COMPORTAMENTO
14/09/2019 01:00 -03

O que NÃO dizer quando seus filhos são vítimas de bullying

Escolha suas palavras com cuidado; a resposta errada pode ignorar o sofrimento da criança.

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Um sistema de apoio composto por família, amigos e professores pode ajudar seu filho a lidar com o bullying.

Quando pais descobrem que seus filhos são vítimas de bullying, até mesmo os mais bem-intencionados podem cometer erros. 

É claro que todos querem criar seus filhos para que eles sejam fortes, independentes e resilientes, mas tenha cuidado com as palavras que usar na hora de conversar sobre bullying. Talvez sua primeira reação seja repetir o conselho que ouviu de seus pais ou professores. Infelizmente, alguns deles – “ignore” ou “seja mais durão” ― não somente são ineficazes, mas podem piorar a situação.

O bullying está por toda parte – uma entre cada cinco crianças americanas afirma sofrer bullying, segundo o National Center for Educational Statistics. E muitas vezes ele é associado a problemas de saúde mental como depressão, ansiedade e baixa autoestima, bem como a problemas físicos como dores de cabeça e de estômago, problemas para dormir e alterações do apetite.

Estudantes vítimas de bullying também podem ter dificuldades acadêmicas e têm maior propensão a matar aulas.

Um sistema de apoio sólido composto por família, amigos e professores pode ajudar seu filho a lidar com o bullying. Pedimos a opinião de especialistas para saber quais são as coisas que os pais NÃO devem dizer para os filhos caso eles sejam vítimas de bullying.

“Ignore.”

Se tentar esquecer o problema fosse suficiente, você provavelmente nem sequer estaria tendo essa conversa com seu filho. Achar que o problema vai se resolver sozinho não valida o sofrimento da criança.

“Esse conselho é dado há gerações e provavelmente é algo que os pais ouviram na infância”, diz Katie Hurley, assistente social e autora de No More Mean Girls: The Secret to Raising Strong, Confident, and Compassionate Girls. “Quando os pais dizem algo do gênero, as crianças se sentem ignoradas e isoladas. É excepcionalmente difícil ignorar um bully, e pedir isso aos filhos só faz que eles se sintam mais sozinhos no mundo.”

Dito isso, não há problemas em sugerir que seu filho evite contato com os bullies. Mas isso tampouco é uma solução de longo prazo, diz a especialista Barbara Coloroso.

“Evitar é difícil; ignorar é quase impossível”, afirma Coloroso, autora de The Bully, The Bullied and the Bystander.

“Ao tentar ignorar as provocações e ataques, o risco é que a criança internalize a mensagem dos bullies: ‘sou burro, sou um idiota’.”

“Seja mais durão.”

Esse conselho costuma ser dado aos meninos, perpetuando uma cultura de masculinidade tóxica segundo a qual os garotos são incentivados a reprimir seus medos e outros sentimentos complicados. 

“Esse tipo de linguagem não só promove a violência como também ignora a vida emocional dos meninos”, afirma Hurley. “Esse conselho ensina os meninos a esconder seus sentimentos, o que pode causar ansiedade e/ou depressão.” 

“Pare de fazer drama.”

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Embora se aplique aos dois sexos, as meninas é que costumam ouvir esse tipo de coisa. Não é fácil para as crianças se abrirem com os pais quando o assunto é bullying. Quando você as trata como “dramáticas” ou exageradas, elas deixarão de procurar ajuda no futuro.

“Acho que muitas meninas não pedem ajuda porque têm medo de serem consideradas fracas ou incapazes de lidar com problemas. Ou então serão rotuladas de complicadas e dramáticas”, diz Hurley. “Isso atinge diretamente a autoestima das crianças.”

“Resolva sozinho.”

É compreensível que você queira criar seus filhos para que eles sejam autossuficientes e independentes. Mas os bullies geralmente se concentram nos colegas que eles sabem que não vão conseguir se defender sozinhos. Seu filho precisa da sua ajuda, não de pais durões.

“Crianças vítimas de bullying precisam de ajuda para superar a característica central do bullying – estar em situação de menos poder”, diz o psicólogo e professor Tony Volk, especializado em desenvolvimento. “Se eles pudessem resolver as coisas sozinhos, já o teriam feito. Você acha que seu filho quer ser vítima? Que eles são preguiçosos e se deixam abusar? Eles precisam de ajuda porque não conseguem se defender por conta própria.”

“As crianças são assim mesmo.”

