COMIDA
30/11/2019 01:00 -03 | Atualizado 30/11/2019 13:00 -03

Ela deixou a carreira na TV para ser mestre de torra e quer valorizar o trabalho de produtoras de café

Bruna Mussolini se especializou em torrefação e hoje trabalha com grãos produzidos principalmente por mulheres.

Divulgação
Bruna Mussolini busca valorização das produtoras de café.

A carioca Bruna Mussolini, 33, trabalhou por muitos anos como produtora de televisão. Chegou a integrar os quadros da TV Globo. Porém, a vida corrida e as horas extras no trabalho se tornaram um problema quando Bruna descobriu a primeira gravidez.

Em 2013, ela começou a estudar café e passou por diversos cursos de barista e avaliador de café. No início, ela não gostava tanto da bebida, mas tudo mudou quando ela provou o café especial. Café especial é uma categoria premium que atinge, no mínimo, 80 pontos na escala SCA (Specialty Coffee Association).

“Eu mudei minha vida totalmente. Era produtora de televisão e acabei me envolvendo no mercado de café. Eu sempre digo: quando o bichinho do café pica é uma busca por conhecimento sem fim. É real”, conta Bruna ao HuffPost Brasil.

Entre um curso e outro, Bruna descobriu sua verdadeira paixão, que foi a torra de café. Esse processo consiste em elevar ou manter a qualidade de grãos especiais, o que envolve muita paciência, conhecimento e muitas provas de cafezinhos ― que vida difícil, não? 

“A torra é um dos últimos processos do café e a partir dela que o mestre de torra consegue imprimir sua característica; se ele é mais frutado, denso, doce ou mais amargo”, explica.

Hoje mãe de 3 filhos, Bruna possui uma empresa de torrefação de café e é uma das maiores especialistas de uma área predominantemente masculina.

Vou testando e provando. O maior conhecimento do mestre de torra é sensorial.

Para quem não entende muito do assunto, o torrador é aquele que vai “fazer brilhar” as características do café, de acordo com as características do próprio torrador. Cada plantação de café tem seu terroir único, influenciado pela terra e clima. O café de uma região, por exemplo, pode ser mais frutado e doce, enquanto outro mais amargo.

“O mestre de torra faz um estudo desses tipos de café para decidir qual o caminho da torra que vai tomar, se será mais denso, com temperaturas elevadas, ou outras especificações”, detalha Bruna.

Para isso, seu maior instrumento de trabalho é o paladar. “Vou testando e provando. O principal conhecimento que um mestre de torra tem é o sensorial ― é o que vai dizer se ficou bom ou não. Eu torro e provo, sempre”, explica.

Mulheres no café

O trabalho de Bruna, porém, é um pouco diferente dos demais mestres do mercado. Por ser uma das poucas mulheres da área, a especialista em café decidiu olhar para as produtoras e valorizar o trabalho delas.

“Conforme comecei a torrar café, comecei uma busca por produtores. E então percebi que o mercado era masculino. Só que, muitas vezes, quando visitava o plantio, a produção ‘real’ era feita por mulheres. Mas, nas feiras e no comércio, eram apenas homem”, conta.  

Bruna percebeu que, apesar de a mulher cuidar de todo o processo produtivo, sempre havia a presença masculina para negociar e comercializar o produto final. “Por ser uma mulher e tocar minha empresa 100% sozinha, queria trazer essa força feminina para meu lado e ajudar a valorizar o trabalho delas”, disse. 

Ainda é um mercado machista. Estamos em um patamar muito melhor do que antigamente, mas se a gente [mulheres] se unir cada vez mais, a gente ultrapassa essas barreiras e chega, quem sabe, a um valor agregado que um homem tem ― porque ainda tem essa discrepância.

Em 2017, a empreendedora inaugurou o Cora Café, loja de torrefação de cafés especiais localizada na cidade de Santa Rita do Passo Quatro, no interior de São Paulo. Ela decidiu trabalhar apenas com cafés cultivados e negociados por produtoras locais. “Hoje eu trabalho com 80% dos grãos produzidos por mulheres e meu objetivo é chegar a 100%”, afirmou. “Além de pagar um preço mais justo a elas, eu também ajudo a divulgar seu trabalho, e isso traz também um valor agregado ao nosso produto e ao nosso trabalho.”

Além de focar na produção feminina e valorizar o trabalho de produtoras locais, Bruna também faz parte de um grupo nas redes sociais chamado “Elas torram”, feito por mulheres na área de café. O grupo foi feito para que torradoras, produtoras, fornecedoras e demais especialistas em café se ajudem e compartilhem conhecimento, ideias e feiras. “Esse é um projeto muito bacana. Quanto mais a gente se unir, maior a nossa força. E eu estou aqui para representar todas elas”, disse. 

O lado feminista e a carreira meteórica de Bruna chamaram a atenção da Nescafé, que lançou há pouco tempo o Torra do Autor, projeto que desafiou 6 mestres a torrar de forma totalmente diferente o mesmo grão de café. Bruna foi a única mulher a participar da ação, que também contou com os torradores Hugo Wolff, Leandro Paiva, Tiago de Mello, Donieverson dos Santos e Thiago Sabino. 

Entre os mestres, Bruna diz que prefere ser chamada de torradora. “Ainda sou um bebê engatinhando, não me chamo de mestre de torras, mas torradora de café, porque um mestre estuda uma vida inteira pra isso. Eu mudei minha vida totalmente, e trabalho com grãos brasileiros, escolhidos por mim, produzidos por várias mulheres com muita competência”, finaliza.