MULHERES
03/03/2019 11:41 -03 | Atualizado 03/03/2019 11:41 -03

Ensaio mostra como as mulheres de Brumadinho estão superando tragédia

"De um dia para o outro, elas precisaram lidar com a lama, com a violência e com a morte. Um das famílias com quem eu conversei perdeu 6 membros. Se isso não é um massacre, eu não sei o que é."

Isis Medeiros
Mulheres de Brumadinho tiveram de enterrar familiares que trabalhavam na Vale.

Mais de 35 dias se passaram desde o rompimento da barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), que liberou 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro e deixou centenas de mortos e desaparecidos.

Para quem sobreviveu e decidiu permanecer na região, conviver com as memórias da tragédia faz a dor se transformar em incentivo para cobrar respostas e punições. É o caso das mulheres de Brumadinho.

Elas precisaram enterrar seu filhos, maridos, sobrinhos e familiares que estavam trabalhando na barragem no momento do rompimento. Perderam suas plantações, casas e esperanças. Ou ao menos parte destas.

Quem conta a história dessas 8 mulheres é a fotógrafa e documentarista Isis Medeiros. 

Em depoimento ao HuffPost Brasil, ela compartilha como foram os dias de cobertura em Brumadinho e a produção do ensaio “Da Lama à Luta”, realizado em colaboração com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Leia o depoimento de Isis Medeiros:

Em 2015, acompanhei a situação da comunidade após o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, e imaginei que em Brumadinho seria o mesmo descaso, até porque os responsáveis são os mesmos. 

Nunca imaginei que fosse viver isso depois de Mariana. Não duvidava que pudesse acontecer de novo, mas não achei que seria tão rapidamente e tão violento como foi Brumadinho. 

No dia 25 de janeiro, eu recebi o link  de uma notícia em um grupo de WhatsApp de fotógrafos aqui de Belo Horizonte e fiquei muito assustada. Mas ainda não tinha muitas informações sobre o que realmente tinha acontecido. No mesmo momento, parei o que eu tava fazendo e me organizei para ir até lá.

Foi muito pior do que eu esperava. E eu que me achava preparada... Quando eu vi aquele mar de lama, comecei a recapitular tudo o que aconteceu em Mariana. Fiquei sem reação. O fato de eu já ter tido contato com uma tragédia como essa em Fundão não minimizou a dor que eu senti vendo o contexto das pessoas.  

Brumadinho foi muito pior que Mariana. O meu envolvimento com a comunidade foi muito maior. Em Mariana, as vítimas da lama foram distanciadas da comunidade, algumas chegaram a ser levadas para hotéis porque não tinham mais onde morar. Então eu não tive muito acesso a elas. Em Brumadinho, os moradores permaneceram no Córrego do Feijão. Eu ando pela comunidade e sou convidada para tomar um café na casa delas. 

Eles avisaram nós, sabe?! Na hora de fazer o treinamento, a sirene iria tocar e a gente teria que correr, e nós corremos. Mas não adiantou nada, a Vale correu água em nós, barro! Morreu muita gente, minha sobrinha, três primos do meu marido, fora os que ainda estão embaixo do barro. Eu espero que eles paguem.Irani Paiva
Divulgação/Isis Medeiros
Irani Paiva, moradora do Córrego do Feijão.

O meu trabalho ainda está sendo feito, mesmo após a publicação destas imagens. O meu projeto é acompanhar 10 mulheres atingidas pelas barragens da bacia do rio Paraopeba e outras 10 mulheres atingidas por barragens na bacia do rio Doce. Essas mulheres vivem dramas parecidos. São mulheres que perderam irmãos, filhos, pais, maridos. A maior parte das vitimas das barragens são homens que eram trabalhadores da Vale. 

De um dia para o outro, elas precisam lidar com a lama, com a violência e com a morte. Uma das famílias com que eu conversei perdeu 6 membros. Se isso não é um massacre, eu não sei o que é. É uma dor muito maior do que qualquer imagem pode captar.

Divulgação/Isis Medeiros
Marlúcia Patrocínio, moradora da comunidade de Pompéu. 
A situação nossa está muito difícil, principalmente em relação à água. Não sabemos como vamos fazer com as nossas famílias, com os agricultores, pescadores. Mas estamos aqui, organizados e juntos para que essa reunião de hoje nos dê respostas para o futuro.Marlúcia Patrocínio

São mulheres que são donas de casa, agricultoras, pescadoras. Todas elas têm uma relação muito grande com a terra. E a situação é uma violência não só porque destruiu famílias, mas também a subsistência de várias pessoas.

