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26/08/2019 23:57 -03 | Atualizado 27/08/2019 17:25 -03

Governo diz que Brasil vai rejeitar ajuda do G7, anunciada por Macron, para a Amazônia

Em entrevista ao Roda Viva, ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi na contramão e disse que assistência internacional ‘parece uma ajuda importante de ser aceita’.

Adriano Machado / Reuters
Brazil's President Jair Bolsonaro and Brazil's Environment Minister Ricardo Salles attend an Soldier's Day ceremony, in Brasilia, Brazil August 23, 2019. REUTERS/Adriano Machado

O governo brasileiro vai dizer não aos US$ 20 milhões, oferecidos pelo G7 para preservação da Amazônia. A ajuda foi anunciada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, nesta segunda-feira (26). Ao G1, o ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, afirmou que o dinheiro “talvez seja mais relevante para reflorestar a Europa”.

Discurso semelhante foi feito pelo presidente Jair Bolsonaro ao dizer que não precisava de dinheiro da Alemanha e da Noruega para a floresta. Ao governo norueguês, Bolsonaro sugeriu “pegar a grana” e ajudar “a Angela Merkel [chanceler alemã] a reflorestar a Alemanha”.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que disse ter um olhar mais técnico, no entanto, tem uma posição diferente. Em entrevista ao Roda Viva, na noite desta segunda, ele afirmou que a assistência oferecida pelo G7 “parece uma ajuda importante de ser aceita”.

Ele disse que, pelo que leu, “os US$ 20 milhões viriam através da colocação de equipamentos, teriam sido oferecidos por aviões, em sendo assim, me parece uma ajuda importante de ser aceita”.

Salles, porém, afirmou que “as medidas necessária para conter o fogo e combater o desmatamento ilegal estão sendo adotadas pelo governo federal independentemente de qualquer ajuda estrangeira”. “Houve um descontigenciado R$ 39 milhões, um volume de recursos significativo, e deve dar fôlego às atividades da GLO (Garantia da Lei e Ordem) em andamento.”

O ministro também ressaltou que o papel dele e da Casa Civil são diferentes. Segundo ele, o ministro Onyx tem papel político e ele tem uma visão mais técnica, “no sentido de agregar o máximo de equipamentos ou instrumentos disponíveis para atacar o problema como ele é”.

Afirmou ainda que a mensuração sobre a necessidade dos recursos internacionais não é papel dele. “Essa definição sobre a pertinência, necessidades emprego dos equipamentos deverá ser corroborada pelos técnicos do Ministério da Defesa e Estados.”

O ministro também acredita que o dano da imagem do Brasil no exterior por causa da crise ambiental é menor do que o anunciado. Ele evitou ainda responder objetivamente perguntas que contradissessem opiniões do presidente Jair Bolsonaro, como qual seria o papel das ONGs no desmate.  Divergiu, porém, do chanceler Ernesto Araújo e disse que, diferente do que acredita o colega de Esplanada, a posição do governo é de que existe, sim, aquecimento global. 

Bolsonaro X Macron

O presidente Jair Bolsonaro tem trocado farpas com o presidente francês, Emmanuel Macron, desde a semana passada. Nesta segunda, Bolsonaro voltou a atacá-lo. “‘Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia’. Será que alguém ajuda alguém, a não ser uma pessoa pobre, né, sem retorno? [...] O que que eles querem lá há tanto tempo?”, questionou em uma fala na saída do Palácio da Alvorada, na qual não respondeu a perguntas dos jornalistas.

No fim de semana, Bolsonaro protagonizou um episódio de ataque à vida pessoal de Macron. Um seguidor comentou em uma publicação do presidente brasileiro uma foto de Bolsonaro e Michelle e outra de Macron e Macron e Brigitte com a legenda: “Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro?”. O ex-deputado respondeu: “Não humilha cara. Kkkkkkk”.

Macron respondeu. Disse que os brasileiros “merecem um presidente que se comporte à altura” do cargo e que “as mulheres brasileiras sem dúvida têm um pouco de vergonha [de seu presidente]”. “O que eu posso dizer a vocês? É triste, é triste, mas é em primeiro lugar triste para ele e para os brasileiros”, emendou. 

Macron tem feito críticas à conduta do governo brasileiro em relação ao desmate na Amazônia. Na avaliação do presidente francês, as queimadas na Amazônia geram uma crise internacional. Foi por iniciativa dele que os países membros do G7 foram convocados a discutir o tema.

Entre janeiro e 21 de agosto, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou 75.336 focos de incêndio, 84% a mais do que no mesmo período de 2018. Segundo ambientalistas, a multiplicação dos incêndios ocorre devido ao rápido avanço do desmatamento na região amazônica, que em julho quadruplicou em relação ao mesmo mês de 2018, de acordo com dados do Inpe.