COMPORTAMENTO
02/07/2019 08:47 -03

A morte com humor e sem tabus, segundo Caitlin Doughty

"Se podemos falar sobre sexo de forma natural, por que não falar sobre a morte da mesma maneira?", questiona a escritora americana.

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Caitlin Doughty é fundadora do grupo The Order of the Good Death, que une profissionais, acadêmicos e artistas para falar sobre a mortalidade.

Agente funerária, escritora, quadrinista e youtuber, Caitlin Doughty pode ter muitas atividades, mas só pensa em uma coisa: na morte. Porém, ao contrário do que muita gente pode pensar, essa americana de 34 anos está longe de ser uma pessoa carrancuda e sombria. Tudo bem que ela gosta de dar entrevistas com um crânio (de mentirinha!) ao lado dela, mas isso só mostra seu humor peculiar ao encarar um assunto tão tabu e “sério” em grande parte das sociedades mundo afora.

“Eu tiro sarro é da ‘indústria da morte’ ou da negação da morte, sobre a visão capitalista da morte. Ver a graça que existe em tudo, até na morte, é uma maneira de levar esse assunto a mais pessoas. Quem fica ofendido com o jeito que eu escrevo são apenas as pessoas muito conservadoras das empresas que prestam serviços funerários”, diz Doughty em entrevista exclusiva ao HuffPost.

De passagem pelo Brasil em junho para promover o lançamento de seu segundo livro, Para Toda a Eternidade, lançado pela editora Darkside Books, Doughty nos contou mais sobre sua trajetória, sua relação com a morte e as experiências surpreendentes e macabras (para alguns) que relata na obra

Entre histórias de múmias passeando com suas famílias nas ruas de uma ilha na Indonésia, crânios que bebem Coca-Cola na Bolívia e cadáveres sendo usados como adubo, Doughty relata de forma descontraída e às vezes até engraçada experiências tão tocantes quanto estranhas que nos lembram de algo que pode parecer óbvio, mas que evitamos discutir a qualquer custo: todos vamos morrer um dia.

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Em seu novo livro, Para Toda a Eternidade, Caitlin Doughty deixa uma pergunta no ar: existe jeito certo de se despedir das pessoas que você ama?

HuffPost Brasil: Por que morte é um assunto tão tabu na maioria dos países ocidentais?

Caitlin Doughty: Eu acho que nos últimos 100 anos há um grande esforço para esconder a morte. Não é alguma coisa que acontece e nós não sabemos o porquê. Nós sabemos. Quando alguém morre, nós o tiramos de cena. Quando há um funeral, enterramos o corpo em 24 horas e ele desaparece de nossas vistas. Vai direto para debaixo da terra. Animais são mortos fora de nossas vistas. Apenas a carne deles é vista em nossos pratos. Nós não vemos a morte. Não vemos alguém morrendo. Não vemos um corpo depois de 24 horas. Nós não interagimos com a morte de verdade. O que acabamos vendo é a morte em filmes de terror, assassinatos na televisão, zumbis… Não é a morte de verdade, a morte cotidiana. Essa não é acessível para nós. Apenas a morte ‘ruim’, a do horror.  

Por que no Oriente há essa relação mais próxima com os mortos?

Porque lá não há tantos cristãos. No sentido de que em muitas dessas culturas não há um julgamento no pós-vida se você foi bom ou mau. Não estou criticando qualquer religião, mas se você tem essa noção de que vai para um lugar como o Céu e haverá um ritual que significa muito para mim, isso pode ser reconfortante; mas eu conheço muitos cristãos que temem o inferno, e isso não é nada reconfortante quando se pensa em morte. Se você acha que vai queimar no inferno pela eternidade quando morrer, isso não te traz qualquer tipo de conforto, ao contrário do que acontece em uma religião que vê a morte como a passagem para outro nível, ou que você renasça em uma forma mais elevada. Essa é a forma de ver a vida após a morte de uma maneira mais leve. Não podemos negar que esse fato tenha grande importância em como sociedades orientais encaram a morte. Além disso, no Oriente eles tendem a ficar mais confortáveis com o corpo, um tipo de relacionamento pós-morte com o corpo.

Há maneiras muito diferentes de como as pessoas lidam com a morte e quando você vê essas formas tão distintas da sua, eu espero que isso abra sua cabeça.

Mas, como você mostra em seu livro, o México é um país muito católico e encara a morte de uma maneira diferente da maioria dos países ocidentais...

