MULHERES
31/10/2020 05:00 -03 | Atualizado 31/10/2020 05:00 -03

5 livros para entender a conexão entre 'caça às bruxas' e direitos das mulheres

Para algumas autoras, a frase "somos as filhas das bruxas que vocês não conseguiram queimar" faz muito sentido.

“A caça às bruxas aprofundou a divisão entre mulheres e homens, inculcou nos homens o medo do poder das mulheres e destruiu um universo de práticas, crenças e sujeitos sociais cuja existência era incompatível com a disciplina do trabalho capitalista, redefinindo assim os principais elementos da reprodução social.”

A afirmação acima da filósofa e historiadora Silvia Federici parece complexa, mas na verdade é simples e objetiva. Para ela, o medo do poder feminino levou à caça às bruxas, um genocídio que precisa ser reconhecido como tal, assim como seus efeitos que, segundo a escritora, se reinventam na atualidade.

Esta análise, concluída após 30 anos de pesquisa, está no aclamado livro O Calibã e a Bruxa: mulheres e acumulação primitiva (Editora Elefante)Federici aponta que na Europa, por volta do século 16 e 17, mulheres eram lavradoras, pedreiras, parteiras, curandeiras e tinham autonomia sobre seus corpos.

Mas ao lançar seu olhar para a inquisição, que eliminou as chamadas “servas do diabo”, Federici afirma que este período sequestrou poder e liberdade das mulheres, um fenômeno que se manifesta até hoje. Uma nova caça às bruxas acontece agora e se manifesta em altos índices de feminicídio, por exemplo.

Em 2018, uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas, totalizando 4.519 vítimas. Ainda que o problema da violência doméstica atinja todas as mulheres, o cenário é mais grave a depender da cor da pele. Entre 2008 e 2018, enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 11,7%, a taxa entre as mulheres negras aumentou 12,4%.

“A imagem da bruxa e a acusação de bruxaria não é algo que está em um passado distante. É algo que hoje está sendo usado novamente para disciplinar mulheres”, disse Federici em conversa com o HuffPost, em 2019. “Toda a organização da vida em família é um jeito de controlar as mulheres.” 

Para ela, leis não são suficientes para combater a onda de violência de gênero no mundo. Além da camada jurídica, é preciso entender origens, causas e sintomas que se manifestam e estruturam a base da sociedade capitalista e que reforçam a opressão às mulheres. 

Não só Federici, mas outros nomes se dedicaram a compreender a conexão entre a caça às bruxas e seu reflexo na luta por direitos das mulheres. Neste 31 de outubro, o HuffPost selecionou 5 obras que repensam a imagem da bruxa - inclusive as da cultura pop - e como elas se relacionam com o presente.

1. Calibã e a Bruxa, Silvia Federici

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Calibã e a Bruxa: mulheres e acumulação primitiva, da historiadora Silvia Federici.

Não tem como pensar em compreender o significado da caça às bruxas e seus efeitos no na vida das mulheres sem falar na historiadora ítalo-americana Silvia Federici. Ela passou três décadas em busca de um feminino ausente na história da origem do capitalismo contada por filósofos como Marx e Foucault. 

Nascida na Itália e hoje com residência nos Estados Unidos, onde é professora emérita da Universidade de Hofstra, em Nova York, Federici ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional e participou do movimento Wages for Housework (Salários pelo trabalho doméstico, em tradução livre) nos anos 70.

A conclusão de seus estudos aparece no livro cultuado o Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) e também em O Ponto Zero da Revolução (2019). O primeiro livro se propõe a responder onde estavam e o que aconteceu com as mulheres durante a instalação do sistema capitalista - e coloca a chamada “caça às bruxas” como o evento responsável por interromper a participação das mulheres em todos os âmbitos da vida, que até então eram comuns em sistemas feudais pelo mundo.

Bettmann via Getty Images
Ilustração de uma sessão da inquisição, em que um juiz acusa uma jovem de ser bruxa. Enquanto um torturador a despe, outro esquenta as brasas para a tortura. Ilustração sem data.

No livro, Federici mostra um ângulo do feudalismo bem diferente daquele explicado à exaustão nas salas de aula e nos livros didáticos. Segundo ela, até aquele momento da história, existiam mulheres com pleno acesso à terra e àquilo que ela podia proporcionar: elas eram lavradoras, pedreiras, parteiras e até curandeiras. Sobretudo, tinham conhecimento da natureza e autonomia sobre seus corpos.

