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17/08/2019 09:25 -03 | Atualizado 17/08/2019 09:25 -03

'Se nada for feito, produção de alimentos entrará em colapso', prevê professor neozelandês

Ao HuffPost, Boyd Swinburn, um dos maiores defensores de um sistema alimentar justo, revela como a obesidade, desnutrição e aquecimento global estão interligados em um sistema alimentar nada sustentável.

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Nosso sistema alimentar ― desde a produção, exploração de recursos, transporte, venda e consumo ― está no vermelho com o planeta. E não estamos nos dando conta disso. 

Esta é a principal mensagem do cientista neozelandês Boyd Swinburn. Ele é professor de Nutrição Populacional e Saúde Global da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e referência mundial em pesquisas sobre obesidade populacional. 

Swinburn visitou o Brasil nesta última semana a convite do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) para divulgar seu relatório A Sindemia Global da Obesidade, Desnutrição e Mudanças Climáticas. O estudo, disponível em português, foi publicado originalmente no início deste ano pela renomada revista científica The Lancet.

Em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, o professor explicou como as três epidemias ― obesidade, desnutrição e aquecimento global ― estão interligadas, apesar de não parecerem.

O relatório revela também previsões preocupantes: se nada for feito, o mundo sentirá de forma consistente os efeitos devastadores das mudanças climáticas. Eles recairão sobre a saúde humana, com problemas relacionados à insegurança alimentar e desnutrição. 

Para o professor e demais coautores do relatório, a falta de regulamentação em produtos junk food, fast food e outros alimentos ultraprocessados e açucarados está aumentando ainda mais a obesidade no mundo, e consequentemente, deteriorando a saúde de milhões de pessoas.

Esse cenário, alegam os pesquisadores, mostra como o atual sistema alimentar global é falho ― e precisa ser repensado. “Esses complexos sistemas que temos hoje de alimentação, de transportes e desmatamento estão levando ao colapso do ambiente e incitando enormes problemas de saúde”, disse Swinburn ao HuffPost na última quinta-feira (15).

A obesidade disparou globalmente nas últimas quatro décadas, com um aumento de oito vezes entre meninas e de dez vezes nos meninos. Entre adultos, o crescimento da obesidade também foi implacável. Em 2015, a obesidade avançou 14,9% entre as mulheres e 10% entre os homens, em relação ao ano anterior. No mesmo ano, cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo sofreram com excesso de peso. O custo mundial estimado da obesidade é de cerca de US$ 2 trilhões anualmente. 

No Brasil, não é diferente. Em 13 anos, a obesidade cresceu 67% e, hoje, atinge quase 20% dos brasileiros. Os que têm excesso de peso chegam a 56% da população

Para Swinburn, os lucros da indústria do refrigerante e de ultraprocessados têm afetado a saúde de milhares de pessoas ao redor do mundo. O consumo exagerado desses produtos desencadeia aumento de peso, assim como doenças crônicas como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, e outras condições associadas. 

“O lobby da indústria alimentar sobre regulamentações é a grande razão que explica porque ainda convivemos com essas epidemias”, disse.

O professor neozelandês é um dos maiores defensores de um sistema alimentar justo, eficiente e, acima de tudo, sustentável. Leia abaixo a entrevista completa.

HuffPost: Qual é o conceito de Sindemia Global? 

Boyd Swinburn: Sindemia Global é uma sinergia de uma mistura de epidemias, que negativamente interagem entre si. Acreditamos que um dos grandes problemas que enfrentamos hoje em dia na nutrição é a má-nutrição, a obesidade e o aquecimento global. Pessoas normalmente não pensam nestas três pandemias juntas, mas tentamos mostrá-las em uma só concepção. Assim as pessoas podem ver como todas elas estão interligadas e têm a mesma causa. Se conseguirmos fazer com que o mundo veja dessa forma, será um êxito.

Como estas três epidemias estão interligadas?

