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08/08/2020 18:07 -03 | Atualizado 08/08/2020 18:07 -03

Em sua maior tragédia, Brasil atinge a marca de 100 mil mortos em menos de 5 meses

A cada 7 mortos no mundo desde o início da pandemia, um é brasileiro. Brasil também ultrapassou os 3 milhões de casos confirmados neste sábado.

Bruno Kelly / reuters
“Vamos tocar a vida, tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, disse Jair Bolsonaro sobre as 100 mil mortes por covid no Brasil.

100 mil mortos em menos de 5 meses. A maior tragédia da história brasileira alcançou a triste marca neste sábado (8), de acordo com levantamento do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com registros dos estados compilados até as 18h. Só nas últimas 24 horas foram 905 mortes confirmadas, totalizando 100.477.

A cada 7 mortos no mundo desde o início da pandemia, um é brasileiro. O Brasil só perde no número de vítimas para os Estados Unidos, mas há fortes indícios de subnotificação.

Em um raro comentário sobre o número espantoso de vítimas, o presidente Jair Bolsonaro disse na última quinta-feira apenas “lamentar todas as mortes”, mas disse para os brasileiros “tocarem a vida”. “Vamos tocar a vida, tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, afirmou. Neste sábado, até a publicação deste texto, ele não havia manifestado sobre os 100 mil mortos.

Bolsonaro minimizou desde o início a pandemia e o novo coronavírus. Além de se posicionar contrário ao isolamento social, disse várias vezes se tratar de uma “gripezinha” e chegou a questionar o número de mortes, sugerindo que governadores estariam inflando os dados.  

Ao mesmo tempo em que negava a gravidade da epidemia, chegando a ocultar dados, o governo de Jair Bolsonaro apostou em pautas diversionistas. O presidente tirou 2 ministros da Saúde por discordarem de seu posicionamento sobre isolamento e de sua defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid, como a cloroquina e a hidroxicloroquina. Até hoje, após 90 dias, o Ministério da Saúde segue com um general à sua frente como ministro interino.

“Era perfeitamente possível não termos chegado a 100 mil mortes. Provavelmente se tivéssemos continuado com a gestão do nosso primeiro ministro de saúde [Luiz Henrique Mandetta] a conduzir a pandemia, na época em que tínhamos um. A partir do momento em que você assume nacionalmente o negacionismo da ciência, da doença e da pandemia, com certeza esse cenário se torna inevitável”, afirmou a bióloga Natália Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência, ao HuffPost Brasil.

ASSOCIATED PRESS
"A partir do momento em que você assume nacionalmente o negacionismo da ciência, da doença e da pandemia, com certeza esse cenário se torna inevitável", diz bióloga Natália Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência.

Mortes nos estados

Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera o ranking de vítimas fatais com 25.016 registros, seguido pelo Rio de Janeiro, com 14.070, Ceará (7.951), Pernambuco (6.920) e Pará (5.871).

Quanto ao número de casos, em 24 horas foram 49.970 novas confirmações. O acumulado é de 3.012.412. 

O Brasil também só fica atrás dos Estados Unidos no ranking mundial de casos confirmados, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

No território norte-americano, foram registrados mais de 4,98 milhões de casos. A diferença das taxas de testagem entre os dois países - 37.188 testes por milhão de habitantes nos EUA e 8.737 por milhão de habitantes no Brasil - por sua vez, é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro.

O novo coronavírus já causou mais de 723,5 mil mortes no mundo. São quase 19,5 milhões de casos confirmados, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins atualizados neste sábado.

Alexandre Schneider via Getty Images
Grafite em São Paulo relembra fala de Bolsonaro sobre os mortos por covid em abril, quando o País tinha 5 mil vítimas: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?"

Falta de coordenação e número de mortos 

Na avaliação do infectologista Julio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, a saída dos 2 ministros foi um ponto de virada. “Foi um mês de diferença entre esses 2 episódios em um dos momentos mais críticos da pandemia, em que a região Norte já vinha sofrendo - a região Nordeste também, Fortaleza principalmente, além de São Paulo - e que você trocou o comando e também muito da equipe técnica”, afirma. O médico deixou a pasta em março, ainda na gestão Mandetta.

Hoje a cúpula do ministério é formada por pessoas sem experiência em gestão do sistema de saúde, em um processo de militarização. Desde maio, a pasta passou a contar com 25 militares em postos de comando e mais de 300 em cargos nos demais escalões.

É unanimidade entre os sanitaristas que a falta de coordenação foi o principal erro. “A questão não é chegar aos 100 mil óbitos. É chegar aos 100 mil com óbitos que poderiam ser evitados, principalmente aqueles pacientes que morreram nas suas residências ou em unidades de pronto atendimento. Pacientes que morreram fora de um leito de terapia intensiva são mortes que podiam ter sido evitadas”, afirma Croda.

Para o especialista, com uma boa coordenação, o governo federal poderia ter apoiado estados e municípios para evitar o colapso. “Nós nunca tivemos um plano federal para implementação de medidas de distanciamento social principalmente para monitorar cidades que iriam colapsar e apoiar essas cidades, com o fechamento. Poderia ter enviado tropas do Exército para garantir que ninguém saísse de casa, poderia aumentar estrutura de hospitais de campanha e a gente viu algumas tragédias sendo contadas”, afirma.

Epidemia está longe de fim 

Os números devem mudar porque a epidemia ainda está longe de acabar no Brasil. Apesar de ter sido observado certo arrefecimento nas grandes capitais, como Manaus e São Paulo, a crise sanitária continua grave em boa parte do País, especialmente no interior e em estados do Sul e Centro-Oeste. 

Alessandra del Bene via Getty Images
Manifestação organizada na praia de Copacabana pela ONG Rio de Paz neste sábado (8) lembra os 100 mil mortos pela covid-19.

Quando olhamos os dados nacionais, os gráficos epidemiológicos assumiram a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes acumulados. Por outro lado, os casos e óbitos diários, que indicam o ritmo da epidemia, não estabilizaram.

Houve uma inversão de comportamento ao longo do tempo, com a interiorização da epidemia. Segundo boletim mais recente do Ministério da Saúde, 5.475 (98,2%) dos municípios têm casos confirmados de covid-19 e 3.476 (52,4%) cidades registraram mortes causadas pela covid-19.

As curvas epidemiológicas das capitais estão diminuindo, e as do interior estão aumentando, mas a segunda ainda não ultrapassou a primeira. Das 7.114 registradas na semana encerrada em 1º de agosto, 52% foram na região metropolitana e 48% no interior.

A semana com dados mais recentes disponíveis foi uma das mais graves da pandemia do novo coronavírus no Brasil. A média diária de diagnósticos foi de 44.766, patamar semelhante ao da semana anterior (45.665), recorde até o momento.

Já a média diária de óbitos na semana encerrada em 1º de agosto foi de 1.016, nível semelhante ao das semanas anteriores. A primeira vez que o Brasil registrou mais de mil mortes por dia foi em 19 de maio. Desde então, isso aconteceu mais de 40 vezes.