COMPORTAMENTO
27/02/2019 15:25 -03

O que ainda é preciso para que o cabelo crespo seja aceito como 'profissional'?

Comissão de Direitos Humanos de NY tornou ilegal discriminação com base na aparência do cabelo.

Bongani Dlamini via Getty Images
Discriminar alguém por conta dos cabelos agora é ilegal em Nova York.

Na semana passada, a Comissão de Direitos Humanos de Nova York divulgou novas diretrizes que tornam ilegal a discriminação com base na aparência do seu cabelo.

Sob as diretrizes, os residentes têm o direito de ter “cabelos naturais, penteados tratados ou não tratados, com trancinhas, torções, nós, black power e/ou o direito de manter o cabelo em um estado sem corte ou sem pentear. E qualquer ofensa que eles possam enfrentar em um lugar público, como trabalho ou escola, pode ser considerado discriminação racial”.

Quando li essa medida há muito esperada em relação à igualdade, pensei imediatamente em meus avós e em um dia específico na primavera de 2012.

Eu estava a poucas semanas da minha formatura e estava visitando minha família no estado da Virgínia durante as férias de primavera.

Lembro-me de sentar à mesa na casa dos meus avós com minha avó, vovô, mãe, irmã, tia e prima. Estávamos tendo uma importante discussão familiar, ou o que alguns poderiam chamar de intervenção.

A questão na mesa? Meu cabelo.

Eu recentemente parei de alisar o meu cabelo depois de mais de 13 anos mantendo meus fios quimicamente “domados”.

Eu literalmente peguei uma tesoura para finalmente fazer uma grande mudança  e cortar todas as minhas pontas alisadas, revelando um pequenino Afro para todos verem.

E o que minha família entendeu desse processo foi um problema que precisava ser resolvido.

Acredito que meu cabelo é uma bela reflexão da minha negritude e não uma indicação negativa do meu caráter ou ética de trabalho.

Não é como se eles não achassem que eu era fofa (porque eu era e ainda sou). Minha família estava preocupada com meu futuro. Mais especificamente, eles estavam preocupados com minhas perspectivas de carreira.

Como uma futura graduada na faculdade com sonhos de ser um jornalista, eu precisava conseguir um emprego — e meus avós conheciam muito bem a luta para ser levado a sério como um negro em um mundo predominantemente dominado por pessoas brancas e por padrões brancos de beleza e profissionalismo.

Isso pode soar como preocupações duras e superficiais, mas minha família só queria que eu fosse realista e fizesse o que era melhor para mim e para minha carreira. Eles não queriam que eu tivesse que lidar com pessoas que olhassem para mim e para o meu cabelo e me considerassem pouco inteligente ou desleixada.

Eles queriam me dar uma chance de lutar em uma força de trabalho em que já havia tão poucas pessoas que pareciam comigo. Então, eles me encorajaram a alisar meu cabelo ou pelo menos investir em um tecido muito bonito para prendê-lo.

Eu recusei. Recusei porque acreditei — e acredito agora — que meu cabelo é um belo reflexo da minha negritude e não uma indicação negativa do meu caráter ou ética de trabalho. Eu entendi porque me ensinaram que existem regras para a sobrevivência como uma pessoa negra nos Estados Unidos que confiam na respeitabilidade e assimilação aos padrões eurocêntricos de fala e estilo. Mas eu sabia que a única maneira de mudar essas regras era desafiá-las.

Então eu mantive meu cabelo crespo e lidei com as consequências. Eu me esforcei para encontrar um emprego na minha área, perguntaram-me em entrevistas se eu consideraria arrumar o cabelo ou usar uma peruca, alternativas as quais eu me recusei a fazer. E quando consegui encontrar trabalho assalariado em um call center, lidei com colegas de trabalho e chefes que chamavam meu posicionamento de “gueto”. Eu me esforçava para usar os fones de ouvido obrigatórios que não caberiam na minha cabeça e no meu cabelo.

Mas eu continuei. Eu fui abençoada por ter eventualmente encontrado empregos em publicações que me permitiram aparecer como eu realmente sou, com meu cabelo afro e tudo mais (palmas para a revista Essence e o HuffPost!), e fazer um trabalho que me interessa.

Agora meu cabelo e eu estamos florescendo. Muitos outros profissionais negros, no entanto, não tiveram tanta sorte. 

Se o meu cabelo é para ser um reflexo do meu caráter, ele deve mostrar ao mundo a minha beleza interior, criatividade e determinação.

No ano passado, a âncora britânica Brittany Noble Jones foi supostamente demitida de seu trabalho por mudar para penteados naturais depois de anos usando cabelos lisos. Em 2010, uma mulher do Alabama chamada Chastity Jones teve uma oferta de emprego rescindida depois que ela se recusou a cortar suas tranças, e em 2001, a Hampton University, na Virgínia, implementou um código de vestimenta que impedia estudantes de usar dreadlocks.

Os adultos não são os únicos que enfrentam exclusão por causa do nosso cabelo. Alunos de uma escola sul-africana protagonizaram um código de vestimenta que julgava que o cabelo crespo provocava uma violação. E, recentemente, em dezembro, um atleta de colegial em Nova Jersey foi forçado a cortar seus dreadlocks no meio de uma partida ou desistir da competição.

Crianças de até 6 anos (e possivelmente até mais jovens) foram suspensas, expulsas, banidas ou disciplinadas por seus penteados durante décadas. O que é preciso para que os cabelos negros sejam vistos tão bons quanto eles realmente são?

As regras que regem o comportamento dos negros no passado deixaram de existir quando nos recusamos coletivamente a segui-las. Eu amo e aprecio a geração dos meus avós pelo que eles passaram para garantir que eu teria as oportunidades que tenho hoje. Agora é minha vez de assumir alguns riscos para garantir que futuras gerações de garotos e garotas negras não tenham que aceitar e limitar seu futuro por conta de rótulos.

As coisas estão finalmente mudando em pelo menos uma parte do mundo. Agora que a cidade de Nova York formalizou uma discriminação com base no penteado, espero que mais cidades sigam o exemplo. Quer estejamos usando tecidos, cachos ou tranças, devemos ser julgados pelo que está dentro de nossas cabeças, e não por aquilo que está no topo. E se o meu cabelo é para ser um reflexo do meu caráter, ele deve mostrar ao mundo a minha beleza interior, a minha criatividade, estilo, energia, talento e determinação.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.