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26/01/2019 17:50 -02 | Atualizado 26/01/2019 17:50 -02

'Brumadinho não pode repetir Mariana, com o criminoso dizendo o que a vítima precisa'

De acordo com Pablo Dias, coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), fragilidade da fiscalização permite que esses desastres se repitam pelo País.

ASSOCIATED PRESS
Vista aérea de Brumadinho, onde barragem se rompeu e invadiu comunidade local.

O dia seguinte após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), é de tensão, medo e revolta para os moradores das comunidades atingidas.

De acordo com o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Pablo Dias, que acompanha as buscas pelas vítimas no local, ”é um momento emergencial” em que é necessário transferir o máximo de “conforto” para as vítimas.

Para Dias, ainda é impossível mensurar a dimensão do impacto ambiental e social do rompimento que liberou cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba, que atravessa a região. Ele ressalta, porém, que o plano de reparação de Brumadinho não pode repetir o que aconteceu em Mariana, em 2015, quando “os criminosos decidiram o que as vítimas precisavam”. 

“As mineradoras tiveram todo o controle do processo de reestruturação, não só financeiro, mas em todas as ações. Era o criminoso dizendo o que as vítimas precisavam”, argumenta o ativista, em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Mariana não foi o suficiente para chamar atenção das autoridades e nem da Justiça. Não é acidente. É preciso fiscalizar. A fragilidade dessa fiscalização permite que casos como os de Mariana e Brumadinho se repitam em qualquer lugar do País”, completa.

O rompimento da barreira de Fundão, da Samarco, em Mariana, é considerado a maior tragédia ambiental na História do Brasil. No total, 19 pessoas morreram. Em Brumadinho, levantamento mais recente confirmou 34 mortes.

Pedro Vilela via Getty Images
Rompimento de barragem em Brumadinho liberou cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba. 

Leia a entrevista da íntegra.

Como a sociedade brasileira pode ajudar as vítimas de Brumadinho? 

Pablo Dias: Esse primeiro momento é emergencial. Quanto mais vidas, quanto mais conforto e acalento para as vítimas atingidas a gente puder oferecer, melhor. As comunidades precisam de água, alimentos e do restabelecimento das moradias. É necessário uma atenção primária.

Mas desde já a gente se preocupa com o processo de reestruturação. E nesse sentido a sociedade pode ter uma ampla participação cobrando fiscalização e dando visibilidade às denúncias.

Não pode ser repetido o que houve em Mariana: as mineradoras tiveram todo o controle do processo de reestruturação, não só financeiro, mas em todas as ações. Era o criminoso dizendo o que as vítimas precisavam. E não pode ser assim; as comunidades atingidas precisam participar de maneira ativa e ter sua voz validada no processo de construção do plano de reparação. A sociedade brasileira precisa ajudar a decidir sobre as legislações ambientais, sobre aceitar ou não a construção de novas barragens. Isso é essencial.

Essa nova tragédia servirá para pressionar a fiscalização e maior rigor no licenciamento ambiental no País? 

A gente tinha a expectativa que depois de Mariana a legislação ambiental fosse revista, mas não foi o suficiente para chamar atenção das autoridades e nem da Justiça. Isso porque Mariana não foi o primeiro caso de rompimento de barragem no Brasil, mas foi o de maior extensão até agora. Precisamos entender o que vai acontecer com Brumadinho. 

No caso de Mariana, por exemplo, a Justiça que acompanha a situação do rio Doce só tem dado decisões a favor dos criminosos. Essa impunidade e a não atenção à revisão dos licenciamentos ambientais possibilitam que novos crimes ocorram. Não é acidente. É preciso fiscalizar. A pressão contra as mineradoras é diminuída, e o Estado é incapaz de monitorar as situações das barragens. Esse é o combo perfeito para os riscos ambientais e humanos. A fragilidade dessa fiscalização permite que casos como os de Mariana e Brumadinho se repitam em qualquer lugar do País. 

As comunidades atingidas precisam participar de maneira ativa e ter sua voz validada no processo de construção do plano de reparação de BrumadinhoPablo Dias

Já é possível ter dimensão do impacto ambiental do rompimento dessa barragem em Brumadinho?

Uma das grandes preocupações é se a água que abastece a região de Belo Horizonte também será afetada. O rio Paraopeba deságua no São Francisco, então há a possibilidade de contaminá-lo. O crime ocorrido em Mariana nos dá pistas sobre as possíveis consequências, mas ainda não temos a dimensão da situação de Brumadinho. 

E dos impactos sociais?

A comunidade do Córrego do Feijão está muito tensa, comovida e preocupada. Os espaços próximos às casas não foram afetados pela lema, mas grande parte dos familiares e amigos dos moradores estão desaparecidos. Os bombeiros e a Polícia Civil estão atuando na região, mas a lentidão e a dificuldade de acesso às informações deixam os moradores revoltados. Não temos dados oficiais do número de mortos ainda, porque as buscas continuam. Mas, aqui, já vimos os helicópteros retirarem dezenas de corpos. 

Há grandes chances de que o impacto humano, em relação ao número de vítimas, seja maior que em Mariana. Mas não é só isso, ainda é impossível mensurar a dimensão da extensão do dano social. Até agora a lama não parou de correr.

Rompimento de barragem em Brumadinho deixa centenas de desaparecidos

Na última sexta-feira (25), a barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), operada pela empresa Vale, rompeu e liberou cerca de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Paraopeba, que atravessa a região.

O presidente da Vale, Fábio Schvartsman, lamentou o ocorrido.

“Não existem palavras que possam explicar a dor que estou sentindo pelo que terá sido causado às vítimas”, afirmou a alguns jornalistas, no Rio de Janeiro, após voltar de viagem à Suíça, onde participou do Fórum de Davos.

A barragem 1, que se rompeu, estava paralisada havia mais de 3 anos e estava sendo descomissionada, disse Schvartsman. 

A tragédia na região já deixou 34 mortos, segundo dados divulgados por volta das 18 horas deste sábado. São cerca de 300 pessoas desaparecidas e 81 desabrigadas.

O acidente ocorreu mais de 3 anos depois de a barragem Fundão, da Samarco, joint venture da Vale e da BHP Billiton, ter se rompido em Mariana (MG).

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