Essa resposta ― e similares, como “É um rito de passagem”, “Meninos são assim” ou “As meninas são malvadas nessa idade” ― não ajuda em nada, pois deslegitima o sofrimento do seu filho. O fato de o bullying ser comum não significa que devamos simplesmente aceitá-lo e dar de ombros.

“Bullying dói muito. Não, o bully não está apenas provocando, flertando ou criando conflito. E, sim, o agressor quer fazer mal”, diz Coloroso. “Se você minimizar, racionalizar ou tentar explicar o comportamento do bully, não vai demorar para que seu filho ache que é melhor sofrer em silêncio.”

“Defenda-se.”

A assertividade é uma habilidade poderosa, que muitos pais gostariam de incutir nos filhos, sejam eles vítimas de bullying ou não. Mas mesmo crianças assertivas têm dificuldade para fazer frente aos valentões, diz Hurley, então esse conselho por si só não é suficiente.

“Os bullies tendem a ter seus aliados, o que torna ainda mais difícil enfrentá-los”, diz ela.

Dizer ao seu filho que ele tem de se defender, apesar de bem-intencionado, implica que a responsabilidade de lidar com o problema é somente dele, afirma Bailey Huston, do PACER National Bullying Prevention Center.

“Embora exista um fundo de verdade nessa afirmação ― ser assertivo em geral é uma boa resposta ―, dizer somente isso para seu filho provavelmente causará mais danos”, afirma ela.

“Reaja.”

Uma coisa é seu filho precisar se proteger ou se defender de um enfrentamento físico. Outra bem diferente é incentivar a violência.

“O bully provavelmente o pegou para vítima porque acha que seu filho não será um adversário que oferecerá muita resistência”, diz Coloroso. “Isso quer dizer que sempre haverá outros bullies maiores e mais fortes esperando por ele.”

O que você deve dizer

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Os especialistas compartilham o que os pais devem dizer aos filhos que são vítimas de bullying.

Quando você descobre que seu filho está sendo intimidado, o primeiro passo é responder demonstrando apoio e incentivo, diz Coloroso.

“Eles têm de saber que não existe assunto bobo demais ou sério demais para uma conversa. E você tem de estar presente para apoiá-los e empoderá-los”, afirma ela.

Leia abaixo algumas respostas sugeridas pelos especialistas. Elas farão que seu filho se sinta visto, seguro e amado.

“Não é culpa sua.”

 “Ninguém tem culpa por ser vítima de bullies”, afirma Huston. “Certifique-se de que as crianças não se sintam culpadas pelo que está acontecendo.”

“Conte para algum adulto na escola.”

“As escolas têm obrigação legal de lidar com o bullying”, diz Volk. “Sim, isso vai de encontro ao código infantil de não dedurar, mas alguém está começando uma briga injusta. A vítima está apenas nivelando as coisas.” 

“Você não está sozinho.”

“Muitas crianças acham que são as únicos a sofrer bullying e que ninguém se importa”, diz Huston. “Deixe claro que, sim, existem pessoas que se importam ― incluindo você ― e que elas estão ali para oferecer apoio.” 

“Converse com seus amigos.”

“Ter apoio dos colegas é a melhor proteção contra o bullying e seus efeitos”, afirma Volk. “Se seus filhos não têm amigos próximos, faça o possível para ajudá-los a encontrar esse tipo de amigos. Porque, por mais que você se importe com eles, os filhos sabem que os pais não são imparciais. As crianças dão muito valor à opinião dos colegas, especialmente nos primeiros anos da adolescência, quando o bullying tende a ser muito predominante.”

“Isso parece doloroso. Você quer me contar mais sobre o que está acontecendo?”

“Ao demonstrar empatia e fazer perguntas abertas, você comunica confiança e compreensão, dando ao seu filho um lugar seguro para que ele verbalize as emoções”, afirma Hurley. 

“Como posso ajudar?”

“O primeiro passo da ajuda é ouvir seu filho para ajudá-lo a se sentir seguro e protegido”, diz Hurley. “Perguntar como você pode ajudar e sugerir possíveis estratégias para lidar com o problema ― ler juntos, caminhar juntos, jogar um jogo juntos ― é uma boa maneira de ajudar seu filho a lidar com os sentimentos antes de passar para a solução prática do problema.”

“Você não tem de resolver o problema sozinho.”

“Muitas vezes as crianças acham que têm de resolver o problema do bullying sozinhas”, afirma Huston. “Diga para seu filho que vocês podem bolar um plano juntos para acabar com o bullying e ele tem um time para apoiá-lo.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.