POLÍTICA
14/05/2019 18:57 -03 | Atualizado 15/05/2019 11:22 -03

Em derrota do governo, Câmara convoca ministro da Educação para ser sabatinado no plenário

“A convocação não é agradável, mas é do jogo democrático”, diz Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso.

Adriano Machado / Reuters

Em derrota do governo, o plenário da Câmara dos Deputados convocou, por 307 votos a 82, o ministro Abraham Weintraub para prestar esclarecimentos sobre os cortes na educação

No momento em que o Planalto busca apoio de parlamentares para aprovar a medida provisória que cria os 22 ministérios, líderes de partidos com afinidade com o governo se juntaram à oposição na articulação. Apenas o Novo e o PSL se posicionaram contra. 

Weintraub deverá comparecer na Câmara nesta quarta-feira (15) para ser sabatinado. Já havia uma visita do ministro confirmada à Comissão de Educação na mesma data, mas o plenário decidiu que ele deverá prestar explicação aos 513 parlamentares.

O último ministro a ser convocado ao plenário foi Cid Gomes (Educação), em 2015. A sessão levou à sua demissão. Antes dele, em 1991, foi convocado o titular da Agricultura Antônio Cabrera. 

Líder do governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) reconheceu o desgaste. “A convocação não é agradável, mas é do jogo democrático”, afirmou.

O placar sinaliza isolamento do governo. Quando o PSL pediu votação nominal do requerimento, o líder da maioria, Aguinaldo Ribeiro (PP-AL), ironizou. “Vamos ver quantos votos o governo tem”, disse.

A decisão de colocar o requerimento de convocação do ministro em pauta ocorreu em reunião de líderes na tarde desta terça-feira (14) sem a presença do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Ele está em viagem aos Estados Unidos.

Os líderes, entretanto, não entraram em acordo em relação à votação da MP que cria a estrutura do governo do presidente Jair Bolsonaro. Se não for votado até 3 de junho na Câmara e no Senado, o texto perde a validade e o País voltará a ter a 29 ministérios.

Do partido de Bolsonaro, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) afirmou que o centrão e a oposição decidiram convocar o ministro para adiar a votação da MP.

“Qual é a intenção real de se convocar ministro para ir ao Plenário? Por que estão com medo de discutir as medidas provisórias? Por que insistem em tirar o Coaf do Moro? Para proibir a Receita Federal de representar?”, questionou.

Líder do PT, o deputado Paulo Pimenta (RS) ressaltou a falta de articulação do governo. “Estamos vivendo o inusitado: votando a convocação de um ministro sem um líder em Plenário. A nova política deve ser isso, um governo sem liderança e que mergulha o País no caos. Por isso precisamos conversar com o ministro da Educação.”

 

Clima de tensão

Após a convocação do ministro, cerca de 12 parlamentares foram ao Planalto conversar com o presidente e contaram que o viram ligar para o ministro da Educação e mandar suspender o corte nas universidades. A notícia logo se espalhou pelo Congresso e, em seguida, a Casa Civil divulgou uma nota negando a informação.

“Não procede a informação de que haverá cancelamento do contingenciamento no MEC”, diz a nota da Casa Civil.

Os parlamentares ficaram indignados com por terem se passado de mentirosos. O deputado Capitão Wagner (Pros-CE), um dos principais aliados de Bolsonaro que estava presente na reunião, saiu contra o governo. Disse que o episódio mostra que o Planalto está “batendo cabeça”.

 

Manifestações

O ministro foi convocado para explicar o corte de 30% no orçamento da área, especialmente nas universidades e institutos federais. Autor do requerimento, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) destacou sintonia com a sociedade, que planeja manifestações para esta quarta-feira em defesa da educação.

Além do corte, declarações do ministro em relação sobre a área motivaram a convocação da manifestação. No mês passado, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Weintraub disse que “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”. 

“A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, afirmou o ministro citando casos de “sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”, disse.