A historiadora aponta que a caça às bruxas teria vindo, então, como uma forma de “sequestrar” delas toda a autonomia de que desfrutavam, para dar lugar a um novo sistema de controle e de reprodução da vida. A “caça” chegou tanto no formato ideológico - em uma narrativa que elas eram colocadas como “bruxas” e “servas do diabo”, o que chegou até as imagens produzidas pelos inquisidores à época, em que elas eram retratadas em seitas e com feições malignas e de feiúra que permanecem ainda hoje - quanto em atos concretos que as condenaram à fogueira por serem sábias e independentes.

Calibã e a bruxa, seu primeiro livro, ganhou edição em português em 2017, 13 anos depois de sua publicação original, graças aos esforços das tradutoras do Coletivo Sycorax, de São Paulo. Em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e a Editora Elefante, elas passaram meses no processo de tradução e curadoria de imagens do período medieval. O Ponto Zero da Revolução, seu segundo livro, em que explora as camadas do trabalho doméstico e opressão às mulheres, também foi lançado no Brasil.

O livro é disponibilizado online pelo coletivo. 

2. Mulheres e Caça às Bruxas: da idade média aos dias atuais, Silvia Federici 

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Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici. 

Em seu livro mais recente, Mulheres e caça às bruxas: da idade média aos dias atuais, a historiadora Silvia Federici traz argumentos do cultuado Calibã e a Bruxa e decreta que a violência que matou milhares de mulheres no século passado ganha na atualidade roupagens tão cruéis quanto.

Ela, novamente, destaca o quanto a caça às bruxas e o sistema patriarcal agem sob a vida das mulheres e ressalta que isso precisa ser reconhecido como um fenômeno histórico do passado e do presente. Para Federici, mulheres são perseguidas, torturadas, aprisionadas e assassinadas hoje como resultado direto ou indireto de práticas que determinam sua função ou “papel apropriado” em sociedade. 

Publicado em 2018 nos Estados Unidos, Mulheres e caça às bruxas chegou ao Brasil no ano passado pela editora Boitempo, com prefácio da pesquisadora Bianca Santana e orelha escrita pela professora da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora Sabrina Fernandes. No livro, Silvia também explora a origem do termo “gossip” (fofoca, em português) e como ele foi utilizado para degradar as mulheres.

Em passagem pelo Brasil para o lançamento do livro Federici recebeu a reportagem do HuffPost Brasil, em São Paulo, durante intervalo de eventos no País. “Novamente, mulheres estão sendo acusadas de serem bruxas, e pensar a caça às bruxas hoje é sobre o pensar o crescimento da violência contra a mulher que começa, particularmente, com o crescimento da violência contra mulheres que estão liderando lutas, como Marielle Franco”, afirmou à época. 

Leia um texto exclusivo do livro.

3. O Martelo das Feiticeiras, Heinrich Kramer e James Sprenger

Talvez você ache que em pleno 2020 seria impossível ter acesso a um manual de como a inquisição e a caça às bruxas era planejada para, então, entender como pensavam aqueles que perseguiam e queimavam mulheres. Mas o livro Malleus Maleficarum, traduzido como O Martelo das Feiticeiras, escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger em 1486, foi reeditado neste ano pelo selo Rosa dos Tempos, da editora Record, mais de 500 anos depois de sua publicação original.

Os inquisidores comprovam os estudos de Federici: eles atribuem às mulheres a prática daquilo que foi nomeado como bruxaria por meio da “cópula com o demônio”, dentre outras afirmações fantasiosas sobre o que era ser mulher, livre, conhecedora da natureza e participante da vida social que era compartilhada e não diferenciada entre público e privado ou individualizada. Num reforço simbólico de mitos - em especial o cristão -, o manual ratifica a fundação de uma sociedade centrada no poder.

Além da obra em si, são fundamentais os dois textos originais que antecedem os escritos medievais dos inquisidores. O Breve Introdução Histórica, escrito por Rose Marie Muraro, uma das precursoras do movimento feminista no Brasil, que não só contemporiza o livro para explica-lo em sua importância histórica e referencial para os estudos feministas, bem como introduz a todo um estudo do papel da mulher e do feminino na formação da civilização, passando por entendimentos antropológicos e sociais.

