COMPORTAMENTO
12/05/2019 00:00 -03

Estas mães encontraram no cabelo crespo das filhas uma ferramenta de empoderamento

Aprenda com estas famílias multirraciais.

Courtesy Kim Etheredge
Kim Etheredge quando bebê, com seus pais.

Os cuidados com o cabelo natural representam uma nova indústria e um território novo, mesmo para os cabeleireiros mais hábeis.

Apenas nos últimos 10 anos surgiram produtos e tutoriais no YouTube para mulheres com cabelos crespos. Mesmo para quem está equipada com esses recursos, aprender a cuidar de cabelos texturizados é uma jornada que a maioria das mulheres negras precisa enfrentar sozinha.

Nossa sociedade ainda se aferra aos padrões de beleza eurocêntricos, e o cabelo naturalmente crespo, cacheado ou “étnico” é relegado à sua seção própria de uma prateleira nas lojas de cosméticos.

Então, o que fazer se você se enquadra na categoria dos ideais de beleza eurocêntricos, mas seus filhos não?

Kylie Jenner e suas irmãs estão entre as mulheres mais famosas cujos filhos são multirraciais. E, apesar da experiência altamente problemática dessa família com seus próprios cabelos no passado, ela chamou atenção para o fato de que é preciso aprender a cuidar e arrumar os cabelos crespos e cacheados de seus filhos.

Mulheres que não têm experiência nenhuma em cuidar dos cabelos crespos de seus filhos multirraciais podem ficar totalmente perdidas, e isso às vezes deixa as crianças se sentindo (e parecendo) um pouco deslocadas.

O HuffPost conversou com algumas mães sobre como é compartilhar o mundo complexo, mas que é lindo, da criação de filhos multirraciais.

Também conversamos com algumas mulheres negras que aprenderam sozinhas a arrumar seus cabelos afro, porque suas mães não sabiam fazê-lo.

Courtesy Fariba Soetan
Fariba Soetan com suas 3 filhas

Aprender a fazer tranças e outros penteados: 

“Simplesmente aprender a fazer tranças já foi difícil para mim. Achei que eu jamais ia conseguir. Eu sabia fazer tranças, mas fazer as tranças na raiz era outra coisa completamente diferente. Foi uma conquista tremenda quando consegui. Procurei tutoriais no YouTube ensinando como fazer os penteados e fui melhorando a cada dia que passava.”― Fariba Soetan, 39 anos, de Londres, mãe de 3 filhas multirraciais e blogger responsável pelo site Mixed Up Mama

“Foi um desafio, sem dúvida alguma, mas me esforcei ao máximo. As tranças que eu fazia nem sempre eram maravilhosas. Eu não tinha computador nem nada assim. Simplesmente fui tentando sozinha. Ninguém me ensinou, ninguém me mostrou como fazer.” ― Debbi Merinsky-Browne, 47, de Alberta, no Canadá, mãe de uma filha multirracial, Jasmine Merinsky

A relação entre cabelo e identidade:

“Minha filha mais velha tinha 4 anos na época. Ela voltou da escola um dia e disse ‘quero uma mãe que tenha a minha cara’. Foi um momento muito doloroso para mim. Eu, a pessoa que era o maior exemplo para ela, já que sou sua mãe, não tinha as mesmas características físicas que ela, não tenho necessariamente a mesma experiência que ela, e algumas pessoas na rua chegam a questionar se sou a mãe dela.” ― Soetan

Cuidar do cabelo é um momento de convivência mãe-filha: 

“Eu curtia arrumar o cabelo dela porque passávamos algumas horas juntas e conversávamos. Era o nosso momento de ficar juntas e ninguém podia nos tirar isso, porque era muito importante para ela que seu penteado fosse feito.” ― Merinsky-Browne