Elas se relacionam, em particular, com os mudanças climáticas que estamos observando, como enchentes, secas, tempestades e outras catástrofes causadas pelo aquecimento global. Isso terá um grande efeito na insegurança alimentar, e provavelmente vai aumentar a desnutrição no mundo. Já estamos vendo isso em muitas regiões. Então essa conexão entre mudança climática e desnutrição já está estabelecida. O que também já está estabelecido, mas não muito reconhecido, é quantas crianças, muito pequenas, estão obesas, enfrentando doenças crônicas como adultos. As causas estão conectadas aos enormes sistemas que os humanos criaram. E esses sistemas complexos, como o alimentar, de transportes, o design urbano e terras e desmatamento, que temos hoje estão levando ao colapso do ambiente, e incitando enormes problemas de saúde. 

O que explica, resumidamente, a explosão da obesidade? No Brasil, os últimos dados mostram que a obesidade aumentou 68% em 13 anos, e hoje atinge 20% da população.

Isso não só acontece no Brasil, mas no mundo. Começou lá nos anos 70, um pouco depois em países em desenvolvimento. Os países ricos conseguiram manter os números, mas todos estão na mesma direção de alta [dos níveis da obesidade].

As causas são globais e são muitas, mas algumas explicações plausíveis são a globalização, a política econômica liberal, e abordagem liberal desde os anos 70 de regulações relacionadas à indústria alimentar e abertura de fronteiras para exportação e importação de produtos. As sofisticações de técnicas de marketing de alimentos, sistemas de distribuição, todos estas etapas da globalização influenciaram na mudança de hábito dos brasileiros e de outras populações, mas principalmente: tem sido a pouca atuação dos nossos governos, que controlam as políticas e leis. 

A obesidade infantil é um dos pontos que você trata em seu relatório. Em 2025, teremos mais de 11 milhões de crianças obesas no Brasil. Será preciso lidar com o açúcar e fast-food como lidamos com o tabaco? 

Muitos países fizeram um ótimo trabalho para controlar o consumo de tabaco, e não fizeram isso apenas educando a população, mas mexendo nas regulamentações, nos impostos e nas leis que proíbem cigarro em lugares fechados e particulares e investindo em políticas públicas. Precisamos aplicar os mesmos princípios para reduzir obesidade, como taxar bebidas açucaradas, por exemplo. Mas o problema é: os governos não fazem isso. 

Sabemos que essas ferramentas são efetivas, mas os governos preferem trabalhar com as indústrias, preferem incentivar a educação alimentar ― mas isso não funciona!

Algumas das iniciativas que podem funcionar é melhorar e aumentar as informações nas embalagens dos alimentos, restringir o marketing de junk food para crianças, taxar bebidas açucaradas, como refrigerantes, e priorizar alimentos orgânicos e saudáveis em escolas.

Estas ações são o início de uma mudança real na sociedade. Alguns países já progrediram, mas ainda estamos esperando o primeiro país a realmente fazer alguma coisa a respeito. 

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O senhor acredita que há um lobby da indústria de alimentos que barra leis e políticas públicas que combatem alimentos não saudáveis?

Este é um dos mais importantes motivos pelos quais não estamos progredindo. Você pode imaginar: se não tivesse um lobby contra essas políticas, o governo continuaria sentado sem fazer nada, observando essas epidemias se alastrarem? Eles não fariam isso, eles agiriam, pois perdem muito dinheiro com sistemas de saúde.

Se não tivesse a oposição da indústria, já teríamos avançado muito. A oposição da indústria alimentar sobre regulamentações e taxas é a grande razão que explica porque ainda convivemos com essas epidemias [como obesidade e doenças crônicas]. 

Além deste lobby, é possível afirmar que o trabalho e atual estilo de vida, com muito estresse e saúde mental abalada, está nos deixando mais doentes e obesos? 

Eu acho que quem mora na cidade tem uma vida estressante e nada saudável. Essas pessoas poderiam investir mais tempo na natureza, poderiam trabalhar menos. Mas tem tanto estresse em grandes cidades, principalmente se você é pobre ― aliás este é, na verdade, o maior problema. E eu acho que isso contribui para a obesidade, mas de uma forma indireta.

Você tem menos tempo para levar uma vida saudável. Se você não tem dinheiro, tende a ter múltiplos empregos. Você trabalha o dia todo, fica no trânsito e, no final do dia, você quer passar tempo com sua família e filhos, então vai preparar a comida mais fácil que tiver, e vai ser algum alimento ultraprocessado. Esse estilo de vida é ruim, faz com que a gente coma alimentos mais rápidos e práticos, e que também são mais baratos.

