Como a fake news da morte de um influenciador expõe a gordofobia em sua pior faceta

“No início eu pensei ‘só inventaram a minha morte’. Só que hoje tenho o entendimento que foi um crime de gordofobia com requintes de crueldade”, afirma Caio Revela.

Imagine só um dia acordar com a notícia de que você morreu. Com seu nome estampando notícias em portais, indo parar nos assuntos mais comentados do Twitter e com dezenas de mensagens de amigos e familiares no seu celular querendo saber se você está bem. Enquanto sua mãe está em dúvida, no WhatsApp dela já está o convite para seu enterro, com endereço, horário e data marcada.

Não estamos falando de um roteiro de filme em que, de repente, você percebe que tudo é um sonho e uma grande aventura vai acontecer. Isso aconteceu de verdade, e virou o mundo do stylist, influenciador e ativista Caio Revela, de 31 anos, de cabeça para baixo.

Na manhã da quarta-feira, 5 de agosto, circularam prints de notícias falsas de sites como PopLine e Catraca Livre que diziam que o influenciador teria morrido no hospital Albert Einstein em São Paulo devido a problemas relacionados com a obesidade. O termo #RIPCaioRevela foi parar nos Trending Topics do Twitter.

Também circularam no Twitter supostos prints de um grupo de Facebook chamado LDRV (Lana Del Rey Vevo) que mostravam usuários combinando uma mobilização para espalhar o boato da morte de Caio. O criador do grupo, Kaerre Neto, afirmou que as postagens aconteceram em outro grupo, formado por membros expulsos do grupo original por não respeitarem regras como não propagar discurso de ódio ou preconceitos. Ele também prestou solidariedade a Caio nas redes.

“Foi muito assustador para mim acordar e ver essa notícia. Não é nem uma questão só pra mim, isso impactou a minha família, os meus amigos, as pessoas mais próximas. Minha mãe é hipertensa, a pressão dela estava super alta quando falou comigo. Uma prima minha que me ligou está grávida, em uma gravidez de risco”, contou Caio em entrevista ao HuffPost uma semana após o caso.

Caio é militante da causa LGBT e defende o movimento body positive. Em cerca de uma hora de conversa por telefone, ele explicou que o caso não foi um ataque isolado de ódio. Caio diz que recebe mensagens de ódio e bullying nas redes sociais, seu local de trabalho, todos os dias. “Eu vou acabar de conversar aqui com você, vou pegar o celular, vou abrir o Instagram e vai ter um monte de mensagem de ódio.”

Dessa vez, no entanto, ele diz que ficou muito surpreso com o nível das agressões. “Foi muito cruel, eu ainda estou absorvendo tudo que aconteceu. Eu nem sei dizer como estou. Cada dia que passa parece que vai caindo um pouco mais a ficha. No início eu estava assim: ‘ah que isso, só inventaram a minha morte’. Só que hoje eu tenho o entendimento que isso foi um crime de gordofobia com requintes de crueldade.”

Leia abaixo os principais trechos de nossa conversa, em que falamos sobre ataques de ódio, a luta antigordofobia e a saúde mental de produtores de conteúdo de militância nas redes sociais.

HuffPost Brasil: Como você está, uma semana depois de sua morte ter sido noticiada nas redes?

Caio Revela: Honestamente eu não tive tempo nem de dar uma chorada. O mais tenso pra mim é que, até hoje, tem gente achando que eu morri realmente. Ainda estou recebendo mensagens no Instagram me perguntando se eu estou vivo mesmo. E, do lado oposto, ainda hoje tem gente triste porque era fake news, querendo a minha morte. A gente fala hoje em dia de fake news e acha que é uma coisa muito distante, que vai acontecer com outros. Foi muito difícil pra mim. Depois que isso tudo acabar eu vou sentar e dar uma boa chorada.

Como sua família reagiu a tudo isso?

Foi muito assustador. Minha mãe é hipertensa, a pressão dela estava super alta quando falou comigo. Minha prima que falou comigo está grávida, em uma gravidez de risco. Gente que estudou comigo, professores, gente que passou pela minha vida. Todo mundo me mandou mensagens.

Eu fico imaginando se a minha mãe realmente tivesse passado mal, como que eu iria ajudar ela. Imagine se ela vai pro hospital por passar mal e pega covid lá? É uma série de coisas que vai passando pela minha cabeça.

O ruim é que ainda aconteceu de madrugada. Se fosse durante o dia, eu teria feito um stories pra dizer que estava vivo. Mas começou às 23h e foi até 9h. Calhou desse dia eu não ter feito muitos stories, então as pessoas entraram e acharam que eu tinha morrido mesmo.