É verdade. Eu acho que essa relação acontece muito em países em que a tradição católica espanhola acabou se misturando com antigas crenças de povos indígenas, como na América Latina. É curioso como esses povos indígenas trazem a ideia de manter crânios em suas casas, de adorar crânios. Na Bolívia eles conversam com os crânios e fazem pedidos para eles. E aí a igreja católica diz: ‘Não. O que você está fazendo? Isso é ruim. É errado’. Olha só quem está falando! A Igreja Católica venera ossos de santos em catedrais há séculos. Ah, vá. Menos. Eles adoram ossos também. É fascinante e eu acho que não há nada de errado em interagir com ossos. Não acho que os católicos estejam errados. Tudo bem que você não queira exibir o crânio de alguém, mas deve se respeitar quem lida com a morte dessa forma tão franca como esses indígenas.

Recentemente tive de buscar o serviço de agentes funerários e a forma como eles lidam com quem precisa de seus serviços pareceu, para mim, mais como se estivesse lidando com vendedores de carros querendo empurrar modelos mais luxuosos, com mais acessórios. Sempre tentando achar algo para se cobrar mais em um momento tão delicado. Em que ponto essa forma tão fria e comercial de oferecer esse tipo de serviço se tornou o “normal”? Como essa visão afeta a nós como sociedade?

Nos afeta de uma maneira muito ruim e diz muito sobre nossa sociedade atual. Para mim, os serviços funerários tinham de funcionar como um política de saúde pública, para todos. Tudo muito sólido e correto. Que o básico para uma cerimônia minimamente decente estivesse garantido para todos. Se você quisesse algo mais exclusivo, aí sim procuraria uma empresa que fornecesse algo a mais cobrando um preço justo pelo serviço. Nós não temos isso nos Estados Unidos. Mas há também essa cultura de silêncio sobre a morte, e isso ajuda a proliferar esse tipo de tratamento frio e comercial com relação à morte. As pessoas não querem falar sobre a morte. Não conversam sobre esse assunto como algo corriqueiro, querem resolver tudo o mais rápido que puder, se envolvendo o mínimo possível.

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Livro de Caitlin Doughty lançado no Brasil em junho.

Qual foi sua primeira experiência com a morte?

Me lembro de algumas coisas quando era criança, mas a minha primeira grande experiência com a morte foi em um shopping center local, quando tinha uns 8 anos. Eu vi uma criança caindo de uma sacada bem alta. Eu estava bem perto e ouvi o som do corpo batendo no chão. Nunca tinha pensado muito na morte antes disso. Mas, de repente, ela se tornou algo muito real para mim. O fato de que alguém pode morrer a qualquer momento. Passei a perceber que meus pais poderiam morrer, meu cachorro poderia morrer, meus amigos poderiam morrer, que eu poderia morrer. Foi um medo real da morte que eu experimentei naquele momento. Por um lado foi muito difícil lidar com aquilo, mas por outro foi algo que acabou me levando a dar o primeiro passo na direção de quem eu sou hoje. Mas ninguém conversou muito comigo sobre aquele incidente, porque a morte é um assunto tão tabu. Ainda mais para um criança. Acho que imaginavam que falar comigo sobre aquilo me deixaria traumatizada.

Você acha que falar abertamente sobre a morte é libertador, mesmo para uma criança?

Claro que eu não acho que seja legal uma criança ficar exposta a uma morte violenta como a que eu vi, mas acho que nossa cultura não trata do assunto com as crianças de uma forma franca. Por que não explicar a uma criança o que realmente aconteceu com sua avó quando ela pergunta por que ela está naquele caixão? Por que dar apenas uma resposta tipo ‘ela está no Céu cercada de anjinhos’? É como sexo. Nós podemos tirar as dúvidas das crianças sobre sexo de uma maneira natural. Eles conseguem lidar com isso. Assim como falar sobre a morte. Eles conseguem lidar com isso.

Quando você teve a ideia de escrever Para Toda Eternidade e quando você começou a escrever o livro?

Quando eu escrevi meu livro anterior, Confissões do Crematório, ele é em grande parte sobre os Estados Unidos, sobre minha experiência. E eu odeio o fato de que as pessoas nos Estados Unidos - e, para ser justa, em outros lugares também - julgam tanto os rituais de morte dos outros. Como o que acontece em uma ilha da Indonésia em que as pessoas expõem corpos mumificados de seus parentes, os limpam e andam com eles por seu vilarejo. Os apresentam a outras pessoas, a parentes que não os conheceram em vida. Aí alguém vê algo sobre isso em um post em uma rede social e faz comentários de como aquilo é nojento, é errado. Tipo: ‘por que não os deixam descansar em paz?’. Esse julgamento não cabe a você fazer. E eu espero que esse livro ajude as pessoas a olhar além de suas próprias experiências. Há maneiras muito diferentes de como as pessoas lidam com a morte e quando você vê essas formas tão distintas da sua, eu espero que isso abra sua cabeça.