Esse é outro problema do nosso sistema alimentar: ele torna alimentos calóricos e não saudáveis os mais baratos, práticos e acessíveis.

Existe no Brasil, inclusive, uma enorme desigualdade também alimentar. Feiras livres, produtos orgânicos e saudáveis estão nos centro das cidades e são mais caros do que ultraprocessados. Como o governo pode atuar nesta questão? 

Uma das coisas que tentamos fazer neste relatório é dizer que isso é um problema sistêmico. E o sistema está entregando perfeitamente o que ele foi designado. Isso significa que seu funcionamento está errado, precisamos voltar ao nosso sistema alimentar e redesenhar para que supra quatro pontos essenciais: saúde, equidade, sustentabilidade e prosperidade.

Precisamos pensar na prosperidade. Se conseguirmos redesenhar o sistema alimentar com esses quatro pilares em mente, podemos ter um sistema completamente diferente do que temos hoje. Não acho que conseguiremos isso sem ajuda. Precisará de um enorme esforço governamental para criar políticas sociais e econômicas favoráveis. 

Também de mais transparência sobre o que comemos. É preciso mudar as embalagens, mostrar aos cidadãos os ingredientes, de onde eles vêm. Não é só uma enorme sinalização ao consumidor, mas também à indústria, que se preocupará mais com isso. Eles não querem perder consumidores, então vão reformular seus produtos. 

Precisamos de mais políticas. Só investir em educação não é o bastante.

O relatório publicado na The Lancet afirma que o atual sistema de produção de alimento está degradando o ambiente mais rápido do que o ecossistema é capaz de reparar. Neste ano, por exemplo, a humanidade já esgotou seus recursos para todo o ano antes de agosto. É possível dizer que, ironicamente, nossa atual produção de alimentos é uma das maiores ‘culpadas’ pela iminente falta de alimentos no futuro?

Sim e isso não está longe de acontecer. Tenho filhos e netos e eles terão que lidar com as consequências de tudo que estamos fazendo. Ainda podemos voltar atrás, ainda somos capazes de mudar o nosso futuro, temos todos esses relatórios de órgãos confiáveis, nós sabemos o que fazer… Só não estamos fazendo. 

E quem tem o poder nas mãos não são os governantes, é a sociedade civil. Ela tem a voz e poder de ação para exigir essas políticas para nossos filhos e netos. 

Por onde começamos, afinal?

Nada está acontecendo por enquanto, mas em alguns anos precisaremos nos mexer. Sou otimista e acho que em 5 anos será impossível para qualquer político se eleger ou reeleger sem apresentar alguma ação forte sobre as mudanças climáticas na agenda. 

Se não tivermos esse movimento, a nossa janela está se fechando. Eu realmente acho que todo mundo come, todo mundo ama comer, usam a culinária para socializar, todo a a sociedade está de alguma forma conectada pela alimentação. Tem muita paixão pela comida. Qual é a narrativa coletiva que coloca todas essas pessoas juntas, que demanda políticas sociais e econômicas para que esse sistema não entre em colapso? É isso que precisamos encontrar. 

O presidente Jair Bolsonaro já negou diversas vezes dados que mostram desmatamento na Amazônia. Como o senhor avalia a postura do presidente para essas questões? 

Ele, como tantos outros presidentes no mundo, está indo para uma direção completamente diferente daquela que pesquisadores e ambientalistas dizem que precisamos caminhar. E é claro que esses presidentes estão ajudando a destruir o planeta. Os cientistas os chamam de “killer clowns”(palhaços assassinos). Eles têm narrativas que precisam ser mudadas, rebatidas. Precisamos discutir o futuro das pessoas neste planeta. E, para isso, precisamos criar um movimento que conscientize todo mundo.

Não acho que encontramos uma narrativa para esse movimento, acho que é um trabalho que ainda deve ser feito. Mas acredito que se tivermos uma demanda da população por ações mais efetivas, teremos em nossa frente uma crise absoluta de um sistema de alimentação falho, e mais esperamos, mais seremos forçados a fazer más escolhas sobre isso.

Precisamos nos movimentar para fazer decisões agora. Será difícil, será um desafio mexer nessas estruturas, mas precisamos fazê-lo.

Se nada mudar, quanto tempo ainda temos antes do sistema de alimentação entrar em colapso?