Muita gente não sabe, mas a região de Brumadinho é uma grande horta. As famílias produziam plantações e vendiam para restaurantes e comércios em Belo Horizonte. Depois da lama, o que não foi destruído agora não pode ser vendido porque os clientes consideram os produtos impróprios para o consumo. E enquanto os homens trabalhavam na Vale, essas mulheres lideravam o abastecimento desses produtos. Agora elas não têm nada. 

 
A morte dos meus amigos era mais lucrativa do que o reparo na barragem e as devidas providências por parte da Vale. Eu sei que é difícil, que vai demorar anos e é uma luta longa mas espero que hoje seja um pouquinho de esperança.Marina Oliveira
Divulgação/Isis Medeiros
Marina Oliveira, moradora de Brumadinho.

Elas estão muito tristes, mas também estão muito revoltadas. Encontrei com elas durante uma audiência de negociação da comunidade com a Vale. Achei que, por um momento, o sentimento de luto fosse ser o dominante no local e estava preparada para respeitar o silêncio das pessoas. Mas a maioria delas quer denunciar, não quer deixar de falar sobre o que aconteceu. Então, quando enxergam alguém que está disposto a ouvir, elas falam, brigam e choram.  

Participei também no ato que marcou 1 mês da tragédia. E foi muito forte perceber que a maioria das pessoas ali presentes também eram mulheres. Mulheres que encontraram e enterraram os corpos de seus entes queridos. E um grupo enorme de mulheres que ainda não tinham nem sinal dos seus parentes. Elas estavam muito abaladas. Os cartazes, as falas, as músicas entoadas traziam essa revolta. 

Mas também conheci casos de mulheres que estão vivendo o luto e realmente não se manifestam e nem saem de casa. Conversei com uma senhora de 80 anos que me contou sobre os seus traumas e como ela não tem vontade de interagir com mais ninguém. Ela disse que não consegue dormir porque os barulhos dos helicópteros não saem de sua cabeça. Para ela, a vida acabou ali. Ou ela fica na comunidade convivendo com o sofrimento, ou ela vai embora e não sabe para onde ir. 

A gente quer resposta. Eles ainda querem jogar o rejeito lá (em Pires, bairro local) e fazer a gente de cobaia, dizendo que vão limpar o rio, mas isso é conversa pra gente.Jucilene Santos
Divulgação/Isis Medeiros
Jucilene Santos, moradora da comunidade Pires, em Brumadinho.

Na minha percepção, vai ser difícil superar esse quadro, principalmente as que estão muito depressivas. É um sentimento muito grande de impotência diante da impunidade. Nas conversas, elas também lembram de Mariana. Dizem que se lá não aconteceu justiça, duvidam que em Brumadinho algo possa acontecer. 

Depois dessas conversas, cheguei à conclusão de que não existe opção mais fácil entre abandonar o Córrego do Feijão para se livrar das imagens do trauma, ou permanecer ali porque não tem para onde ir. Conheci pessoas que preferiram sair para não conviver com as memórias. Mas muita gente quer defender o lugar. Muitos moradores se envolveram no processo de resgate. Eles não querem ficar alheios das decisões. 

Mostrar o trabalho do resgate dos bombeiros, isso a televisão consegue fazer muito bem. Mas mostrar o drama da vida dessas pessoas em suas intimidades, o quanto toda essa situação machuca e destrói as comunidades, isso precisa ser mostrado pela fotografia. 

E o registro por meio da fotografia tem um papel fundamental nisso tudo. A gente não consegue impedir o que aconteceu. Mas precisamos encontrar soluções a curto, médio e longo prazo para restabelecer a vida dessas pessoas. Para mim algumas perdas serão irreparáveis, mas a fotografia tem e deve cumprir um papel de denúncia, principalmente. E é isso que eu defendo no meu trabalho. 

As pessoas precisam perceber o que gerou toda essa dor, questionar por que essa tragédia aconteceu, refletir por que a mineração acontece desse jeito. Claro que a gente não tem o diagnóstico de tudo agora, mas as comunidades estão denunciando e não podem ser esquecidas.