Você conhece a pessoa que começou isso ou tem ideia de quem pode ser?

Eu não sei quem é a pessoa, não faço ideia de quem seja. Mas pra mim tanto faz, recebo ódio de tanta gente, que pra mim tanto faz. Honestamente eu nem sei onde começou. Passei pra minha equipe jurídica, que começou a analisar o caso.

A pessoa pegou uma foto de um cara gordo numa maca, provavelmente daquele programa Quilos Mortais, e colocou a imagem em um print. O triste é que a causa da minha morte teria sido obesidade. A todo instante as pessoas já esperam isso. É justamente sobre isso que eu falo na internet. Muita gente falando ‘tá vendo só como ele é maluco mesmo?’. Eu ‘morri’ daquilo que eu falo, eu poderia ter morrido de qualquer coisa, de leptospirose, se quisessem.

E por que você acha que te escolheram para fazer este ataque?

Tem gente que odeia gente gorda na internet, essa é a realidade. E teve muita gente comemorando a minha morte. Vários haters entraram no meu perfil do Instagram, na última foto que eu postei antes da notícia fake sair, para afirmar que eu tinha morrido. Está tudo lá para quem quiser ver e não achar que eu estou inventando. Por que as pessoas odeiam tanto gente gorda? Quando eu estou no Instagram e vejo uma foto que eu não gosto, eu simplesmente passo. Eu não vou lá comentar e chamar a pessoa de Jamanta.

Então você é alvo de comentários do tipo com frequência?

Hoje no meu Twitter, se eu der “bom dia”, as respostas são sempre o próprio esgoto. Eu quero ver as mensagens positivas, mas são tantas mensagens negativas e de ódio... Pior é quando você entra no perfil de uma pessoa que te manda mensagens de ódio e ela também é uma minoria, LGBT – é muito difícil ler isso. A pessoa que fez isso é LGBT também.

Meu conteúdo nunca foi sobre ódio, sempre foi sobre empatia, amor, você conseguir mudar a relação que você tem com você mesmo. E é muito triste isso. Eu espero acolhimento da comunidade LGBT. Muita gente até esquece que eu sou gay. A pessoa está falando de união, acolhimento e empatia, e está postando que quer que eu morra.

“Tem dia que eu estou debochado. Eu entro, respondo todo mundo, não quero nem saber. Mas tem dia que eu estou o próprio cocô, estou muito mal. As pessoas não falam só de mim, elas falam da minha mãe, do meu namorado, até do meu cachorro. Já disseram até que eu iria comer o meu cachorro, é nesse nível”

E como as plataformas das redes sociais te ajudam com essas mensagens de ódio? Há algum suporte para os produtores de conteúdo?

Eu acho que as plataformas deveriam ter políticas mais fortes em relação a isso [leia mais abaixo]. A gente faz uma denúncia no Instagram e nada acontece. E a gente está produzindo conteúdo que, para a plataforma, também é importante estar ali. Eu me sinto muito inseguro. Eu já deixei de postar várias coisas com medo de receber muito ódio.

É o momento de a gente se proteger e as plataformas fazerem alguma coisa. Eu não posso postar uma coisa no Instagram e não ter uma resposta nunca. Acho que isso foi muito o sentimento das pessoas. Pra que existe isso aqui se não funciona, se demora dessa forma? A vontade que dá é simplesmente parar.

Eu sou verificado no Twitter e isso ajudou muito. O Twitter é uma rede que sempre me apoiou e rapidamente tiraram o conteúdo. O Instagram e o Facebook, nada. Há uma demora pra analisar o que acontece. Foi uma pessoa que postou em um grupo, mas depois tinham várias outras postando. E a pessoa que fez isso não estava esperando essa proporção toda. Foi até um alerta para saberem que nós não estamos sozinhos.

Explique mais sobre isso. Deve ser muito difícil trabalhar o tempo todo contando com esses ataques todos os dias.

Eu fico sempre pensando: ‘será que eu realmente tenho que passar por isso?’ O que precisa de fato acontecer para as pessoas entenderem que gordofobia não é piada e para as pessoas validarem a nossa luta? E eu não estou falando só de haters, estou falando de todo mundo. Não sei porque o corpo de uma pessoa incomoda a este ponto.

