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17/06/2020 20:19 -03

Na ONU, Brasil se opôs a investigação sobre violência policial contra negros nos EUA

Em reunião do Conselho de Direitos Humanos, convocada após assassinato de George Floyd, Brasil afirmou ser necessário reconhecer o papel da polícia.

Spencer Platt via Getty Images

O governo brasileiro foi contrário a criação de uma comissão para investigar violência policial contra negros nos Estados Unidos no âmbito do Conselho de Direitos Humanos. A reunião do colegiado desta quarta-feira (17) foi convocada para discutir violência policial e racismo depois da morte de George Floyd.

De acordo com a coluna do jornalista Jamil Chade no UOL, o Brasil não se solidarizou com a família de Floyd nem citou a série de protestos que ocorreu em vários países, inclusive em cidades brasileiras, após o brutal assassinato. Em vez disso, representantes do País sinalizou a necessidade de reconhecer o papel da polícia.

Grupo de 54 países africanos sugeriu criar a comissão de inquérito para investigar crimes cometidos nos EUA e em outros países que vivem a mesma situação. Mas há resistências no conselho. O Brasil, entre outros países, afirmou que o grupo não deve apontar dedo apenas para um país. “O racismo não é exclusivo a nenhuma região específica”, esse a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo.

“A conscientização é tão importante quanto reconhecer o papel indispensável das forças policiais para garantir a segurança pública e proteger o direito a uma existência pacífica e segura, o direito à própria vida”, disse.

Os países africanos afirmam que a morte do americano George Floyd “infelizmente não era um incidente isolado”. No Brasil, manifestantes e ativistas têm ressaltado o racismo sistêmico no País e, assim como em outros países, pegaram carona nos protestos dos EUA para chamar atenção para a realidade local.

No Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. Nos últimos dois anos, pelo menos sete casos de crianças ou adolescentes deixaram de ser apenas números para ganhar o noticiário e chocar o País. Sete vidas negras que foram interrompidas pela violência policial, fruto do racismo estrutural: Agatha Felix (8 anos), Kauã Ribeiro (12 anos), Jenifer Gomes (11 anos), Kauan Peixoto (12 anos),  Pedro Gonzaga (19 anos) e João Pedro (14 anos).

Em entrevista ao HuffPost, Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional, destacou que o discurso racista sempre disse que o negro brasileiro era acomodado. “Já passou da hora de se rever isso. O chamado é para a gente ser antirracista e olhar para o mundo e agir por essa lente. É preciso questionar esses lugares-comuns que se repetem indefinidamente porque o racismo não acaba”, alerta.

Para a ativista, também não faz sentido refletir sobre o racismo a partir de diferenças demográficas. Nos EUA, negros são minoria; já no Brasil compõem 56% da população. “Se eu for uma pessoa negra nos bairros negros dos Estados Unidos ou no Brasil, a dor, a violência e a produção de morte será igual. Independentemente das condições de minoria ou maioria, a experiência real do racismo é igual”, afirma. 

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