O segundo texto é o prefácio do psiquiatra e psicanalista junguiano Carlos Amadey Byington, que faz uma análise historiográfica de grandes símbolos, signos e arquétipos que permeiam o cristianismo desde antes de sua fundação, seus domínios e sua presença contemporânea. O texto é rico em referências junguianas que ajudam a entender um passado tenebroso de perseguição e condenação em razão de manter a ordem, o poder e o controle em especial, dos corpos femininos e da sexualidade.

4. História da Bruxaria, Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander

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História da Bruxaria

O livro História da Bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander, jornalista e historiador, respectivamente, é ideal para ler após Calibã e a Bruxa ou Mulheres e Caça às Bruxas - ou, claro, não necessariamente nessa ordem. Os autores exploram, de forma não tão aprofundada quanto Federici, o universo de significados e tradições desde a origem do que é chamado “bruxaria” até os tempos modernos e a atualidade.

Diferentemente da autora feminista, Russell e Alexander fazem uma análise não tão específica sobre os efeitos da inquisição na vida das mulheres, mas fazem uma breve introdução sobre como, da feitiçaria antiga aos recentes movimentos neopagãos espalhados pelo mundo, a história da bruxaria está nas entrelinhas da história da humanidade e deve ser, sim, entendida como algo legítimo.

Em uma visão focada mais no ocidente, segundo os autores, as mulheres eram entendidas como “feiticeiras, hereges e pagãs” no passado e “as bruxas são um estereótipo duradouro e mutável na mentalidade coletiva” ainda hoje - é só reparar em fantasias de halloween, filmes e imagens que são difundidas sobre elas ao longo dos séculos - ou até na própria capa do livro em questão.

O livro, publicado em 1980, já havia sido reeditado pela editora Aleph em 2008, mas ganhou nova edição ano passado com novos capítulos escritos pelos autores. Russell e Alexander apontam que a história da chamada “bruxaria” está repleta “de perseguições, reviravoltas e tem uma trajetória silenciosa, mas não por isso menos verdadeira e devastadora”.

5. Eu, Tituba: Bruxa negra de Salém, Maryse Condé

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A história esquecida de Tituba é retratada no livro escrito por Maryse Condé.

Você pode não conhecer a história de Tituba, mas certamente já ouviu falar da cidade em que ela foi julgada: Salem, em Massachusetts, nos Estados Unidos. A cidade foi palco de histórias de feiticeiras contadas pela cultura pop como Abracadabra (1993) e Sabrina, Aprendiz de Feiticeira (1996) e hoje tem um “Museu da Bruxaria” para chamar de seu. 

Diferente das bruxas dos filmes, Tituba foi uma mulher negra e escravizada, uma das primeiras julgadas como bruxa no tribunal de Salem. A ficção de Condé se apresenta como um “acerto de contas” para tão negligenciada personagem que, ao abdicar de sua liberdade para viver o amor com um homem negro escravizado, personaliza o retrato da submissão da mulher negra ao patriarcado e à igreja, o que a leva sofrer desde a escravização à acusação e perseguição por “praticar bruxaria”.

O signo da opressão acompanha Tituba desde o nascimento – originária de Barbados, era fruto de um estupro, comum entre mulheres vítimas de colonizadores do continente americano.

Em Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem, publicado pela Rosa dos Tempos, da editora Record, a histórica bruxa renasce pelas mãos da Maryse Condé, escritora nascida em Guadalupe, um arquipélago governado pela França no Caribeu, considerada uma das novelistas mais importantes da atualidade. A escritora brasileira Conceição Evaristo assina o prefácio do livro e chama Condé de “maga da literatura”.

Para dar voz à Tituba, três séculos depois de sua morte, a autora usa a ficção como fórmula e os fatos reais como poção. Eu, Tituba: Bruxa negra de Salemé um livro para ser lido com a consciência de que é uma ficção que conta com pesadas doses de realidade, e por isso mesmo deve ser levado a sério. É simbólico também o silenciamento histórico de tão importante personagem quando se fala nas “Bruxas de Salem”, já tão conhecidas pelo grande público.