O meu trabalho tem muito isso: a importância de não falar do corpo de outra pessoa. Nunca é sobre ódio. Eu falo sobre aceitação corporal, como a relação com o meu corpo mudou. As pessoas que tentam combater isso falam que eu fico glamourizando e faço apologia à obesidade. Nunca foi sobre isso. Nunca mandei ninguém engordar. Eu falo sobre como a relação com o meu corpo mudou. Nunca foi sobre engordar ou emagrecer, é sobre respeitar o corpo que você tem hoje.

Eu sou formado em moda, dá vontade de falar: só vou fazer ti-dye e cropped e ficar em paz. Tem gente que pede pra eu postar meus exames pra provar que eu sou saudável.

Pedem para você postar exame médico?

O corpo gordo na internet é de domínio público. Todo mundo acha que tem que falar alguma coisa, dar opinião e humilhar a pessoa. Ninguém chega pra uma pessoa magra no Instagram e pergunta como está o colesterol dela. A pessoa chega a essa conclusão só olhando uma foto.

Eu sei que minha imagem impacta pelo fato de eu usar maiô, cropped, pelo fato de eu viver. Mas o que a minha imagem muda na vida dela? E eu acho que a pergunta que fica é o que muda na sua vida se a pessoa está usando maiô ou cropped, se está se amando? Você deixar de fazer suas coisas? Só que a pessoa acaba entrando nesse lugar de julgamento. As pessoas são gordofóbicas e não têm vergonha de serem.

“O corpo gordo na internet é de domínio público. Todo mundo acha que tem que falar alguma coisa, dar opinião e humilhar a pessoa”

Você comentou que já pensou em parar. Você acredita que tem gente que deixa de publicar muita coisa na internet simplesmente pela quantidade de ódio que vai receber? Podemos estar perdendo produtores de conteúdo incríveis?

Eu conheço várias pessoas que já desistiram de produzir conteúdo justamente por causa disso, e cada pessoa recebe de uma maneira diferente. Infelizmente eu sinto que a pessoa acaba se acostumando com aquilo. Tanto que, pra mim, foi difícil entender e cair a ficha do que tinha acontecido comigo.

Eu tenho certeza que criadores talentosos com discursos potentes param ou diminuem o que produzem justamente para evitar esse tipo de situação. Ontem mesmo eu pensei em postar uma foto minha de sunga, mas pensei ‘mano, se eu postar vou receber ódio’. E eu uso as ferramentas que o próprio Instagram fornece como bloquear palavras, mas não dá conta.

“Já fizeram bolão na internet pra tentar acertar com quantos anos eu iria infartar. Sério, já fizeram um bolão com mais de 5.000 comentários. É triste ver que existem pessoas cruéis assim nesse ponto. Essa luta antigordofobia não é uma luta só minha”

Como está a sua saúde mental em meio a esse momento tão complicado?

Eu tenho vivido esses dias com muita ansiedade, de acordar e, de repente, ter outra bomba dessa. Eu acordo todo dia, faço uma lista de coisas que tenho que fazer e estou tentando ao máximo ficar fora da internet, do celular, estou evitando olhar um pouco as redes. É algo que tem me deixado um pouco ansioso. Estou tentando entender que isso diz mais sobre as pessoas que fizeram isso do que sobre mim, e que, infelizmente, não tem como a gente prever isso.

O apoio é muito importante, porque sempre temos a sensação de que estamos falando sozinhos. É importante ter pessoas aliadas na luta antigordofobia. Acreditar e lutar pelo que a pessoa está falando. Fica o exercício pra mim, de entender que o ódio dessas pessoas é contra a minha luta, não contra mim, especificamente. A pessoa odeia pessoas gordas. É isso que eu tento entender, mas tem dia que é difícil. Tem dia que só dá vontade de não aparecer, de parar. Cansa.

E o que você diria para produtores de conteúdo como você se protegerem de ataques e mensagens de ódio?

A gente precisa falar muito da saúde mental de produtores de conteúdo na internet. É preciso entender que o ódio não é para você, indivíduo, não é pra mim, Caio. É o que eu represento. Isso ajuda a entender. Se não tivesse incomodando, não teria feito tanto efeito. Além de terapia, eu converso com pessoas próximas, que trabalham na mesma coisa. Eu tenho uma rede de apoio, eu acho importante ter uma rede que vai se ajudando. Isso me fortalece muito.

Esse é um ano de baixas expectativas, a única coisa que eu tenho é a vacina, mas isso realmente me pegou muito de surpresa. Todos os dias eu acordo e acabo absorvendo outra coisa. As pessoas perguntam como eu estou e eu não sei nem responder. Eu sei que bem eu não estou. Eu tenho tido muitas dores de cabeça, tenho perdido o apetite, eu tenho muita ansiedade. Até eu conseguir me encaixar e me inserir nessa rotina. Toda vez que eu abro o WhatsApp, eu tenho que respirar antes.

