05/03/2019 00:00 -03 | Atualizado 05/03/2019 00:00 -03

A trajetória de amor e luta de Maria Aliano, a Caboclinha do Salgueiro

Filha de um dos fundadores da agremiação, ela nasceu e foi criada no Morro do Salgueiro.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Maria Aliano, a Caboclinha do Salgueiro é a 363ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Foi aos 14 anos que Maria Aliano viu surgir o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. Nascida no morro homônimo e filha de Birolha, um dos fundadores da escola e mestre de bateria na ocasião, ela cresceu no mundo do samba. Naquela época já era a Caboclinha. Hoje, aos 79 anos, ela é a Caboclinha do Salgueiro, porque, segundo ela mesma conta, não existe sem o Salgueiro. E há quem diga que também não existe Salgueiro sem Caboclinha. À frente da Velha Guarda da agremiação há 12 anos, ela desfilou com todo o amor que tem na noite do dia 3 de março pela vermelho e branco.

O Salgueiro é o grande amor, a paixão e a loucura da minha vida.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Caboclinha também fundou, com sua irmã, Mocinha, e Jorge Cardoso, o grupo musical da Velha Guarda.

No Salgueiro, Caboclinha já foi baiana, compositora e rainha. Convidada para ser rainha de bateria, recusou: “Por causa da roupa. Era maiô, e às vezes era um biquíni alto que deixava dois dedos de barriga”, explica. Fora as funções que desempenhou na necessidade, como passista. O próximo passo é entrar numa aula de música, para aprender a tocar além do afoxé “que toca muito mal”, segundo ela.

Caboclinha também fundou, com sua irmã, Mocinha, e Jorge Cardoso, o grupo musical da Velha Guarda, para reunir cantores e compositores históricos da escola de samba: “Enquanto minhas pernas aguentarem, eu vou estar ali”, afirma, enquanto enumera por onde já passou dentro da escola.

Nos anos 1980, junto com o grupo, ela fazia apresentações vestida com uma calça comprida, pois não havia orçamento para criar modelitos diferentes para os homens e as únicas duas mulheres que faziam parte do grupo. Antes disso, ainda na adolescência, foi a primeira mulher a vir à frente da escola com as pernas de fora. “Não teve burburinho, poderia vir de calça comprida ou da forma que fosse, só não podia deixar de brincar. O foco era brincar, então ninguém reclamava de nada”, contextualiza. Em todos esses anos, nunca deixou de desfilar, nem após o nascimento da filha, que nasceu em um dezembro.

Enquanto minhas pernas aguentarem, eu vou estar ali.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No Salgueiro, Caboclinha já foi baiana, compositora e rainha

Além da filha, Caboclinha também tem dois netos e dois bisnetos (a terceira está para chegar até o fim do Carnaval), todos criados embalados pelo samba, mas o Salgueiro não é uma unanimidade. Isso, claro, não é problema. A rivalidade, explica ela, não é uma marca forte, já que o Carnaval é feito para diversão. “Se algo aconteceu ou acontece de ruim, de falar mal, eu deixo lá onde aconteceu. Não vou trazer para minha casa aquilo que não é dela, principalmente coisas ruins”, pondera dona Caboclinha.

Críticas que ouviu muito, na juventude, vinham das mães de suas amigas. Elas diziam que Caboclinha não era boa companhia para suas filhas, pois era “envolvida com escola de samba”, mas isso nunca a abalou. “Nunca liguei. Eu ligo pra mim, me amo e me adoro. Sou e sempre fui feliz assim, e o que me importa é isso”, afirma.

O foco era brincar, então ninguém reclamava de nada.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Além da filha, Caboclinha também tem dois netos e dois bisnetos (a terceira está para chegar até o fim do Carnaval). E todos são Salgueiro.

Quem entra na casa dela, na região da Grande Tijuca, não demora mais do que três segundos para descobrir que é o ambiente que guarda uma exímia salgueirense. Quadros na parede, sofá e toalha vermelho e branco, e o nome Salgueiro espalhado pelos quatro cantos. Além da decoração, Caboclinha também guarda recortes de jornal, fotografias, letras de samba e tudo o mais que conte a história daquele que é o grande amor de sua vida.

“Amo minha comunidade, amo o meu Salgueiro. Foi ali que eu aprendi tudo, tudo que sei, foi ali que fui feliz, criei minha filha e ajudei a criar meus netos. E a influência do Salgueiro é a alegria que ele passava pra mim. O Salgueiro curava minhas feridas, e isso me permitia ser mais forte para a minha família. Ali era e é minha casa de divertimento, que me fazia renascer para eu lutar pela minha vida aqui fora”, relembra a sambista.

Sou e sempre fui feliz assim, e o que me importa é isso.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Mas enquanto atravessa a Passarela do Samba, cheia de vigor e felicidade, ela carrega o vermelho e branco onde e enquanto puder.

Característica comum de sambistas, o acolhimento na casa de Caboclinha também é inigualável. Sempre com um sorriso aberto, ela conta suas histórias e reclama que, às vezes, não lembra de tudo. Entre uma pergunta e outra, o telefone, que não é smartphone, toca. Às vezes é uma confirmação de entrevistas, outra é um componente da Velha Guarda que, doente e sem condições de desfilar, pede para que a presidente guarde sua fantasia. Ninguém fica sem resposta. “Meus amigos são os mesmos, minha alegria é a mesma. Estou sempre alegre, não arrumo problema com ninguém”, justifica o assédio, enquanto fala com doçura e certa agilidade.

Depois de tanto rodar dentro da escola de samba, uma dúvida comum é saber se Caboclinha deseja se envolver com a política do Carnaval? E a resposta imediata é: “Deus me livre!”, e completa: “Passei por todos os presidentes, sem problemas. Eu quero ser Salgueiro, não me meto em política. Sou humilde, nunca me meti com política. Por que fazer isso agora no final da minha vida eu vou passar por isso?”, indaga.

 

Foi ali que eu aprendi tudo, tudo que sei, foi ali que fui feliz, criei minha filha e ajudei a criar meus netos.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"E se depender de mim, vou ficar rouca, rebolar o que posso e o que não posso para que a gente ganhe este ano.”

Nas suas atividades rotineiras que envolvem o Salgueiro, Caboclinha não esquece de Birolha. Ela lembra que o pai era muito animado, e que botava a comunidade toda para cima. Ela reconhece que o Salgueiro é uma herança, e a mais importante que ele poderia ter deixado. Tanto amor e cuidado com a escola é a motivação dela dizer que há, sim, possibilidade de não desfilar um dia: “Não vou sair me arrastando, não. Como sou apaixonada por mim mesma, não vou para lá para alguém me segurar. Se for assim, fico vendo meu Salgueiro pela televisão. Enquanto Deus permitir, estarei lá”, decreta.

Mas enquanto atravessa a Passarela do Samba, cheia de vigor e felicidade, ela carrega o vermelho e branco onde e enquanto puder: “O samba é bom pra caramba. Te dá alegria, te dá vida. E o Salgueiro é o grande amor, a paixão e a loucura da minha vida. E se depender de mim, vou ficar rouca, rebolar o que posso e o que não posso para que a gente ganhe este ano.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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