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04/01/2020 07:36 -03

Em nova ruptura da tradição diplomática brasileira, governo assume lado no conflito EUA-Irã

'Nossa posição é a de se aliar a qualquer país do mundo no combate ao terrorismo', disse o presidente Jair Bolsonaro em entrevista.

Ueslei Marcelino / Reuters
"O Brasil não pode permanecer indiferente a essa ameaça, que afeta inclusive a América do Sul”, diz nota do Itamaraty sobre o Irã, divulgada pelo chanceler, Ernesto Araújo.

Seguindo a linha de ruptura com a tradição diplomática brasileira, o governo de Jair Bolsonaro se posicionou em relação ao conflito entre Estados Unidos e Irã, que escalou drasticamente nesta sexta-feira (3) após Donald Trump ordenar a morte do segundo homem mais poderoso do Irã.

“A nossa posição é a de se aliar a qualquer país do mundo no combate ao terrorismo. Nós sabemos o que em grande parte o Irã representa para os seus vizinhos e para o mundo”, disse Bolsonaro em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, na TV Bandeirantes, na noite de sexta.

Os Estados Unidos mataram, no Iraque, o general Qasem Soleimani, que liderava o braço de elite da Guarda Revolucionária do Irã, após uma invasão, por milicianos, à embaixada americana em Bagdá. Teerã prometeu vingança.

A fala de Bolsonaro foi ao encontro de nota do Itamaraty divulgada pelo chanceler Ernesto Araújo: “O Governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo”.

O texto diz que o Brasil “não pode permanecer indiferente a essa ameaça” e “apela uma vez mais para a unidade de todas as nações contra o terrorismo em todas as suas formas”.

“O terrorismo não pode ser considerado um problema restrito ao Oriente Médio e aos países desenvolvidos, e o Brasil não pode permanecer indiferente a essa ameaça, que afeta inclusive a América do Sul”, diz o texto.

Wana News Agency / Reuters
Manifestantes protestam em Teerã contra a morte do general Qasem Soleimani.

Os Estados Unidos incluiram, em abril deste ano, a Guarda Revolucionária do Irã na sua lista de organizações terroristas.

No Brasil, o termo “terrorismo” nunca havia sido usado em relação ao Irã até então. Pelo contrário: o país sempre manteve boa relação com Teerã e, no governo Lula, chegou a intermediar, com a Turquia, a negociação de um acordo sobre o programa nuclear do país - que não chegou a ser concretizado.

A relação chegou a esfriar um pouco com o governo de Dilma Rousseff, mas o Brasil nunca havia se posicionado contra o regime iraniano, como fez agora.

O Itamaraty, aliás, tinha, até 2018, a tradição de não se posicionar sobre conflitos externos e defender sempre o diálogo como primeira opção.

As exportações brasileiras para o Irã somaram US$ 2,1 bilhões no ano passado, sendo milho, soja e carne bovina os principais produtos vendidos ao país persa. O montante representa 6 vezes o valor exportado, por exemplo, para Israel.