Tratar do assunto de um jeito mais descontraído é uma maneira de deixar as pessoas mais confortáveis a entrar na conversa sobre morte.

Nos seus livros você usa muito do humor para falar sobre a morte, e isso pode incomodar muita gente. Você já sofreu algum tipo de represália por lidar com esse assunto que é tão tabu por aqui de uma forma tão descontraída?

Por leitores, nunca. Por pessoas no negócio de funerárias, sim, às vezes. Mas o público em geral, não. Porque as pessoas se sentem gratas por alguém falar sobre isso. Porque o humor transforma esse assunto em algo que é OK falar sobre. Se o humor que eu coloco em meus livros fosse: ‘Haha, esse cara era gordo’, tirando sarro dos corpos, isso seria ridículo e desrespeitoso. Espero nunca fazer algo do tipo. Eu tiro sarro é da ‘indústria da morte’ ou da negação da morte, sobre a visão capitalista da morte. Uso o humor como uma crítica a essas coisas. Tratar do assunto de um jeito mais descontraído é uma maneira de deixar as pessoas mais confortáveis a entrar na conversa sobre morte. Se eu falasse de um jeito muito sério e carrancudo sobre a morte, ninguém gostaria de falar sobre isso comigo. Ver a graça que existe em tudo, até na morte, é uma maneira de levar esse assunto a mais pessoas. Quem fica ofendido com o jeito que eu escrevo são apenas as pessoas muito conservadoras das empresas que prestam serviços funerários.

Qual foi a experiência que você relata em Para Toda Eternidade que mais te surpreendeu?

Acho que a que mais surpreendeu, mesmo sendo muito aberta a qualquer experiência dentro desse tópico, foi a da Indonésia. De ver múmias sendo carregadas pelas ruas. Como uma que usava óculos escuros e um relógio novo, vestindo uma camisa havaiana. De ver as pessoas limpando os corpos e ver baratas saindo dos corpos. Mas também teve a da Bolívia, ao entrar em um quarto cheio de crânios em que as pessoas ofereciam coisas como coca-cola para eles. Foram situações em que senti uma certa estranheza, mas apenas porque eram coisas novas para mim. O curioso é que essa sensação só veio depois, porque quando você está lá, com todo mundo lidando com aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo, eu senti como se aquelas situações fossem realmente coisas bem corriqueiras. Como se você estivesse em um churrasco com sua família. Na hora, quando vi pessoas tirando selfies com a múmia de seu tio, pensei apenas: ‘bom, isso é apenas um ritual deles’. Não me senti estranha na hora. Sentir isso foi a coisa mais surpreendente para mim. Ver rituais como aqueles como coisas corriqueiras e nada transgressoras.

Qual foi a experiência que mais te tocou?

Muitas coisas me tocaram, mas a experiência que tive com Katrina Spade, que faz uma importante pesquisa sobre compostagem humana, me emocionou. Esse processo foi legalizado no estado de Washington. Agora temos esse novo método de transformar um corpo em solo fértil. Fui a um lugar em que se fazem testes com corpos doados para propósitos científicos que eles chamam de ‘fazenda de corpos’. Pude estar lá com Katrina e ver que o processo é cientificamente comprovado. Que esse processo é possível e viável como uma nova forma de depositar um corpo em harmonia com a natureza. O corpo vira solo fértil que você pode colocar em um jardim, por exemplo. Algo muito bonito e que é muito mais amigável com o meio ambiente. Isso é legal apenas em Washington por enquanto, mas quem sabe mais para frente? Estar presente desde o começo desse processo foi bem emocionante para mim. Algo muito poderoso.

Em Confissões do Crematório você menciona um ritual de uma tribo brasileira chamada Wari, dos costumes canibais deles. Por que você não incluiu o Brasil em Para Toda Eternidade?

Bom, ainda há outros livros para escrever [risos]. Na verdade eu gostaria de ir a todos os países do mundo para ver seus rituais de morte. Mas essa passagem pelo Brasil pode ser um primeiro passo para colocar o país na rota de um outro livro. Eu gostaria muito.