‘Precisamos de uma mudança cultural’

O caso do Caio foi muito grave, mas como ele mesmo pontuou em diversos momentos da entrevista, não se trata de algo isolado. De acordo com Bruna Santos, membro da Coalizão Direitos na Rede, casos do tipo precisam de atenção e análise específica. No Brasil, discursos de ódio podem ser considerados crimes pela lei, como no caso de racismo e homofobia, e ainda crimes de injúria e difamação, previstos no Código Penal.

“A disseminação do discurso de ódio é um evento que pode ocorrer de diversas formas – desde uma piada de mau gosto que reforce estereótipos contra grupos LGBTs ou contra pessoas gordas até grupos organizados para propagar esse tipo de conteúdo alinhado em fóruns anônimos ou grupos neonazistas”, afirma Santos.

Ela, que acompanhou o caso do stylist pelas notícias e pela repercussão nas redes sociais, pontua que “Caio é claramente um influenciador que dá voz a pautas de minorias”, e que “o cenário político atual tem, cada vez mais, incentivado o avanço de pautas conservadoras que são diametralmente opostas aos temas que influenciadores como o Caio pautam”.

Santos também defende que as redes sociais tenham políticas mais efetivas de moderação de conteúdos ofensivos. “Apesar dos esforços já adotados por essas plataformas, ainda há muito a se discutir. Desde canais mais claros e efetivos para a denúncia de conteúdos, direito de contraditório para os usuários, até políticas de moderação mais definidas e proibição de impulsionamento de posts propagadores de discurso de ódio.”

Para se proteger de ataques do tipo, ela acredita que precisaríamos de uma verdadeira mudança cultural e de postura das pessoas na rede, mas enquanto isso não acontece, recomenda maior segurança ao estar nas redes sociais.

“Eu não sei se é possível nos defendermos desses tipos de ataque ainda. Ou melhor, para que esses ataques parem de acontecer precisamos de uma mudança cultural que continue apontando os erros na propagação do discurso de ódio. E que chame a atenção para os riscos que a disseminação desses conteúdos gera.”

Ante a existência dos ataques, é importante reforçar a segurança das nossas contas em redes sociais, como a adoção de senhas mais fortes, verificação em dois fatores e até considerar ter contas com acesso restrito. Ah, importante não alimentar os trolls também - responder a esse tipo de ataque acaba dando mais munição para que essas redes continuem propagando o discurso abusivo.

Posicionamento das plataformas

O HuffPost Brasil entrou em contato com o Twitter e o Facebook para entender como eles se posicionam em relação aos ataques de ódio nas redes sociais dirigidos para grupos ou pessoas.

O Twitter afirma que tem regras que determinam os comportamentos na plataforma e busca trabalhar constantemente para que as pessoas se sintam mais seguras.

O Facebook, responsável também pelo Instagram, informou que oferece para os usuários ferramentas como filtros e restrições de comentários e mensagens, e que todo conteúdo denunciado no Instagram é analisado por uma equipe que trabalha 24 horas por dia, 7 dias por semana, para checar se as denúncias devem ser retiradas da plataforma. Em comunicado, afirmou que trabalha para que todas suas plataformas sejam um ambiente “onde todos se sintam seguros e respeitados”.

Leia na íntegra a resposta do Twitter para o HuffPost Brasil:

“O Twitter tem regras que determinam os conteúdos e comportamentos permitidos na plataforma. Violações a essas regras, que seguem em constante evolução para fazer com que as pessoas se sintam mais seguras ao usar a plataforma, estão sujeitas às medidas cabíveis. Vale lembrar que, por ser uma plataforma pública, aberta e em tempo real, o Twitter possibilita que pessoas de diferentes opiniões, ideologias e posicionamentos tenham a oportunidade de apresentar seus pontos de vista e acessar diversas perspectivas de um mesmo assunto. Essa natureza da plataforma contribui para que todas as pessoas possam ver, apontar, esclarecer e contrapor informações inverídicas, imprecisas ou indesejáveis em tempo real”.

Leia na íntegra a nota do Facebook para o HuffPost Brasil:

“Queremos que nossas plataformas sejam um ambiente onde todos se sintam seguros e respeitados. Por isso, temos políticas que vedam conteúdos com discurso de ódio, bullying ou assédio. Investimos em tecnologia de inteligência artificial e revisores humanos para identificar e remover conteúdo que viole nossas políticas, e contamos com a nossa comunidade para denunciar tais conteúdos.”