A última previsão do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas [IPCC, na sigla em inglês] é de que populações vulneráveis já sofram consequências das alterações climáticas em 2030, como insegurança alimentar e fome. Ou seja, daqui 11 anos, e isso é um intervalo de tempo bem curto. Não temos tanto tempo para mudar, para tornar nosso sistema mais sustentável. Estamos discutindo como conseguir mudar todo este sistema em apenas uma geração, para que esse sistema fique sustentável para as próximas gerações. É preciso desenvolver uma narrativa que mostre o quanto precisamos agir e mudar. Não podemos apenas confiar na agenda dos governantes. 

Quem serão os mais afetados por esse colapso no sistema alimentar?

Isso é perfeitamente claro: pessoas pobres e países pobres. Digo, já estamos vendo isso na Síria, um longo período de migrações, de guerras, de fome, de mudanças climáticas. As principais regiões afetadas pelas mudanças climáticas ficam perto da linha do equador, e é exatamente onde os países em desenvolvimento estão.

Não há dúvidas de que os primeiros a sentirem esse colapso na produção de alimentos causado pelo aquecimento global serão os mais pobres.

Enquanto a agricultura é o maior responsável pelo desmatamento no Brasil, defensores do setor alegam que é preciso ampliar os campos para produção. É preciso desmatar para produzir mais alimentos?

Não, o nosso sistema produtivo, com pastos enormes de gado e cultivo de soja e outros grãos apenas para alimentar o pasto, é incrivelmente ineficiente para alimentar pessoas. Se investirmos em uma produção mais sustentável, não precisamos de mais terras, de mais desmatamentos. Esse argumento de derrubar florestas para alimentar gente não faz o menor sentido. Para início de conversa, nós desperdiçamos cerca de 30% de tudo que produzimos, então o sistema de produção atual não vai alimentar 10 bilhões de pessoas sem inovações, sem tecnologias e produção sustentável. 

Ter uma alimentação vegetariana pode ajudar o planeta?

Eu acho que sim. Diminuir o consumo de carne é uma medida essencial para uma produção menos agressiva ao ambiente. É mais sustentável e saudável, mas sabemos que não é comum no mundo, especialmente no Brasil e na Argentina, então é uma mudança de hábito que vem com o tempo. 

Mas, imagina se em cada embalagem tivermos a informação da pegada ecológica de cada alimento que consumimos. Essas informações podem mudar o comportamento do consumidor, e depois da própria indústria. Isso pode ser fundamental. 

Se tivermos um sistema de produção mais transparente, saberemos de onde vem nossa comida e também será menor o risco de abuso de direitos humanos em países em desenvolvimento.

Imagina o impacto se as empresas do varejo certificarem que seus alimentos não vêm de desmatamento, se são alimentos orgânicos, se não tiveram mão de obra análoga à escrava na produção, isso é um outro jeito de influenciar o sistema de produção de alimentos. 

Qual a sua dica para aqueles que buscam uma alimentação mais saudável? 

Se você quiser comer pelo planeta, você deve seguir uma dieta à base de plantas e, preferencialmente, regional, assim você reduz a poluição do transporte. Prefira também alimentos orgânicos e de fazendas sustentáveis, não desperdice a comida… e, é claro, não coma muito. Isso é uma dieta muito saudável ― para a pessoa e meio ambiente. 

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O Brasil acaba de aprovar uma nova classificação de agrotóxicos que, na prática, flexibiliza o uso e até o incentiva, segundo ambientalistas. Qual o impacto dos agrotóxicos na produção de alimentos?

Precisamos nos preocupar com os pesticidas, principalmente por seu impacto na população dos insetos, precisamente de abelhas, que têm um papel fundamental para a produção de alimentos. Nós estamos perdendo uma enorme diversidade de abelhas, pássaros e outros animais por causa do agrotóxico. E, de novo: são grandes empresas e indústrias que ditam as ações dos governos.

Isso é uma das coisas que precisamos entender: enquanto o sistema alimentar está criando mais danos ao ambiente, o ecossistema não consegue se recuperar dos danos, então não podemos esperar para agir. Precisamos saber o que vai acontecer e parar antes disso, reduzir os agrotóxicos, ter uma alimentação mais sustentável.