficializada como candidata à prefeitura nesta segunda-feira (31), ela tem visitado bairros e famílias em São Paulo, segundo o presidente do diretório da sigla no estado, o deputado Júnior Bozzela. “A vida meio que está voltando ao normal, as pessoas têm flexibilizado e ela tem andado pelos quatro cantos da cidade, se deparando com uma série de problemas e, ao mesmo tempo, se relacionando com as pessoas que estão no seu dia a dia normal”, disse ao HuffPost Brasil. 

Bozzela destaca que também tem a televisão e os debates como ferramentas importantes, além da presença nas redes sociais. Entre os que têm interesse no cargo, Joice só perde em número de seguidores no Instagram para o ex-presidenciável Guilherme Boulos (PSol). Ela tem 941 mil e ele, 1 milhão. Em seu post de anúncio da oficialização da candidatura no Instagram, ela deixou um recado aos seguidores: “a gente vai ser muito por aqui”. 

Em um misto de evento virtual e presencial, Andrea Matarazzo (PSD) também teve a candidatura oficializada em convenção do partido na segunda com aceno à campanha online, com foco em 5 redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter, Youtube e LinkedIn). Uma fragmentação que, na análise de Maria Carolina, será cada vez mais comum. De acordo com ela, cada rede vai ter um papel. Na campanha de 2018, o WhatsApp foi protagonista, nesta, o Youtube passa a ser uma ferramenta muito importante para eventos mais longos e o Instagram, até por conta da limitação de tempo, se torna relevante para pequenos debates. 

Yulia Sutyagina via Getty Images
Segundo levantamento mais recente do Cetic.br (que monitora dados de tecnologia da informação), feito em 2018, mais de 30% das residências em São Paulo não têm acesso a banda larga.

A especialista destaca um obstáculo importante neste “novo normal” da política: o acesso precário à internet no País. “A gente fala como se toda população tivesse acesso igual à internet. Isso não é verdade. Há uma parcela que não tem acesso e pode ser que vote, há os que não podem ver determinado evento porque estão trabalhando ou quem tem acesso limitado”, ressalta. Segundo levantamento mais recente do Cetic.br (que monitora dados de tecnologia da informação), feito em 2018, mais de 30% das residências em São Paulo não têm acesso a banda larga.

Candidaturas em abundância

Um dos fatores que ajudou a inflar o número de candidaturas este ano foi uma alteração na regra eleitoral. Pela primeira vez, candidatos ao cargo de vereador não poderão concorrer por meio de coligações. Essa mudança foi aprovada na minirreforma eleitoral de 2017, que estabeleceu que um candidato a uma cadeira na câmara municipal só poderá participar do pleito por meio de chapa única do partido. 

Em função disso, as siglas montaram estratégias para atrair votos. Uma delas é pulverizar a candidatura à prefeitura para atrair votos para o partido. O entendimento é que o candidato ao Executivo ao fazer campanha acaba fazendo também para os demais integrantes do partido, incluindo aqueles que pretendem concorrer à Câmara Municipal. 

Sem as coligações, partidos também apostam em “puxadores de votos”, já que os votos vão para a sigla e não para o candidato. O que significa que o eleitor escolhe o candidato apresentado pelo partido e são eleitos os que conquistam votos em número igual ou superior a 10% do quociente eleitoral, além do indicado pelo quociente partidário na ordem da votação nominal que cada candidato do partido recebeu. 

Ou seja, candidatos populares puxam outros. Foi o caso de Eduardo Suplicy (PT) e Milton Leite (DEM) em 2016. Suplicy e Leite foram os mais votados para vereador, com 301 mil e 107 mil votos, respectivamente. Além de conquistarem suas vagas, eles abriram outras para o partido. Suplicy, por exemplo, “puxou” mais duas cadeiras. 

Os pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo

 

Andrea Matarazzo (PSD)

Antonio Carlos Mazzeo (PCB)

Arthur do Val (Patriota), com Adelaide Oliveira (Patriota) como vice

Bruno Covas (PSDB)

Celso Russomanno (Republicanos)

Eduardo Jorge (PV), com Roberto Tripoli (PV) como vice

Filipe Sabará (Novo), com Marina Santos (Novo) como vice

Guilherme Boulos (PSol), com Luiza Erundina (PSol) como vice

Jilmar Tatto (PT)

Joice Hasselmann (PSL)

Levy Fidelix (PRTB)

Márcio França (PSB), com Antônio Neto (PDT) como vice

Marcos da Costa (PTB), com Policial Edjane (PTB) como vice

Marina Helou ou Duda Alcântara (Rede)

Ribas Paiva (PTC), com Coronel Adriana (PTC) como vice

Orlando Silva (PC do B)

Vera Lúcia (PSTU)

Vivian Mendes (UP)