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24/06/2020 01:00 -03 | Atualizado 24/06/2020 11:40 -03

Sem campanha pelo isolamento, governo lança peças publicitárias para se promover

Com duração de 3 semanas, peças focam em recuperados da covid-19 e ignoraram cenário grave da pandemia.

Uma campanha para promover a atuação do governo de Jair Bolsonaro frente à pandemia passou a ser exibida nesta semana em veículos de TV, rádio e mídia digital. Com o conceito “O cuidado do Governo Federal com o Brasil e com os brasileiros continua”, as peças serão veiculadas por 3 semanas, de acordo com a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). A pasta não informou quanto dinheiro foi gasto.

A campanha mostra, por exemplo, a história de um garçom que teve o contrato de trabalho suspenso mas foi incluído no programa emergencial de emprego e de uma promotora de eventos que se recuperou da covid-19. 

Na mesma linha, a Secom criou, em abril, o “Placar da Vida”, publicado diariamente nas redes sociais da Presidência. A publicação omite as mortes e destaca o número de recuperados.

De acordo com levantamento divulgado pelo Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde) nesta segunda-feira (22), o total de óbitos chegou a 51.271 e o de casos confirmados, a 1.106.40.

Os gráficos epidemiológicos brasileiros nas últimas semanas assumem aos poucos a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes. Apesar da possível tendência de desaceleração, isso não significa que a situação esteja sob controle, uma vez que os números continuam altos.

Relatório do InfoGripe publicado na última sexta-feira (19) com dados da semana de 7 a 13 de junho mostra que todas as regiões do país apresentaram números de casos e de mortes muito altos de pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) confirmadas com covid-19.No Centro-Oeste, os pesquisadores apontam tendência de crescimento com possível desaceleração em junho e ocorrência muito alta. No Sul, a ocorrência também é muito alta e se manteve a tendência de crescimento.

A partir do 54º dia, o Brasil é o país com a maior taxa de crescimento de casos confirmados, de acordo com dados analisados pelo grupo Covid-19 Brasil, que reúne cientistas de universidades brasileiras e de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins (EUA).

Países como Espanha, Suíça e França experimentaram uma taxa de aceleração muito alta no início, mas agora têm um comportamento de desaceleração. Além do Brasil, os únicos países que não têm diminuído os números de casos e mortes são Irã, Índia, Rússia e Austrália.

Na última quinta-feira (18), integrantes do Ministério da Saúde afirmaram que há uma tendência de estabilização da pandemia. “Precisamos confirmar se tendência permanece com o passar dos próximos 15 dias, mas já conseguimos perceber que estamos talvez entrando efetivamente em um platô de novos casos”, afirmou em coletiva de imprensa o secretário de vigilância em saúde, Arnaldo Correia de Medeiros.

NurPhoto via Getty Images
Quando estava à frente do Ministério da Saúde, Nelson Teich chegou a prometer uma campanha para mobilizar os brasileiros a ficarem em casa, mas nunca foi feita.

Campanha pró-isolamento nunca foi feita

Quando estava à frente do Ministério da Saúde, Nelson Teich chegou a prometer uma campanha para mobilizar os brasileiros a ficarem em casa, mas ela nunca foi feita.

Em 6 de maio, o então ministro afirmou que a conteúdo seria adaptado por região. “A gente vai rever nossa parte publicitária no sentido de informação para a sociedade. Foi uma solicitação do presidente [Jair Bolsonaro] e que eu falei com ele que a gente vai fazer”, disse, à época.

Entre os motivos apontados pelos brasileiros para furarem o isolamento social, 20,5% disseram que estavam entediados ou cansados de ficar em casa, de acordo com a pesquisa Vigitel COVID-19, feita pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e divulgada em 29 de maio.

Os dados foram coletados em dois ciclos: 2.115 entrevistas entre 1º e 10 de abril e 2.007 entrevistas entre 25 de abril a 5 de maio.

Segundo a pesquisa, 87,1% dos adultos precisaram sair de casa ao menos uma vez na última semana anterior à coleta de dados. O motivo mais recorrente foi comprar alimentos (75,3%), seguido por trabalhar (45%), procurar serviço de saúde ou farmácia (42,1%), seguido por estar entediado. Outras razões apontadas foram visitar familiar ou amigo (19,8%), praticar atividade física (13,6%) e caminhar com animal de estimação (5,6%).

O isolamento social tem como objetivo desacelerar o ritmo de transmissão do novo coronavírus para evitar um colapso do sistema de saúde.

Quando a pesquisa foi divulgada, Luciana Sardinha, então coordenadora-geral de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis do ministério, afirmou que seriam reforçadas ações de comunicação em curso, mas não haveria novas iniciativas para promover o isolamento.