“Minha mãe trabalhava muito. Às vezes a hora de ela arrumar meu cabelo era a única hora que passávamos juntas sem interrupções. Tentávamos fazer esses momentos ser divertidos. Fazíamos vários intervalos no meio, tipo recreios. Às vezes minha melhor amiga vinha para nossa casa acompanhar o processo e assistir TV. O engraçado foi que minha mãe resolveu nos dar ‘a palestra sobre sexo’ quando estava no meio de fazer minhas tranças. Eu estava basicamente presa ali, não podia sair da cadeira.” ― Merinsky

“O ritual da arrumação do cabelo é uma coisa tão importante entre mãe e filha. Sinto que é uma hora especial em que eu e minhas filhas fortalecemos nossa relação. Elas se sentam entre meus joelhos, a gente conversa, eu faço o cabelo delas. É um tempo que passamos juntas.” ― Soetan

Courtesy Jasmine Merinsky
Debbi Merinsky-Browne e sua filha Jasmine Merinsky

Aprender a arrumar seu próprio cabelo sozinha: 

“Aprendi a arrumar meu cabelo sozinha porque minha mãe não sabia cuidar do meu cabelo. Para minha mãe, um penteado afro grandão era lindo. Quando vi pessoas na escola com o cabelo mais arrumado ou minhas amigas com o cabelo alisado, foi nesse momento que decidi ‘meu Deus, vou ter que fazer alguma coisa com meu cabelo’.” – Kim Etheredge, 48, cofundadora da marca Mixed Chicks de produtos para cabelos crespos

“Minha mãe me entregou a responsabilidade de cuidar do meu próprio cabelo quando eu tinha 16 anos. Ela achou que eu já tinha idade suficiente para tomar decisões sobre minha aparência, mas mesmo assim se recusou a pagar por relaxantes capilares. Foi o início de minha jornada capilar. Eu estava totalmente decidida a alisar meu cabelo, então arrumei um emprego de meio período para poder pagar pelo serviço. Passei a fazer tratamentos térmicos de alisamento durante anos. Fiz isso tantas vezes que acabei aprendendo a fazer em mim mesma.” ― Merinsky 

Criando os filhos sem destacar as diferenças raciais: 

“Adoro o cabelo cacheadinho de minhas filhas e acho que deveria ser destacado, não reprimido. Incentivo as mães brancas a aprender a cuidar dos cabelos de suas filhas. Se você vai ter filhos negros, precisa aprender a cuidar do cabelo deles.” ― Merinsky-Browne

“Se você está tentando criar seu filho seguindo a visão antiga de ignorar as diferenças raciais, acho que esse é o maior erro que você pode cometer. Eu sou de origem mista, iraniana e inglesa, e meus pais não conversaram comigo sobre minha identidade ou sobre as culturas que me compunham. Quero incentivar outros pais a terem essas discussões com seus filhos, também sobre raça e racismo. Especialmente os pais de meninos e meninas negras que estão crescendo nos Estados Unidos. É uma coisa importantíssima para os pais de crianças multirraciais tomarem consciência, porque eles estão percebendo que seu filho vai ter uma experiência de vida completamente diferente daquela que eles próprios viveram.

Se você tenta tratar o cabelo crespo como se fosse igual ao cabelo liso, acho que você está prestando um desserviço não apenas à sua filha, mas às culturas diferentes que compõem a pessoa que ela é.” ― Soetan

Sentir medo ou vergonha de pedir ajuda:

“Muita gente nos telefona ou manda e-mails. As pessoas nos mandam fotos e vídeos. Muitas dessas conversas nem são sobre cabelo – muitas vezes é uma questão de falar a uma mãe que tem cabelo liso que ela é uma ótima mãe e que está cuidando muito bem do cabelo de sua filha. Não podemos imaginar que ela vai nascer sabendo como cuidar desse cabelo.

Não tenha vergonha de fazer perguntas e tenha abertura para aprender. Tudo bem você não saber como cuidar de cabelo afro, se você mesma não tem cabelo assim. Mas é lindo aprender a cuidar desse cabelo para poder ensinar sua filha a fazer o mesmo.” ―Wendi Levy, 49, cofundadora da marca Mixed Chicks de produtos para cabelos crespos. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.