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24/09/2019 18:22 -03 | Atualizado 24/09/2019 18:32 -03

‘Um dia de terror’: A reação de povos indígenas ao discurso de Bolsonaro na ONU

Representantes indígenas reagem a ataques de Bolsonaro ao Cacique Raoni e comparam discurso com retórica usada na ditadura.

Anadolu Agency via Getty Images

O presidente Jair Bolsonaro optou por reverberar a retórica que utiliza no Brasil ao tratar da temática indígena e ambiental no maior palco do mundo nesta terça-feira (24), quando discursou na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Os ataques que dirigiu ao Cacique Raoni, conhecido internacionalmente pela atuação em defesa dos povos originários, bem como as afirmações sobre queimadas e desmatamento na Amazônia não ficaram sem resposta. 

Em Nova York mesmo, poucas horas após a fala do mandatário, quatro representantes indígenas que integram a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), se manifestaram. São eles: Dinamam Tuxá, Sonia Guajajara, Cris Pankararu e Artemisa Xakriaba. O próprio Cacique Raoni, alvo do presidente, era aguardado, mas segundo a Apib, sentiu-se mal. 

Sonia Guajajara classificou esta terça como “um dia de terror”, em que o presidente “manchou a história do Brasil na ONU”, disseminando “intolerância” e “truculência”.  

“Muitas vezes alguns desses líderes, como o Cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”, disse o presidente. 

Segundo Gajajara, essa prática de dizer que os povos indígenas são usados era comum na ditadura. “Não estamos sendo usados por ninguém, estamos atendendo o clamor da mãe terra”. 

Aos 89 anos, o Cacique Raoni, do povo caiapó, é o líder indígena mais conhecido no mundo. Ele se encontrou com o Papa Francisco em maio e também com o presidente francês, Emmanuel Macron. Em reconhecimento à sua luta, a Fundação Darcy Ribeiro propôs a candidatura do cacique ao Prêmio Nobel da Paz de 2020, fato que Sonia Guajajara também lembrou. 

Em sua fala, o presidente deixou clara a intenção de não ampliar as demarcações. Para o grupo, ele defende a ideia de que não há integração entre os povos indígenas para não demarcar terras. 

Bolsonaro frisou ainda a intenção de expandir áreas de exploração de minérios, mesmo em regiões de reservas indígenas. “O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas. Especialmente das terras mais ricas do mundo. É o caso das reservas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol. Nessas reservas, existe grande abundância de ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras, entre outros.”

Os representantes indígenas criticaram também Ysani Kalapalo, a indígena que integra a comitiva presidencial e à quem Jair Bolsonaro fez questão de cumprimentar durante seu discurso no palco da ONU. “Nós, povos indígenas no Brasil, somos diversos, são 305 povos (Bolsonaro afirmou que há 225). Não podemos exigir que todos tenham o mesmo pensamento. Ela pode ser alguém que representa o governo dela, não os indígenas”, afirmou.

Natural da aldeia Tehuhungu, no Parque Indígena do Xingu (MT), Ysani Kalapalo foi alvo de uma nota de repúdio de 16 povos indígenas do Xingu. 

“O governo brasileiro ofende as lideranças indígenas do Xingu e do Brasil ao dar destaque a uma indígena que vem atuando constantemente em redes sociais com objetivo único de ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena do Brasil”, destaca o texto.

Amazônia e desmatamento

Também foram criticados os trechos do discurso em que Jair Bolsonaro tratou de Amazônia, quando mais se preocupou em dizer que as informações constantes na imprensa são mentirosos e que França e Alemanha, ao contrário do Brasil, usam mais da metade de seus territórios para agricultura. 

Para o Observatório do Clima, o presidente reforçou o “divisionismo”e o “ecocídio”. Para a entidade, o mandatário preferiu não tranquilizou investidores nem aplacou “o clamor crescente por boicote a produtos brasileiros”, colocando assim em risco o “agronegócio que diz defender”.    

O Greenpeace Brasil corroborou as críticas. Afirmou que o presidente tentou “vender um Brasil que não existe”. Jair Bolsonaro disse, logo no início de sua fala, que apresentaria um “novo Brasil”.