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27/01/2019 08:47 -02 | Atualizado 29/01/2019 13:43 -02

O que se sabe até agora sobre o impacto ambiental em Brumadinho

A lama que corre no rio Paraopeba deve chegar ao rio São Francisco. Contaminação por rejeitos de minérios pode provocar escassez hídrica.

ASSOCIATED PRESS
Rio Paraopeba sofre com lamaçal despejado por barragem que estourou.

Já são 37 mortes confirmadas na tragédia em Brumadinho (MG). Na última sexta-feira (25), a barragem da mina do Córrego do Feijão, operada pela Vale, rompeu e liberou cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba. Agora, outra barragem está em risco.

Apesar de não ser tóxica, a lama tem efeito imediato no sistema hídrico da região, já que diminui a quantidade de oxigênio disponível e arrasa com qualquer possibilidade de vida da fauna e flora aquática.

A dimensão do impacto ambiental em Brumadinho e arredores, contudo, ainda é difícil de se calcular.

De acordo com o biólogo Hugo Fernandes-Ferreira, doutor em Zoologia, há a esperança de que o nível de lama seja diluído próximo à região da barragem de Três Marias, que liga o Paraopeba ao rio São Francisco.

Para Márcia Hirota, diretora-executiva da organização SOS Mata Atlântica, a maior preocupação é que os rejeitos de minério causem um desequilíbrio no São Francisco provocando a sua escassez hídrica.

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Veja o que se sabe até agora sobre os danos ambientais do rompimento da barragem.

A lama é tóxica?

A lama não é toxica sob o ponto de vista químico. 

Os rejeitos da mineração são resultados do processamento que separa o minério de ferro bruto de suas impurezas, que não têm valor comercial. Esse “resto” contém partículas de minério, sílica e derivados de amônia.

A quantidade de rejeitos de minério diminui o oxigênio disponível na água do rio Paraopeba e mata a fauna e a flora aquática. À medida que a lama avança, ela não só contamina o rio, mas todo o sistema hídrico da região e os solos.

Qual o caminho que a lama está percorrendo?

A lama segue em direção ao reservatório de Três Marias, ponto que marca o encontro do rio Paraopeba com o rio São Francisco, o principal rio que abastece o Nordeste.

Estima-se que a lama percorra até 200 km de área. Ela está descendo a Serra dos Dois Irmãos, que é rica em Mata Atlântica. Ao longo do trajeto, a lama aumenta para 100% a mortandade dos animais aquáticos.

O que acontecerá quando a lama chegar ao rio São Francisco?

Ainda não é possível prever. Pode ser que ocorra a diluição dessa lama e, ao alcançar o reservatório, o impacto será menor na fauna e flora aquática. 

É possível calcular os impactos ambientais do rompimento da barragem?

Ainda não é possível mensurar a devastação ambiental. O que se pode afirmar é que nada sobrevive com pouco oxigênio disponível no rio e isso afeta não só os animais aquáticos, mas todo o entorno das regiões de margens.  

O que dizem os ambientalistas

De acordo com Marcia Hirota, da organização SOS Mata Atlântica, o desastre em Brumadinho (MG) atinge uma área importante da vegetação no País. 

“O que vemos com essa tragédia é o comprometimento do funcionamento não só da floresta, mas também dos serviços ambientais para as pessoas que vivem nesse região”, declarou em entrevista à GloboNews.

A principal preocupação é com a qualidade hídrica. De acordo com a especialista, a bacia do rio Paraopeba era de qualidade regular a boa. O rompimento da barragem pode afetar a qualidade da água para consumo na região e para outras atividades.

“A nossa maior preocupação é o impacto dos rejeitos no rio São Francisco. É uma ameaça e a nossa maior preocupação, porque contribui para a escassez hídrica”, explicou. 

Para a ONG WWF Brasil, toda a vida ao redor do rio Paraopeba deve ser atingida: “as populações que vivem ao redor da barragem, os trabalhadores da empresa que estavam no local durante o rompimento e toda a natureza ao redor do rio, um dos afluentes do São Francisco, maior bacia hidrográfica do país”.

Em nota, o Greenpeace Brasil afirmou que a sociedade brasileira não pode continuar sendo atingida por tragédias como essas.

“Até hoje, 3 anos após a onda de lama que destruiu a bacia do Rio Doce, as pessoas afetadas não só ainda lutam na Justiça para serem devidamente compensadas e o ecossistema, restaurado, como continuam sendo afetadas por problemas de saúde e prejuízos econômicos”, diz o comunicado. 

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A lista de localidades atingidas pelo rompimento de barragens de perigosos rejeitos de mineração em Minas Gerais só aumenta a cada ano: Itabirito, Miraí, Muriaé, Cataguazes, Mariana e agora Brumadinho. Um ditado africano diz que “sábios são os que aprendem com os erros dos outros e estúpidos os que não aprendem nem com seus próprios erros”. A bilionária e poderosa Vale do Rio Doce parece um gigante insensível. Protagonizar mais um acidente dessa natureza é inaceitável e imperdoável. Governos Federal e Estadual devem agir com urgência, como já estão atuando, e também competência para minimizar e reparar os danos causados, salvar as vidas em risco, mas acima de tudo, punir exemplarmente e adotar medidas que aumentem a segurança das operações de mineração no país. Até o momento o Corpo de Bombeiros estima em mais de 200 desaparecidos. Esperamos em Deus que não se convertam em mortos. Aqueles que dizem que o licenciamento ambiental atrapalha a realização dos empreendimentos deveria aprender com mais essa tragédia de que as empresas precisam observar protocolos de segurança ambiental tecnicamente consistentes para o bem de todos: empresa, da comunidade e do meio ambiente. Não sabemos se o processo de licenciamento foi bem feito ou não, se teve pressão politica ou não, se a empresa implementou os protocolos ou não, se houve fiscalização adequada ou não, o certo é que tornar o licenciamento ambiental mais fraco, como defende o presidente Bolsonaro e seu ministro do meio ambiente, é deixar a sociedade vulnerável à irresponsabilidade empresarial e negligência política, que produzirá certamente outras tragédias pelo país afora. É melhor não pagar para ver. O preço certamente será impagável. O Diretor presidente da Vale tratou como acidente o que aconteceu hoje em Brumadinho: #NãoÉacidenteÉcrime. Minha solidariedade aos familiares das vítimas, colegas de trabalho e ao povo de Brumadinho.

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A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva usou as suas redes sociais para fortalecer a campanha #NãoÉAcidenteÉCrime

“Os alertas vêm sendo feitos pelos órgãos ambientais, pelo Ministério Público e as empresas não tomam providência, ficam aguardando o momento em que o crime vai se concretizar enquanto aferem dividendos em prejuízo da vida das pessoas, do patrimônio social, cultural e ambiental da sociedade brasileira”, escreveu.